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Argentina terá eleição mais incerta em 20 anos

Quatro nomes estão na corrida para substituir Alberto Fernández no comando da Casa Rosada em outubro

O ministro da Economia, Sergio Massa, será o candidato presidencial da Argentina pelo centro governista O ministro da Economia, Sergio Massa, será o candidato presidencial da Argentina pelo centro governista  - Foto: Luis Robayo / AFP

Faltando pouco menos de um mês para as Primárias Internas Simultâneas e Obrigatórias (Paso) de 13 de agosto, nas quais serão definidos os candidatos que disputarão o primeiro turno da eleição presidencial de 22 de outubro na Argentina, quatro nomes se posicionaram como os principais candidatos de um pleito que analistas locais ouvidos pelo Globo consideraram o mais incerto dos últimos 20 anos.

Ninguém no país se atreve a antecipar quem finalmente se tornará o sucessor do peronista Alberto Fernández, que, amargando de 75% a 80% de desaprovação, desistiu de buscar a reeleição.

Na corrida pela Casa Rosada estão o ministro da Economia, Sergio Massa, o prefeito da cidade de Buenos Aires, Horácio Rodríguez Larreta, a ex-ministra Patricia Bullrich e o líder de extrema direita Javier Milei. Com entre 30% e 35% de indecisos, segundo pesquisas recentes, os quatro pré-candidatos (todas as candidaturas devem ser confirmadas nas Paso) estão numa campanha frenética para aumentar suas intenções de votos, num cenário desafiador para todos.

Entre fevereiro e junho, foram realizadas 15 eleições regionais na Argentina, nas quais em seis províncias foram eleitos governadores da opositora Juntos pela Mudança, do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019). Nas Paso de agosto, a aliança de centro-direita deverá definir se seu candidato em outubro será Larreta ou Bullrich. Em outras cinco eleições locais, venceram candidatos peronistas. No resto, foram eleitos governadores de partidos provinciais. Os candidatos apoiados por Milei — que não teve representantes em todos os pleitos — foram derrotados.

Os resultados regionais, portanto, não permitem determinar uma tendência clara. Um fator chamou a atenção: em várias eleições, a participação foi mais baixa do que em anos anteriores, o que poderia refletir um clima de apatia, ruim, principalmente, para os candidatos da oposição.

Só Milei não tem rival
Dos quatro pré-candidatos, o único que não terá rivais nas Paso é Milei. Até dois meses atrás, quando outros nomes ainda não estavam confirmados, o admirador de Jair Bolsonaro e Donald Trump era favorito. Mas o cenário, confirmam analistas como Mariel Fornoni, diretora da Management & Fit, mudou. Milei não está mais sozinho, sua imagem se desgastou por escândalos internos, suas propostas — entre elas a de dolarizar a economia — perderam fôlego, e a evidente dificuldade de armar uma estrutura política nacional o enfraqueceu.

— Até abril, estávamos impactados com os resultados de Milei porque ele chegou a superar 30% de apoio. Em nosso último trabalho em campo, em junho, ele caiu de 21% para 16% — comenta Fornoni.

Segundo a analista, “Milei expressou um voto de raiva, mas com a eleição se aproximando e outras candidaturas sendo definidas, uma opção outsider e sem experiência começou a derreter”. O que ainda mantém Milei entre os principais candidatos é a deterioração da situação econômica, o desespero dos argentinos por encontrar uma saída para a crise e a decepção de setores expressivos da sociedade com o peronismo e, também, a aliança de Macri. O deputado e economista conseguiu instalar um discurso contra o que ele chama de casta política. O problema é que para tentar articular um movimento nacional, foi obrigado a negociar com essa mesma casta — e fracassou.

— Milei não tem partidos que o respaldem, está sozinho e enfrentando acusações graves, como a venda de seu nome para apoiar candidatos no interior. Sua credibilidade foi afetada — explica o jornalista Julián Alvez, do El Cronista, que acompanha o fenômeno Milei desde 2021.

Duelo feroz na direita
Se até o início de maio, Milei dominava a agenda política nacional, atualmente as notícias se concentram na disputa entre Bullrich e Larreta, e nas tensões dentro da aliança de governo peronista, que condicionam a campanha de Massa — que ainda espera um sinal de apoio explícito da vice-presidente Cristina Kirchner.

A ex-ministra e o prefeito estão mergulhados num duelo feroz no qual Bullrich conta com o respaldo de Macri, e Larreta, com o de uma ampla lista de dirigentes de peso, além de um orçamento mais robusto. A guerra chegou a níveis inesperados de agressividade, incluindo declarações do prefeito sobre o “governo fracassado de Macri”, seu padrinho político.

Bullrich ganha entre eleitores que querem um governo linha-dura. A palavra mais pronunciada pela candidata é “ordem”, e sua campanha abordou temas que preocupam setores conservadores da sociedade, como a presença de estrangeiros — sobretudo latino-americanos — no país, estudando em universidades públicas e utilizando o sistema público de saúde. Essa estratégia, assim como uma postura antikirchnerista ferrenha, afirmam analistas, lhe permitiu captar votos que eram de Milei, mas poderiam limitar sua penetração em setores de centro. Ser a candidata de Macri é uma faca de dois gumes: a fortalece internamente, mas poderia prejudicá-la nas urnas.

Larreta, de perfil mais moderado, enfrenta o dilema de como crescer sem pôr em risco votos de centro. Nos últimos dias, o prefeito decidiu adotar um tom mais duro contra o kirchnerismo, na tentativa de eliminar dúvidas sobre seu compromisso com uma agenda de mudanças radicais, sem acordos com o passado. Larreta deve encontrar um equilíbrio entre diferenciar-se de Macri e Bullrich, sem queimar pontes com setores de centro, inclusive dentro do peronismo.

— Larreta é dúbio: quer acabar ou não com o kirchnerismo? Com Massa, que tem um perfil mais de centro e conservador, confirmado, ficou mais difícil para o prefeito se posicionar — afirma Diego Reynoso, da Universidade de San Andrés.

Para ele, “Massa é, sem dúvida, o mais competitivo dos candidatos peronistas”.

— Temos indicadores ruins, e um governo com alta desaprovação. Porém, a guerra na Juntos pela Mudança está distraindo a sociedade, e Massa, que é um grande articulador e líder, está se beneficiando — frisa Reynoso.

Panorama volátil
O crescimento de Bullrich prejudicou Milei, e a escolha de Massa abalou as chances de Larreta.

— Massa se mostra ativo e tem os recursos do Estado. Seu desafio é representar um governo desastroso — acrescenta o professor da San Andrés.

Segundo pesquisa da Proyección Consultores, realizada entre 25 e 27 de junho, Massa tem 30,3% das intenções de voto; Bullrich, 20,6%; Larreta, 14,1%; e Milei, 18,8%. Outro estudo da Analogias, também realizado em junho, mostrou que, unidos, os candidatos da Juntos pela Mudança têm 29,9%, a governista Unidos pela Pátria, 28,9%, e Avança Liberdade, 16,4%. O panorama é volátil, e somente as Paso confirmarão quem está na liderança da corrida pela Presidência argentina.

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