Arquidiocese assume gestão da Igreja de Santa Isabel, pertencente ao acervo dos Lundgrens

Templo localizado em Paulista sai das mãos da família Lundgren, de origem sueca

Anderson FerreiraAnderson Ferreira - Foto: Divulgação

 

Após 70 anos, o principal templo católico do eixo norte da Região Metropolitana do Recife muda de comando pondo fim a batalhas de fé e judiciais. A Igreja de Santa Isabel, localizada no Centro de Paulista, sai das mãos da família Lundgren, de origem sueca, que a construiu, e passa para a Arquidiocese de Olinda e Recife (AOR).

O que começou como uma promessa dos filhos para homenagear a matriarca resultou em uma matriz de estilo eclético, com mais de 60 metros de altura. A estrutura em tijolos vermelhos aparentes, instalada na rota principal da cidade, saltou de um lugar de devoção de operários da indústria têxtil para se tornar um dos maiores símbolos da região.
“A partir de agora contamos com mais segurança, reafirmando nosso compromisso de zelar por um exemplar único da arquitetura católica”, afirma o arcebispo dom Fernando Saburido. Segundo o religioso, o contrato de comodato traz detalhes curiosos. “Eles poderiam nos entregar em definitivo, mas preferiram impor uma cláusula com tempo determinado de dois mil anos. Enxergam isso como uma forma de preservar seu patrimônio”, conta.

A igreja, de 1946, assistiu a cidade crescer e se desenvolver a seu redor e está hoje em meio ao centro de comércio, lazer e serviços. “Ela faz parte da vida das pessoas. Os processos que existiam foram cancelados e agora podemos respirar aliviados”, admite o arcebispo.
Para as centenas de fiéis que lotam a missa do meio-dia, o dia atarefado e o sol a pino não representam empecilho. A mudança administrativa também não sinaliza mudanças na paixão pelo lugar. Cantam, erguem as mãos, prostram-se de joelhos e não escondem as lágrimas. “É a chance de abrirmos o coração e ficarmos mais pertos de Deus”, diz a aposentada Gertrudes Santos, 76 anos, que vai ao local desde criança.

“Meus avós trabalharam na fábrica (dos Lundgrens) e sempre nos contavam muitas histórias. Isso aqui faz parte da memória de todos nós”, completa. O sentimento é compartilhado pelo pedreiro Marcelo Mendes, 44, que aproveita o intervalo do almoço para participar. “O prédio já deveria estar nas mãos da igreja há muito tempo.”
Conforme o neto da matriarca, Nilson Lundgren, era desejo de seu pai manter oi templo no acervo da família.

“Porém, a igreja foi feita para o povo. Fico feliz em celebrar esse contrato”, afirma. A construção levou cerca de quatro anos para ficar de pé. No cume do altar há a inscrição de Elizabeth Regina, esposa de Herman Lundgren. Professora de formação e dona de casa por essência, ela veio da Dinamarca e, ao constituir família, teve cinco filhos, sendo eles Herman Júnior, Arthur, Anita, Frederico e Alberto.

A mansão do casal, recheada de mistérios, permanece cercada a poucos passos dali. A promessa é de abri-la a visitação. “Por não existir nenhuma santa com esse nome, a igreja acabou ganhando o nome de Isabel, rainha de Portugal”, explica a historiadora Eleonora Melo.
Segundo ela, as imagens dos altares foram doadas por comerciantes das redondezas. “Até as pinturas e esculturas foram obras de Hildebrando Eugênio, que também é autor da bandeira da cidade”, revela.

A estrutura possui três portas e uma única torre sineira no centro do seu frontão. São duas tribunas e um coro. No alto, coloridos vitrais contam a passagem de Cristo pela Terra. O local mantém o túmulo de João Ribeiro Pessoa de Mello, herói da Revolução de 1817. Pela legislação municipal, o imóvel é classificado como Imóvel Especial de Preservação (IEP) e não pode ter sua estrutura modificada sem a devida autorização.
Com o padre Adriano Chagas fica a missão de conduzir o templo e seus frequentadores. A matriz é sede da paróquia Nossa Senhora dos Prazeres de Maranguape, responsável por mais dez comunidades. “No dia a dia essa troca não implica em mudanças. Apenas acalora o nosso prazer de levar o evangelho para todos que estão ao nosso redor”, diz o pároco. Junto a ele está dona Amara Rezende, 77, que conhece o sobrenome familiar por morar no bairro vizinho de Arthur Lundgren. “Essa igreja é a nossa segunda casa”, afirmou.

 

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