"Arquiteto do crime", diz acusação sobre Zé Maria; Mysheva passa mal

Bruno Magalhães pediu a condenação de todos, mas disse que a pena de Zé Maria tem que ser a maior

Lula na saída da casa de Zé da PraiaLula na saída da casa de Zé da Praia - Foto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco

"Ele [Zé Maria] sempre foi um arquiteto do crime", disse o advogado José Augusto Branco ao júri neste último dia do julgamento do Caso Itaíba. Estão sendo julgados três dos cinco acusados de matar, três anos atrás, o promotor Thiago Faria Soares. Os três estão em regime de reclusão: José Maria Pedro Rosendo Barbosa (chamado de Zé Maria de Mané Pedro, que seria o mandante do crime), Adeildo Ferreira dos Santos e José Marisvaldo Vitor da Silva, conhecido como Passarinho. Os debates entre acusação e defesa devem se estender pela madrugada da sexta-feira (28).

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Relembre os destaques do julgamento do caso Thiago Faria Soares

A explanação da acusação começou pouco depois das 11h. O procurador do Ministério Público Federal (MPF) Bruno Costa Magalhães recitou um poema para sensibilizar os jurados (leia abaixo na íntegra) e defendeu que a pena de José Maria Pedro Rosendo deve ser maior que a dos demais. Durante as explanações da acusação, que se estenderam até as 14h15, a noiva do promotor morto, Mysheva Martins, chegou a passar mal e foi socorrida pelos bombeiros. A mãe de Thiago, Maria do Carmo Faria, que veio do Rio de Janeiro, chorava bastante.

Bruno Magalhães também citou indícios de que Zé Maria foi o mandante do crime, como o histórico dele, as desavenças com Lourival, pai de Mysheva, e a confusão por conta da herança. Ele também mencionou divergências na área demarcada na fazenda e o fato de Thiago ser uma peça fundamental na emissão de posse das terras. Ainda de acordo com Bruno, quando Zé Maria saiu da sede, alguém vandalizou a fazenda e ficou evidente que Zé Maria queria comprar as terras de volta. "A condenação desse caso traz a justiça possível. Cadeia pra criminoso não é vingança. Aos bons: premiamos. Aos maus: castigamos", afirmou Magalhães.

Já o advogado André Luiz Canuto destacou a frieza, covardia e ousadia dos acusados. Defendeu que a participação de Zé Maria era a pior, já que ele teria tido a coragem de mandar matar um promotor. E ponderou que "um homem com vários processos não tem como ser uma boa pessoa". Canuto falou ainda que a Polícia Civil teve limitações e a Polícia Federal fez precisamente o que poderia fazer, de maneira técnica, e "desvendou mentiras nas versões dos depoimentos dos acusados" - eles falavam que estavam num local quando estavam em outro (a PF fez rastreamento das antenas do celular).

Às 13h começou a fala de outro procurador da República, Alfredo falcão Júnior. Ele apontou contradições nos depoimentos dos réus e destacou a aproximação de Zé Maria com o outro réu, José Marisvaldo Vitor da Silva, o Passarinho.

"Santo do crime"
O advogado de Mysheva foi irônico em sua explanação. Para ele, Zé Maria é "um santo do crime no estado de Pernambuco e um santo pela impunidade. Ele é tão inteligente que, foragido, já utilizava a rede de televisões e mandava vídeos imputando a responsabilidade a Mysheva. Para colocar na cabeça da população a dúvida", defendeu diante do júri. "Com Zé Maria na rua a gente vai ter outro julgamento. A gente não pode deixar que Mysheva morra", apelou.

Branco disse ainda que Zé Maria sabe influenciar. "Manipular ele sabe, ele é artista. É o gênio do crime. Esse é o Zé Maria que todo mundo na região o conhece. Menos o coitado do promotor [Thiago], infelizmente. Promotor ingênuo, carioca, professor, cheio de planos, não sabia onde tava se metendo. Qual foi o fim? Tá aí: cabeça cheia de tiro", afirmou ele. Durante a fala, a mãe de Thiago chorava muito.

O advogado também acusou Passarinho, apresentando duas conversas telefônicas. Em uma, Passarinho diz que vai roubar um caminhão. Na outra diz que ele diz "tem que matar esse cara".

Às 14h20 foi anunciada uma pausa para o almoço. Depois, será a vez da defesa dos réus expor suas teses e argumentos. A expectativa é que o júri termine na madrugada desta sexta-feira (28).

Mysheva
Mysheva Martins passou mal durante a fala do procurador Bruno Costa Magalhães. Ela foi levada para uma sala reservada para ser acompanhada por bombeiros e retornou 1h30 depois. Apesar do susto, a pressão dela está normal e ela passa bem e voltou ao júri 1h30 depois. Maria do Carmo Faria, mãe do promotor Thiago Faria chorava bastante durante a sessão. Mais cedo, o advogado de Mysheva afirmou que ela estaria com medo de morrer, "muito abalada", e que tem tido acompanhamento psiquiátrico desde o crime. No terceiro dia do júri, quarta (26), ela foi alvo das acusações.

Poema de Rubem Alves recitado:

"Não acredito que haja dor maior que a morte de um filho. A princípio, é uma dor bruta, sem forma ou cores, como se fosse uma montanha de pedra que se assenta sobre o peito, eternamente. Com o passar do tempo, essa dor bruta se transforma. Passa a ser muitas, cada uma com rosto diferente, falando coisas diferentes. Há aquela dor que é a pura tristeza pela ausência. Ela só chora e diz: 'Nunca mais…' Outra é aquela dor que se lembra das coisas que foram feitas e não deveriam ter sido feitas, coisas que não foram feitas e deveriam ter sido feitas: a palavra não dita, o gesto que não foi feito. É a dor da saudade misturada com a tristeza da culpa. E há outra dor: a tristeza de que o filho não tenha completado o que começara".

Entenda o caso

O crime ocorreu no dia 14 de outubro de 2013 no interior de Pernambuco. Thiago Faria Soares estava no carro com a noiva, a advogada Mysheva Martins, e do tio dela Adautivo Martins. Eles seguiam pela rodovia PE-300 a caminho de Itaíba, no Agreste, quando foram abordados por homens armados.

Os tiros atingiram Thiago, que morreu no local. O veículo deles parou. O carro dos assassinos contornou a via e, segundo as investigações, retornou para tentar assassinar tio e sobrinha, que escaparam com vida após se jogarem para fora do veículo, na estrada. A arma do crime nunca foi encontrada.

A motivação do crime teria sido a compra de 25 hectares de uma fazenda em Águas Belas. O imóvel, que possuía uma extensão total de 1.800 hectares, foi adquirido por Mysheva em um leilão - com isso, parentes de José Pedro teriam sido obrigado a deixar o local.

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