As sopas... Parte II

Solange Carvalho Paraíso é nutricionista e atua no Tribunal de Justiça de Pernambuco no Núcleo do Programa Saúde Legal. Contato: 98654.1611

Solange ParaísoSolange Paraíso - Foto: Alfeu Tavares

A última coluna versou sobre um tema que teve uma repercussão bacana entre pessoas que leram, haja vista a identificação de cada um: as sopas. Sensibilizaram-me bastante os comentários das memórias afetivas e da pertinência do uso desta preparação culinária na alimentação de pessoas idosas. Por gostar de tais provocações, escolhi prolongar o tema um pouquinho mais...

Do ponto de vista da comida que causa conforto emocional, as sopas, para quem as aprecia, remetem a um tempo de cuidados e aconchegos, de tarde ou noite fria com chuva batendo na janela, de pés aquecidos com meias quentinhas, de gente doente sendo cuidada enquanto alguém prepara um caldo fumegante e aromático. Além disso, quem se esquece das sopas de letrinhas da infância, e da diversão que era brincar com elas, enquanto o tempo escoava preguiçoso?

Acho muito simbólica a inspiração dos entes caridosos, que levam a pessoas famintas e desassistidas os panelões de sopa e seus acompa­nhamentos, geralmente pão e café. Certamente o conteúdo i­ma­terial do cuidado, da compaixão e da fraternidade, não encontrados em tabelas de composição nutricional, são os mais puros ingre­dientes que nutrem a alma combalida enquanto sustentam o corpo físico.

A indústria de alimentos até que tentou tirar vantagem das inúmeras e benéficas características desse prato, usado universalmente: inventou as sopas de pacote cheias de conservantes, corantes e sódio, que não “chegam aos pés” das queridinhas sopas autênticas, cheias de sustância. Fiquei injuriada uma vez, ao visitar uma pessoa convalescente de uma doença grave, e ver um parente servindo uma dessas sopas de mentira, como se fosse algo de valor. Por ter muita intimidade com a família, respirei fundo, usei de toda resiliência que pude, e aproveitei para dar uma aulinha sobre a riqueza nutritiva de um honesto caldo de carne com legumes, etc. e tal.

Um dia desses recebi numa mala direta o informe de um fabricante de formulados chamados “substitutos parciais de refeições”. Pelo que entendi, o grande apelo de consumo era ser o primeiro produto da categoria com sabor salgado, ao qual denominou de sopa (usando palavras da língua inglesa, para dar mais charme, talvez). Sem entrar no mérito da questão nutricional, em si, meu impulso ao ler o resumo do informe (ou “release”, se quisermos ser chiques), foi do tipo “me engana que eu gosto”. Escrúpulos técnicos à parte, quando eu penso em sopa, quero sopa. Sopa de verdade, com pedacinhos de carne e verduras, ou, se for cremosa, com cheiro e sabor reconhecíveis dos ingredientes naturais que a originaram. Comida de verdade, faça-me o favor.

Quanto à versatilidade das sopas para atender às necessidades palatáveis e digestivas dos idosos, crianças e pessoas doentes ou convalescentes, é um recurso dos mais úteis - a começar da textura pastosa ou branda (como se diz no linguajar técnico da dietoterapia). É muito interessante quantos ajustes no sabor e na consistência se pode obter a partir da criatividade. Fazer uma sopa tem um quê de alquimia, como em toda a culinária, aliás. Não me lembro de existir prescrição minha nos hospitais e no momento da alta, assim como na orientação dietética a familiares e amigos, em que a indicação das sopinhas fosse esquecida – salvo para aqueles que, por qualquer razão, fossem avessos a elas, ou em cujas dietas não coubesse tal inclusão...