Atenção ao que se leva à mesa

Só este ano foram suspensas vendas de 54 produtores após o resultado insatisfatório de algumas culturas

Tadeu Alencar (PSB), em entrevista à Rádio FolhaTadeu Alencar (PSB), em entrevista à Rádio Folha - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

 

O principal problema do uso indiscriminado de agrotóxicos é a intoxicação. Nesse processo, não sofre apenas o meio ambiente, mas, principalmente, quem lida diretamente com a produção. O contato com as substâncias pode causar enxaqueca, náuseas, irritação na pele, fadiga e até distúrbios emocionais. Para se ter uma ideia do quão danoso é o problema, o número de intoxicações chega a 70 mil por ano em trabalhadores do campo, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em Pernambuco, o controle de resíduos agrotóxicos em alimentos é feito mensalmente pela Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária (Apevisa) em quatro supermercados, além do Centro de Abastecimento Alimentar de Pernambuco (Ceasa). Só de janeiro a novembro deste ano foram suspensas as vendas de 54 produtores, após algumas culturas apresentarem resultado insatisfatório. Só o couve-flor, por exemplo, apresentou uma alta concentração de agrotóxicos, com 71,4%. E hoje, quando se comemora o Dia Mundial de Combate ao Uso de Agrotóxico, é bom estar atento ao que se leva à mesa.

De acordo com o gerente-geral da Apevisa, Jaime Brito, a falta de capacitação técnica dos agricultores é um dos principais problemas que os fazem utilizar o produto de forma inadequada. Segundo ele, muitos agricultores tomam como verdade o que um balconista indica em vez de ouvir um engenheiro agrônomo.

O reflexo disso está nas próprias amostras. “Têm compostos químicos que são permitidos para fazer o ‘coquetel’ para determinada cultura, mas que não é para outra. Ou então coloca-se a quantidade de um determinado componente numa dosagem muito maior do que o permitido pela Anvisa”, explica.

Ele dá como exemplo a amostra de 200 grams de pimentão verde em que o produtor chegou a colocar dez vezes mais de clothianidin. “Os demais compostos que estavam no antídoto obedeciam à dosagem permitida, mas a alta concentração de clothianidin foi o que determinou o resultado como insatisfatório”, detalha Brito.

Comercializando hortaliças há 50 anos no Ceasa, José da Silva, 70 anos, só foi notificado uma única vez. Ele, que também é produtor, teve que suspender a venda de couve-flor até um novo laudo mostrar o contrário. E, conta ele, o apoio técnico fez a diferença. “Acho excelente esse controle feito pela Apevisa, já que são eles que nos alertam se nosso produto está apto para consumo ou não. E, ao seguirmos o correto, estamos ajudando a nossa saúde e o meio ambiente também”, reconhece.

Silva chega a vender por mês, só no Centro de Abastecimento, mais de 100 toneladas de alface, couve-flor, acelga, pimentão verde, cebolinha, entre outras hortaliças. Além do Estado, ele possui clientes na Paraíba e em Alagoas. “Temos que ter compromisso com nosso produto, pois, consequentemente, é ele que vai à casa das pessoas”, reforça o comerciante. Inácio Francisco da Silva, 71, mais conhecido como Inácio do Abacaxi, não tem consultoria própria, mas garante vender abacaxis de qualidade. “Uso agrotóxico pela necessidade de afastar as pragas, não para aumentá-lo de volume. Procuro ter o máximo de cuidado, porque se a Apevisa suspender minha venda, quem sairá perdendo sou eu. Eu mesmo planto e vendo, mas, graças a Deus, nunca tive contratempo em relação a isso”, afirma ele, que trabalha há 54 anos no Ceasa.

Dicas

Para diminur a ingestão de agrotóxicos, a chefe de Toxicologia e Vigilância Ambiental da Apevisa, Susiane Lopes, aconselha a optar por alimentos certificados como, por exemplo, os orgânicos ou “Brasil Certificado”.

Produtos com a origem identificada, conforme ela, aumentam o comprometimento dos produtores com a qualidade dos alimentos. “Aliado a isso, deve-se sempre lavar os alimentos antes do preparo para reduzir os resíduos de agrotóxicos presentes na superfície dos alimentos, principalmente aqueles que consumimos diretamente como alface e rúcula”, orienta.

Dados nacionais

Uma análise feita pela Anvisa em 25 categorias de alimentos apontou a laranja e o abacaxi como os que tiveram maior número de amostras com resíduos de agrotóxicos. De 744 amostras de laranja analisadas, 90 apresentaram resíduos.

Já no caso do abacaxi, foram analisadas 240 amostras. Doze delas entraram nessa categoria de risco. A maioria das situações de risco para a laranja está relacionada ao agrotóxico carbofurano, hoje em processo de reavaliação pela agência.

Na análise do abacaxi, a maior parte dos resíduos encontrados eram do agrotóxico carbendazim. A Anvisa, no entanto, faz ressalvas em relação aos resultados. Segundo a agência, alguns estudos trazem indícios de que as cascas da laranja e do abacaxi têm baixa permeabilidade aos principais agrotóxicos, o que reduz a concentração de resíduos na polpa.

 

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