Atletas fazem doações, mas são tímidos em debate

Comentarista Leonardo Bertozzi e o ex-jogador Alex analisam papel dos jogadores na discussão do presente e futuro do futebol em tempos de pandemia

[300] Bola do Campeonato Pernambucano[300] Bola do Campeonato Pernambucano - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Desde o crescimento do novo coronavírus, diversos atletas participaram de doações, tanto financeiras como de produtos ou equipamentos para hospitais. Recentemente, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) lançou uma campanha, em parceria com os profissionais da Seleção, para auxiliar os brasileiros no combate à doença, com uma doação de R$ 5 milhões. Ajudas que trazem à tona uma análise: além desse suporte, qual o papel dos jogadores na discussão do presente e futuro do esporte pós-pandemia?

Atualmente, com a paralisação dos jogos, os debates principais envolvem renegociação salarial, verbas de transmissão, direitos internacionais, patrocínios, entre outros pontos. Ainda assim, a participação de atletas brasileiros em discussões fora das quatros linhas é tímida. Um dos primeiros a encarar o "status quo" foi o ex-jogador Afonsinho. Nos anos 70, o "rebelde", de cabeleira vasta e barba cheia, se tornou o primeiro profissional do futebol a ganhar o direito ao passe livre após entrar na Justiça contra o Botafogo. Detalhe: 27 anos antes da Lei Pelé (9.615/98), que instituiria posteriormente tal possibilidade para os demais profissionais. “Homem livre em futebol eu só conheço um: Afonsinho. Este sim pode dizer com suas palavras que deu o grito de independência ou morte", disse Pelé, na ocasião. A história de Afonsinho rendeu até documentário, em 1974.

Nos anos 80, ficou famosa a "Democracia Corinthiana", movimento liderado por Sócrates, Wladimir, Zenon e Casagrande. O grupo foi criado para participar das decisões envolvendo o Corinthians. De 1981 a 1985, tudo foi resolvido pelo voto, das contratações ao local de concentração. Já em 2013, um grupo de atletas e ex-atletas se juntou para criar o "Bom Senso FC", projeto que tinha como meta analisar questões como o calendário nacional, o fair play financeiro, a regulação dos salários, entre outros pontos. Alguns protestos em campo marcaram o período. O grupo foi dissolvido em 2016. "Terminou pela falta de engajamento dos jogadores e da CBF", disse na ocasião Paulo André, ex-zagueiro e atual dirigente do Athletico/PR.

Será possível imaginar novas organizações de atletas para discutir o futebol brasileiro após o período do coronavírus? "O jogador de futebol, naturalmente, já se envolve muito pouco em questões fora de campo. Ele é pouco sindicalizado e mais individualista. Na época do Bom Senso, o movimento foi boicotado por clubes e federações, o que também prejudica. Diferente do que acontece em outros lugares. Na Itália, por exemplo, antes mesmo da proibição dos jogos, o sindicato dos atletas de lá já havia comunicado dias antes que os jogadores não entrariam em campo", citou o jornalista Leonardo Bertozzi, da ESPN.

Para o ex-jogador Alex, o problema em participar de debates que extrapolem a atuação direta no trabalho não é exclusividade do ambiente esportivo. "Não gosto de generalizar. Como em qualquer profissão, iremos encontrar todos os tipos de pessoa. Tem jogadores participativos, com opiniões e interferências, como também quem participa em quase nada. O mundo mudou, anseios mudaram. A sociedade hoje é bem diferente do que foi 20 anos atrás. E no futebol não é diferente. Hoje em dia, a informação chega muito mais rápido. E a preocupação com o “agradar” é muito maior do que com o melhorar", frisou o hoje comentarista e antigo integrante do Bom Senso FC, em entrevista à Folha de Pernambuco.

Também em entrevista recente à Folha de São Paulo, o zagueiro Wallace, do Göztepe, da Turquia, ressaltou a dificuldade de alguns atletas se posicionarem fora das quatro linhas. "Acho que há um paradoxo. A imprensa quer que o cara se posicione, porém o cara também fica em uma situação delicada, porque se ele se posiciona, é bombardeado. Como achamos o meio-termo? Ser diferente é difícil, e não estou falando de mim, que eu seja diferente, mas é difícil não seguir a mesma trilha de todos", afirmou. O jogador, com passagens por Corinthians e Flamengo, ficou conhecido por ter um blog de literatura, no qual compartilhava impressões sobre livros.

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