Autonomia contra a violência doméstica

Exemplo norte-americano mostra a importância da independência econômica para a liberdade feminina

O destino de uma naçãoO destino de uma nação - Foto: Divulgação

 

Investir na independência financeira das mulheres vítimas de violência doméstica pode ser um grande negócio para Pernambuco. Individualmente, pode tornar possível a chance de elas se tornarem completamente autônomas e serem capazes de deixar, enfim, o agres­sor.

Coletivamente, pode ser uma ferramenta importante para modificar a cultura machista que continua matando no Estado, apesar dos dez anos da criação da Lei Maria da Penha. Mas, principalmente, ter o próprio dinheiro pode diminuir as consequências da falta de estrutura para atendê-las nas pequenas cidades.

Casos reais de transformação por meio do empoderamento financeiro foram relatados na palestra da fundadora de uma agência de empregos voltada às mulheres que sofreram violência doméstica em Washington, D.C., Ludy Green. Na ONG, criada em 2001, já passaram 10 mil mulheres.

Dessas, 80% conseguiram um trabalho diretamente pela Agência. São casos em que um histórico de agressão foi substituído por uma nova vida, de crescimento profissional. “Essas mulheres têm muitos talentos que ficam escondidos por influência dos maridos. Trabalhando seus potenciais, a sociedade ganha essa mão de obra e a mulher ganha instrumentos para viver”, avaliou a doutora em psicologia organizacional.

Para a vice-presidente do Instituto Maria da Penha, Regina Célia, essa autonomia financeira deve ser conseguida com a conscientização do empresariado e deve ter como consequência uma mudança cultural. “Já há esforço do poder público em profissionalizá-las, com projetos em par­ceria com o Sebrae, por exemplo. Agora é necessário movimentar os empregadores. Ludy Green tem 230 parcerias empregatícias nos EUA”, opinou.

“Por outro lado, quan­do o homem vê na mulher um ser mais fraco, financeiramente dependente, ele confirma a cultura machista. Se ele enfrenta uma mulher independente, muda o pensamento sobre ela. Infelizmente, ainda há as situações em que ele agride justamente por se sentir inferior.”

Regina acredita ainda que a questão mitigaria consequências da falta de estrutura para atender as vítimas de violência nas pequenas cidades. Com dinheiro, não precisariam tanto dos abrigos. A própria Maria da Penha considera essa uma questão crucial para a aplicabilidade da lei no interior. “São lugares onde essa legislação protetiva é só um nome no papel. Precisam de abrigos para acolhê-las, para que elas estejam seguras ao denunciar os agressores.”

Ser como quiser
Para além da independência financeira, o domínio do próprio corpo é definitivo para uma autonomia completa, segundo a presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB-PE, Fernanda Maranhão. “Um exemplo é ela não poder mais fazer esterectomia durante a cesária. Com isso, não decide nem se quer parar de ter filhos, por exemplo. Outra grande preocupação é o fato de uma mulher que traz como discurso a necessidade de submissão em relação ao homem ser a vereadora mais votada na minha Cidade. Esse discurso precisa parar, porque ele mata.”

 

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