Ayahuasca: tráfico ou conhecimento?

Eduardo Chianca e outros pesquisadores perceberam drogas que atuam no sistema nervoso central como potencializadoras de conhecimento

Sigmund Freud pesquisava a cocaína em laboratório e a  utilizava, quando ela ainda não era ilegalSigmund Freud pesquisava a cocaína em laboratório e a utilizava, quando ela ainda não era ilegal - Foto: Reprodução

Viajar à Rússia com a bebida indígena ayahuasca, proibida naquele país, na bagagem, levou o terapeuta holístico Eduardo Chianca, 68, a enfrentar mais de dois anos de prisão. Foi detido assim que chegou no aeroporto de Moscou. Psicodélica, a substância era usada para uso e estudo pessoal, nas próprias meditações. Chianca, criador da terapia de frequência de luz, foi extraditado e chegou na última quinta-feira ao Recife, onde cumpre em liberdade o resto de sua pena de três anos por tráfico de drogas.

Chianca não é o primeiro pesquisador a trabalhar - nem a se prejudicar - com substâncias proibidas que atuam no sistema nervoso central. No início do século passado, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, chegou muito perto de descobrir o poder anestésico da cocaína. “Na época ela não era marginalizada como é hoje. Ele fazia uso pessoal enquanto estava estudando-a em laboratório. Até para a dor de dente de crianças se usava a pasta de coca. Ele receitou para noiva e para um amigo que tinha nevralgia, uma dor insuportável. Esse morreu ao fazer uso excessivo da cocaína. Foi quando Freud deixou de usá-la”, conta o psicólogo Sylvio Ferreira.

Dentro da universidade de Harvard, Timothy Leary realizou experiências com LSD. Foi processado pelo FBI e fugiu para a Ásia. Em outros casos, os estudiosos saíram incólumes. “Aldous Huxley fez uso do LSD sob orientação médica e descreveu a abertura dos campos perceptivos em livro’. O antropólogo americano Carlos Castañeda foi até o Novo México estudar a tribo Yaqui e, após iniciação feita com a alucinógena mescalina pelo pajé Don Juan, voltou para Nova Iorque, se isolou, desistiu da pesquisa e escreveu dez livros sobre o índio. O mais conhecido é o primeiro, ‘A erva do diabo’.”

O ayahuasca é muito parecido com as drogas já referidas, mas é legal no Brasil com algumas restrições, como para uso em rituais religiosos ou pesquisas, como é o caso de Chianca. A bebida é feita de partes de duas plantas. Não é propriamente um chá, como normalmente chamam. A folha da chacrona e as casas de um cipó chamado jagube. Ambos são fervidos por horas até se tornarem a bebida desejada.

Utilizado há séculos na bacia Amazônica por brasileiros, colombianos e peruanos em rituais indígenas, servem principalmente para a cura. O efeito dura, em média, 4 horas. A doutora em neurociência explica que foi na época da extração da borracha, no Norte, que os centros urbanos se aproximaram das tribos e tiveram contato com o bebida.

“Seu efeito psicodélico muda a forma de se perceber o mundo. O tato é afetado, como mudanças de temperatura, formigamento”, explica pesquisadora do Instituto do Cérebro da UFRN Fernando Palhano. Mas o que as pessoas buscam nos rituais são as visões que se tem quando se fecha os olhos. “A imaginação fica mais vívida. É como se sonhasse, mas muito mais vividamente. Essa é a sua característica mais forte”

Escandinavos experimentam ayahauasca, no Acre, com o intuito de expandir a consciência e conhecer mais sobre si. A droga, lícita para rituais como o Santo Daime, causa visões quando os olhos são fechados

Escandinavos experimentam ayahauasca, no Acre, com o intuito de expandir a consciência e conhecer mais sobre si - Foto: Antônio Gaudério/Folhapress

A bebida, assim como o LSD, atua no sistema nervoso central influenciando principalmente o neurotransmissor serotonina. Abre as “portas da percepção”, como sugere Aldous Huxley. Mas também atua sobre o humor, deixando as emoções exacerbadas - tanto as positivas quanto as negativas. “A concepção tempo e espaço fica diferente. As horas se percebem de maneira diferente. O pensamento fica muito mais rápido e a pessoa fica mais suscetível aos insights (compreensões internas).”

O efeito psicodélico vem da substância chamada DMT, contida na chacrona. Mas ela só faz efeito com a casca do cipó. “O DMT sozinho é digerido no intestino. Mas a beta-carbonina do jagube inibe ação das enzimas que o digeririam e ela pode, então, ser absorvida. Por isso os dois precisam trabalhar juntos para o efeito existir.”

Ela estudou o ayahuasca na sua pesquisa de doutorado. “Vimos que pessoas com depressão bebiam uma vez e tinham uma melhora animadora em sete dias. E a importância disso foi grande porque todas elas eram pessoas resistentes à medicação que já existe no mercado. Outra questão é que o ayahuasca teve uma ação rápida. Os antidepressivos demoram até 15 dias para começarem a fazer efeito e têm até 3 meses para chegarem à sua atuação ótima.” Além da depressão, a longo prazo, estudos mostram que as pessoas que tomam com frequência o ayahuasca mudam a personalidade e se tornam pessoas mais “abertas”.

A bebida utilizada na pesquisa chegava a Natal direto de Roraima. “Há um grande respeito pela substância. Há um ritual para se fazer. Essas plantas Não se encontram em barraquinhas no mercado. São liberadas somente para fins religiosos e estudos como o meu, que passou por um conselho de ética que o aprovou”, explicou Fernanda Palhano.

A prisão
Chianca precisou criar jogos mentais para sobreviver à reclusão. “Quando estava muito frio, nevando a -30°, eu imaginava que eu era um explorador, um cientista dentro de sua cabine na Antártida. E dava graças a Deus por estar protegido dentro da cabine“, lembrou. “Foi como em ‘A vida é bela’, o filme de Roberto Benigni.” Encarou o período de reclusão e isolamento como uma grande missão. Escreveu três livros sobre humanidades, espiritualidade e cura. Ainda fez uma decodificação do capítulo do Apocalipse, da Bíblia, de 500 páginas.

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A alta atividade mental e a imaginação ajudavam a fugir da realidade da prisão. “As instituições da prisão, do ponto de vista do governo e do estado, são organizadas, os policiais são educados. Mas o problema é o prisioneiro com quem você convive durante as 24 horas de um dia. Uma pessoa louca ou drogada. Tive que seguir as três regras da prisão e criar mais duas.”

Segundo Chianca, as regras são: não confie, não tenha medo, não faça perguntas, não fale e não escute. “Você não pode confiar em ninguém. O jeito deles é de prejudicarem uns aos outros. Eles querem que você morra na prisão, porque isso é uma compensação para eles. Eu bloqueei o meu campo mental, eu me isolei.” Estava completamente alheio ali. Não falava, não escutava, não compreendia e não queria conversa. Ficava na minha, escrevendo. Então eu tratei isso como um retiro espiritual.”

Vegetariano, comeu de tudo que se oferecia na prisão. Menos carne de porco, que surgiu na mesa algumas poucas vezes. “De uma galinha que era só osso, eu lambi o osso. Comi carne bovina. É a sobrevivência. E você tem que ser rápido. Se você não for rápido, eles comem tudo e você fica lambendo a colher.”

Do Brasil, família e amigos tentavam mudar a situação de Eduardo. Adelma Nobre traduzia para o inglês as cartas enviadas às embaixadas em várias cidades do mundo. Ela também é terapeuta holística, foi iniciada na corrente criada por Chianca.  Escrevíamos para mostrar a seriedade do pesquisador. Há centenas de pessoas em todo o mundo que seguem a terapia que ele criou. É um estudioso da consciência humana e não um traficante de drogas”, argumentou.

 

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