Belém registra filas, UTIs lotadas e morte de paciente na porta de hospital

Unidades de saúde sofrem com falta de pessoal e de equipamentos

Profissionais da saúde no enfrentamento da pandemia no BrasilProfissionais da saúde no enfrentamento da pandemia no Brasil - Foto: Silvio Avila/AFP

Pacientes suspeitos de Covid-19 aglomeram-se em filas em frente a hospitais, unidades de pronto atendimento e policlínicas de Belém (PA). Ambulâncias engarrafam as entradas dos hospitais de referência para o tratamento da doença. Unidades de saúde sofrem com falta de pessoal e de equipamentos.

A capital paraense vive uma escalada dos casos do novo coronavírus nos últimos dias. Ao todo, o estado registrou até esta quarta-feira (22) 1.195 casos da doença e 43 mortes. Mas o número tende a ser muito maior, dada a pressão que vem sofrendo a rede de atendimento médico da cidade.

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"Nós estamos vivendo um momento muito difícil no combate ao coronavírus. O sistema de saúde, tanto público quanto privado, está extremamente pressionado", afirmou o governador Hélder Barbalho (MDB), ele mesmo infectado pela doença, em um vídeo publicado em uma rede social. A ocupação de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) da rede pública atingiu a marca de 91% nesta terça-feira. Na rede municipal de saúde de Belém, a ocupação dos leitos de terapia intensiva chegou a 100%.

Já há registro de pacientes com sintomas da doença que morreram sem atendimento. No último sábado (18), a escrivã da polícia civil Raquel Monteiro de Albuquerque, 48, morreu nos braços do marido na entrada do hospital Dom Zico, gerido pela prefeitura. Com sintomas como febre alta e falta de ar, a policial havia buscado atendimento em unidades de emergência em dois hospitais particulares de Belém, mas ambos estavam superlotados.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que o hospital não funciona no sistema porta aberta e só recebe pacientes transferidos via regulação. A secretaria também informou que a família da paciente foi orientada a seguir para uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Mesmo se fossem para uma UPA, a situação não seria diferente. A capital paraense tem apenas cinco unidades de pronto atendimento geridas pela prefeitura, das quais só quatro estavam em funcionamento pleno até esta terça. Todas sobrecarregadas.

Segundo a prefeitura, cada UPA tem capacidade para atender 340 pacientes por dia, mas atendendo até 500 diariamente. Na porta das unidades, pacientes se aglomeravam em filas e muita gente voltou para casa sem conseguir atendimento.
Nesta quarta-feira (22), um homem morreu sem atendimento na porta da UPA do bairro Sacramenta. Ele chegou acompanhado da irmã por volta das 6h30 mas, sem os sinais vitais, nem chegou a dar entrada na unidade médica. Testemunhas informaram que ele sentia falta de ar. A secretaria municipal de saúde informou que ele tinha uma doença infecto contagiosa. O corpo foi encaminhado para p Serviço de verificação de óbito para investigação.

Também há relatos de falta de médicos nas unidades de pronto atendimento. Segundo a prefeitura, 5% dos servidores de saúde tiveram que se afastar do trabalho por suspeita ou contaminação com o novo coronavírus. Para suprir o deficit, os médicos que estavam no cadastro no último concurso da prefeitura estão sendo convocados emergencialmente. Diante da alta demanda nas unidades básicas e de pronto atendimento, o governador determinou que a Policlínica Metropolitana de Belém ficasse 100% destinada ao apoio a pacientes com sintomas respiratórios agudos.

Nesta terça-feira (21), no primeiro dia de atendimento exclusivo dos casos suspeitos, o cenário foi de filas e aglomeração. Os portões que deveriam ter ficado abertos até as 22h foram fechados às 18h por causa do intenso fluxo de pacientes.
Segundo o governo do estado, 380 casos suspeitos foram atendidos na policlínica apenas nesta terça-feira. Oito transferências foram realizadas para o Hospital de Campanha montado no Centro de Convenções da Amazônia.

Inaugurado em 10 de abril, o hospital de campanha tem 420 leitos de média e baixa complexidade. A expectativa é que parte dos leitos sejam convertidos para UTI. Contudo, os equipamentos comprados pelo governo do estado, incluindo os respiradores, ainda não chegaram. Enquanto isso, hospitais de referência da rede pública para o tratamento da Covid-19 chegam ao seu limite. Na última semana, filas de ambulâncias se formavam na entrada do hospital estadual Abelardo Santos.

Também há falta de profissionais no âmbito estadual. Nesta quarta, a secretária estadual de Saúde, Hana Ghassan, enviou um ofício para o Conselho regional de Medicina do Pará solicitando a indicação de profissionais "habilitados a atuar imediatamente na cidade de Belém".

A formatura de 60 estudantes de medicina da Universidade Estadual do Pará foi antecipada. E o governador anunciou que vai recrutar parte do grupo remanescente de médicos cubanos que participaram do Programa Mais Médicos para auxiliar a prefeitura nos atendimentos em UPAs e unidades de emergência.
A secretaria de Saúde do Pará foi procurada, mas não respondeu aos questionamentos da reportagem até as 18h desta quarta.

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