Beleza daninha no fundo do mar

Originário do Indo-Pacífico, o coral-sol ameaça as espécies nativas da costa nordestina ocupando os lugares onde havia algas, esponjas e similares. Impacto se estende a peixes herbívoros

Palácio do GovernoPalácio do Governo - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

No mar, ele chama a atenção pelas expressivas cores em tons vermelho-alaranjado e amarelo e enche os olhos de mergulhadores. É um tipo de coral, trazido do oceanos Pacífico e Índico por meio de plataformas de petróleo e navios, que, mesmo com toda a beleza, representa uma ameaça silenciosa à biodiversidade marinha. Do mesmo grupo das águas-vivas, o coral-sol se reproduz de forma assexuada, provoca extinção de corais nativos e pode reduzir a oferta do pescado a longo prazo.
No litoral nordestino, a “praga marinha” se instalou em Sergipe, Ceará e Bahia. Pela proximidade, a chegada dessa espécie nos costões recifais de Pernambuco, alertam especialistas, é “questão de tempo”. O mais preocupante é que parte do Estado está inserida na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, a maior unidade de conservação do País, com 400 mil hectares, gerida pelo ICMBio.
“Lá (na APA), há uma grande oferta de substratos, ideal para o coral-sol se reproduzir. Para chegar em toda a costa da APA é rapidinho. Pode ser amanhã ou daqui a 100 anos.

 Tudo depende do que fizermos hoje. Caso as plataformas continuem circulando contaminadas com coral-sol, prevejo grandes problemas, inclusive para a pesca artesanal. Se era do Indo-Pacífico e já chegou no Nordeste, nada impede que Pernambuco seja o próximo”, projeta o oceanógrafo Marcelo Mantelatto, do Projeto Coral-Sol. Com 130 km, a Costa dos Corais passa por 11 municípios, de Tamandaré (PE) a Paripueira, (AL). Hoje são encontradas duas espécies: Tubastraea coccinea e Tubastraea tagusensis.
O alerta deixou atentos técnicos do Cepene, do ICMBio. Mergulhos são feitos periodicamente para detectar a presença do coral-sol nos costões. “Estamos em articulação com a gestão da APA para buscarmos uma ação de combate específica. Até lá estaremos monitorando e buscando apoio de empresas de mergulho para que nos ajude”, conta o coordenador do Cepene, Leonardo Messias. Sem política específica de combate ao coral-sol em nossas águas, o controle é feito manualmente, mergulhando-o por três horas em água doce (ver vídeo). “Com o auxílio de um martelo e uma talhadeira, o coral-sol é retirado, colocado em sacos e jogado em qualquer recipiente com água doce. Mas isso só é possível quando encontrado em pouca quantidade”, ressalta.
Impacto
A competição é desleal: enquanto corais nativos crescem menos de um centímetro ao ano, o coral-sol cresce três vezes mais. A reprodução é feita por liberação de larvas pelos coralitos que vagam pelo oceano até achar lugar apropriado para se assentar, em geral costão rochoso. Ele libera substância que inibe a presença de outras espécies ou as queima com seus tentáculos (ver arte). “Só precisa de um espacinho. Onde havia algas, esponjas e todas essas espécies que ocupam o costão agora é só coral-sol. Também há impacto sobre peixes herbívoros, que se alimentam das macroalgas e perdem seu banco de alimentos. Muda toda a dinâmica marinha. É bonitinho, mas ordinário”, brinca Mantelatto.
Limpeza
O oceanógrafo alerta para a necessidade de se implantar ações para barrar o avanço do coral-sol. “Precisamos de políticas públicas para que as plataformas não circulem por aí sem sabermos o que existe incrustado nelas. Quanto mais plataformas um local recebe, mais propícia à invasão é a região. Hoje é o coral-sol, amanhã podem ser outras espécies exóticas e mais nocivas.”
O Ministério Público Federal afirmou que não há apuração no Estado sobre o assunto. O Ministério de Meio Ambiente (MMA) informou que, desde o início do ano, desenvolve ações para elaborar o Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Coral-Sol no Brasil; que foi realizado seminário de nivelamento sobre a bioinvasão; e que as discussões são levadas para o Grupo de Trabalho Intersetorial da Comissão Interministerial para Recursos do Mar. A publicação do documento, em 2017, definirá as estratégias de combate e o órgão competente.

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