Berçários em risco: como o derramamento impacta os estuários pernambucanos

Vazamento de petróleo cru no litoral nordestino acende alerta para a sobrevivência das inúmeras espécies que coabitam os estuários de Pernambuco. Sete deles, segundo a CPRH, já foram atingidos pelo óleo, que libera substâncias tóxicas e prejudica a cadeia

Estuários são impactados com contaminaçãoEstuários são impactados com contaminação - Foto: Arthur de Sousa/Folha de Pernambuco

Local de transição da água doce para o mar, a foz dos rios forma um importante ecossistema que abriga inúmeras espécies, de peixes a seres microscópicos, como os plânctons. Também é nos estuários - o tipo de foz que predomina no litoral pernambucano - que crescem os manguezais, berçários naturais para a reprodução de peixes, crustáceos e cavalos marinhos.

Por exercerem um papel essencial para a biodiversidade, a qualidade desses ambientes preocupa biólogos e ambientalistas desde que toneladas de petróleo cru começaram a invadir a costa nordestina, há quase dois meses.

Segundo o último balanço divulgado pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH), dentre os 48 pontos dos 13 municípios atingidos até a sexta-feira pelo vazamento no Estado, sete são estuários, afetando os rios Persinunga, Formoso, Una, Maracaípe, Mamucabas, Massangana e Jaboatão, todos no Litoral Sul (veja na arte). No Norte, onde apareceram novas manchas nos últimos dias, o alerta recai sobre outros estuários ainda não atingidos, como os do Timbó, em Paulista, e do Tracunhaém, em Goiana. Em boa parte deles, foram colocadas boias de contenção para evitar o avanço da contaminação pelo petróleo.

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“O ambiente estuarino tem uma dinâmica diferente do marinho, que tem um regime de marés com diferentes correntes, o que não ocorre no estuário, onde as águas são mais lentas, mais paradas. A grande preocupação é que esse material, quando se junta à água doce ou menos salgada, tende a se sedimentar no fundo, onde tem toda uma comunidade de animais que sofrerão as maiores consequências”, explica o professor Luiz Costa, coordenador do curso de Ciências Biológicas da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

Segundo o professor do departamento de Biologia da Universidade de Pernambuco (UPE), Clemente Coelho, esses berçários podem sentir dois tipos de impactos: os agudos, que são sentidos a curto prazo; e os crônicos, que impactam ao longo do tempo. “São vulneráveis, principalmente, por causa da vegetação e das florestas do mangue. Em virtude do emaranhado de raízes, é mais fácil que ele [óleo] fique impregnado nas raízes, e isso pode levar ao sufocamento, que dependendo da situação, pode causar a morte das árvores. Estes são os problemas agudos. Já os crônicos são quando há a decomposição do petróleo no local, liberando moléculas nocivas à fauna e flora, causando não só a morte, como todo um problema na cadeia”, explica.

Em busca de soluções

São necessários mais estudos para avaliar a extensão do que pode ter sido contaminado. Para isso, a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe) lançou, na sexta-feira, edital que destina R$ 2,5 milhões para pesquisas sobre os impactos do óleo no litoral do Estado. Serão selecionados 12 projetos para serem executados no prazo de um ano.

Entre os objetos de estudo contemplados, estão o mapeamento de áreas, impactos ambientais e socioeconômicos, tratamento e medidas para a saúde pública e segurança alimentar. “Há uma preocupação em relação aos criatórios naturais, que são os estuários. Estamos usando equipamentos que inibem, mas que não resolvem definitivamente. Tem muita gente da área científica para ajudar”, afirma o secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Aluísio Lessa.

Um dos locais que mais preocupam voluntários e estudiosos é a foz do rio Formoso, que divide os municípios de Tamandaré e Barreiros. Por lá, um volume de petróleo chegou a áreas de mangue. “Muitas espécies marinhas migram para essas regiões para se reproduzirem”, diz Costa. Entre elas, larvas de peixes, moluscos e crustáceos, incluindo animais ameaçados de extinção, como o mero, peixe gigante de até 3 metros de comprimento que é protegido por lei federal.

A vegetação também é vulnerável. Segundo a professora de Gestão e Impacto Ambiental da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Soraya El-Deir, o manguezal pode levar até 30 anos para se recompor, dependendo do grau de contaminação, caso se consiga retirar o poluente. “Se o petróleo impregnar nas raízes e caules das plantas, o protocolo mais radical diz que a gente deve retirar essa vegetação completamente comprometida para poder aumentar a capacidade regenerativa [do ecossistema]”, detalha.

Além da recuperação lenta dos ecossistemas, a limpeza do material se torna mais difícil nesses locais do que nas praias. “A grande discussão agora é como se retira esse óleo dos estuários, com o comitê de crise. Ainda não há um protocolo para a limpeza do mangue, principalmente, pela dificuldade de se retirar desses locais. Os produtos que são sugeridos podem ser mais nocivos que o próprio óleo para os ecossistemas. Em outros casos, a poda das árvores também não é recomendável, porque também há impacto”, ressalta o professor Clemente Coelho.

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