Campanha na TV antecipa discurso de Doria sobre segurança para 2022

Doria mira fatias do eleitorado que já deixaram de apoiar o presidente na centro-direita, mas tenta não alienar centristas desgostosos com a violência policial

Governador de SP, João DóriaGovernador de SP, João Dória - Foto: Divulgação / Gov. de São Paulo

O governador João Doria (PSDB-SP) lançou uma campanha que servirá de piloto para a venda de uma de suas principais bandeiras eleitorais, a segurança pública.

O filme para a televisão fala diretamente ao eleitorado conservador, mas busca diferenciar-se da brutalidade associada ao discurso do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e do governador Wilson Witzel (PSC-RJ), prováveis nomes na disputa pelo Planalto em 2022.

A primeira peça foi divulgada no domingo (22), e versões dela ficarão no ar até o dia 14 de outubro, além de serem veiculados em meios impressos.

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A campanha custou R$ 12,7 milhões e foi feita pela agência Lew'Lara, uma das três que cuidam da conta de R$ 150 milhões anuais do governo.

Os criadores viam um valor de R$ 16 milhões como ideal, mas tiveram de se adequar ao orçamento, que neste ano entregou peças sobre violência contra a mulher, turismo e o Instituto do Câncer.

O filme tem qualidade técnica inusual em propagandas oficiais, com cenas reais editadas numa espécie de cruzamento de "Tropa de Elite" com algum episódio da série "CSI": policiais atirando, pesquisas forenses em laboratório, tudo com um padrão cinematográfico.

A ênfase é no serviço prestado por uma polícia vendida como a melhor do país, tanto que os números de emergência 181 (Disque Denúncia) e 190 (PM) são o "produto" apresentado ao final na propaganda.

Para amparar a venda, os números positivos que Doria colheu na seara até aqui, como o menor índice de homicídios no estado da história e dados sobre operações.

São Paulo registrou em 2018 9,5 homicídios por 100 mil habitantes, ante 27,5 da média nacional. A queda foi operada paulatinamente desde 2001.

Naquele ano, o estado tinha uma taxa de 33,3 mortos por 100 mil habitantes.

Ao fim do primeiro semestre deste ano, a queda chegou segundo o governo a 6,5 por 100 mil. Por outro lado, a letalidade policial cresceu 11% no período. Especialistas dizem não haver correlação necessária entre os dois dados.

Doria tem trabalhado para tentar afastar-se da imagem de Bolsonaro, a quem se ligou no segundo turno de 2018 para aproveitar a onda conservadora que levou o então deputado à Presidência.

O tucano tem dado declarações criticando o presidente.

Também coloca suas ações como alternativas às do Planalto. Na terça (24), chamou o discurso de Bolsonaro na Organização das Nações Unidas como inoportuno e sem bom senso. Na via inversa, recebe críticas pontuais do presidente e de seus aliados.

Doria busca se mostrar mais conciliador em declarações, sem contudo antagonizar-se com a área econômica do presidente, a qual apoia. Pontualmente, tenta se diferenciar: apresentou nesta quarta-feira (25) um programa de casas populares no estado, enquanto mínguam os recursos federais para o setor.

Doria mira fatias do eleitorado que já deixaram de apoiar o presidente na centro-direita, mas tenta não alienar centristas desgostosos com a violência policial.

O caso do Rio é emblemático: Witzel vem sendo criticado reiteradamente por sua política pró-letalidade, como no episódio da bala perdida que matou a menina Ágatha Félix, de oito anos.

Em 2018, o Rio já tinha a maior proporção de mortes causadas por forças de segurança: 22,8% do total.

No estado, houve naquele ano 39,1 homicídios por 100 mil habitantes.

A peça de Doria, por sua vez, enaltece o encarceramento.

O estado bateu recorde com 116.491 presos de janeiro a julho, reforçando o slogan "Polícia na rua, bandido na cadeia". Especialistas criticam a abordagem e apontam excesso de detenções desnecessárias.

Bolsonaro adota a mesma retórica de enfrentamento direto, mas é nos estados, responsáveis na ponta pela política de segurança, que as diferenças são visíveis.

O secretário de Comunicação do tucano, Cleber Mata, não comenta os fatores eleitorais na avaliação da campanha. "Nossa intenção era a de mostrar a polícia não de forma tímida, e exaltar sua qualidade e serviço", afirmou.

"Hoje, há prefeitos no interior que pedem a instalação dos Batalhões Especiais de Polícia, o chamado padrão Rota", afirma, em referência a unidades que emulam o treinamento do temido batalhão de ronda ostensiva da capital.

Mata diz que pesquisas internas à disposição do governo indicam aprovação da população às iniciativas de Doria na segurança, como o aumento de policiais em ronda e os ditos batalhões.

Doria elegeu a segurança como prioridade já no começo do mandato, beneficiado pela herança positiva dos anos dominados por Geraldo Alckmin (PSDB) e aliados no poder. Diferentemente de antecessores, ele se reúne pessoalmente toda quinta-feira com a cúpula do setor.

Também estruturou a Secretaria da Segurança Pública, com o general da reserva João Camilo Pires de Campos à frente, com mais poder às polícias: os chefes da Militar e da Civil atuam como adjuntos do militar.

Além disso, o governo paulista autorizou compra de armas e carros de patrulha

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