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Coronel que já mediou dois motins tentará novo acordo com PMs no Ceará

O objetivo é chegar a um acordo para o fim da paralisação até sexta-feira (28)

PMs protestam no CearáPMs protestam no Ceará - Foto: Reprodução/ Twitter

Um coronel da reserva da Polícia Militar foi escolhido para mediar negociação entre os policiais militares paralisados no Ceará e uma comissão criada com membros dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. O coronel Walmir Medeiros já teve atuação semelhante em outro motim dos PMs cearenses, entre 2011 e 2012.

O motim chega nesta quarta-feira (26) ao nono dia, com saldo de ao menos 170 assassinatos no estado e quatro quartéis fechados por PMs e familiares -em Fortaleza, Caucaia, Juazeiro e em Sobral.

Foi em Sobral, a 270 km da capital cearense, que o senador licenciado Cid Gomes (PDT) foi baleado após investir contra amotinados com uma retroescavadeira, na semana passada. Cid já teve alta e se recupera em sua casa em Fortaleza.

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O objetivo é chegar a um acordo para o fim da paralisação até sexta-feira (28), quando terminará a GLO (Garantia da Lei e da Ordem) assinada pelo presidente Jair Bolsonaro. O governo federal enviou 2.600 homens das Forças Armadas para ajudar no policiamento ostensivo no Ceará. Não há previsão, no momento, de prorrogação da GLO.

A comissão não quis negociar diretamente com líderes da paralisação; por isso, a escolha de um mediador que não participa do motim. A opção por Medeiros foi feita após visita nesta quarta (26) do presidente da OAB-CE (Ordem dos Advogados do Brasil), Erinaldo Dantas, ao 18º Batalhão da PM, uma espécie de quartel-general dos amotinados. A OAB participa da negociação como observadora, junto com o Ministério Publico do Ceará.

"Não pretendemos acabar com a paralisação até acertarmos os termos de um acordo", disse à reportagem um dos líderes do movimento, o ex-deputado federal Cabo Sabino.

Ele esteve todos esses dias junto com os policiais paralisados no 18º Batalhão, que desde a noite de 18 de fevereiro tem o acesso bloqueado por viaturas com os pneus esvaziados.

Sabino disse que são três as principais reivindicações que serão enviadas à comissão por meio de Medeiros: anistia para transgressões administrativas dos policiais que protestam, aumento de salário de soldado para R$ 4.932 (em uma parcela) e equiparação do auxílio-alimentação dos militares ao que é pago a outros servidores do governo. "Queremos a anistia administrativa. Aqueles que cometeram crimes nesse período, que paguem pelos crimes. Sobre o aumento nossa pauta é receber de uma vez, mas vai pela negociação", disse Sabino.

O governo avisou que não pretende dar anistia a nenhum dos policiais envolvidos na paralisação –230 já foram afastados por 120 dias e ficarão fora da folha salarial no período. Outros 43 foram presos, 37 por deserção por não terem aparecido para trabalhar em operação especial de Carnaval no interior.

O governador, Camilo Santana (PT), também já disse que o reajuste oferecido é o limite que o Estado pode dar. No projeto de lei enviado dia 18 de fevereiro à Assembleia Legislativa, o salário de um soldado subiria de R$ 3.475 para R$ 4.500, parcelado em três vezes (pagamentos em março de 2020, março de 2021 e março de 2022).

A comissão criada para negociar foi uma solução encontrada para tentar colocar fim à paralisação, já que o governo afirmou que não trataria com os policiais manifestantes, que optaram na maioria por usar carapuças e ocupar batalhões.

Fazem parte da comissão criada o procurador-geral do Estado, Juvêncio Viana, o deputado estadual Evandro Leitão (PDT), o corregedor-geral, desembargador Teodoro Silva Santos, e o procurador-geral de Justiça, Manuel Pinheiro.

Até segunda-feira (24) haviam sido contabilizados 170 homicídios no Ceará em seis dias desde o início do motim, uma média de 28 por dia -nos primeiros 18 dias de fevereiro foram 164, média de nove por dia. Em janeiro de 2020 foram 261 homicídios, uma média de quase nove por dia.

Entenda o motim da PM no Ceará
O que querem os PMs?

Pedem que o governo refaça a proposta de reestruturação salarial enviada na terça (18) para a Assembleia. O projeto de lei prevê aumento de salário para os soldados da PM e para bombeiros de R$ 3.475 para R$ 4.500, com reajuste parcelado em três vezes até 2022.

Os PMs demandam que o pagamento seja feito em apenas uma parcela e que o salário chegue a R$ 4.932. Eles também querem anistia aos manifestantes.

Quando o motim começou?
Na tarde de 18 de fevereiro. Desde a madrugada de quarta (19), pessoas encapuzadas passaram a invadir quartéis, ao menos quatro ainda estão sob o comando dos manifestantes. 43 policiais militares foram presos e 230 foram suspensos suspeitos de participação. Eles não receberão salário.

Como está o motim, após nove dias?
A paralisação chega nesta quarta-feira (26) com um saldo de 170 assassinatos no Ceará. Ainda há quatro batalhões da PM fechados por policiais (alguns usam máscaras para cobrir o rosto) e familiares -em Fortaleza, Caucaia, Juazeiro e em Sobral

PMs podem fazer greve?
Não. Greve é proibida para agentes das polícias Civil, Militar, Federal, Rodoviária Federal, Ferroviária Federal e Corpo de Bombeiros.

Qual o cenário político no estado atualmente?
O principal pré-candidato da oposição à prefeitura de Fortaleza na eleição de 2020 é o deputado federal Capitão Wagner (Pros), ex-integrante da PM e que, entre 2011 e 2012, liderou mobilização dos policiais militares quando Cid Gomes era o governador.

Hoje, a prefeitura da capital é comandada pelo PDT de Ciro e Cid Gomes, com Roberto Cláudio, mas ele está em segundo mandato. Ainda não há um nome de consenso entre os governistas para a disputa. O governo é comandado por Camilo Santana (PT), aliado de Ciro e Cid Gomes.

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