É fundamental discutir intolerância, dizem religiosos sobre prova do Enem

A cada três dias no país é feita uma denúncia de intolerância religiosa, segundo dados do governo federal

O sheikh Jihad Hammadeh é presidente do Conselho de Ética da UNI (União Nacional das Entidades Islâmicas do Brasil)O sheikh Jihad Hammadeh é presidente do Conselho de Ética da UNI (União Nacional das Entidades Islâmicas do Brasil) - Foto: TV Brasil/EBC

Lideranças de diferentes religiões ouvidas pela reportagem da Folhapress nesta segunda-feira (7) elogiaram o tema da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) do último fim de semana, sobre como combater a intolerância religiosa no Brasil. O assunto é fundamental em um momento em que, segundo eles, tornam-se mais evidentes casos de sectarismo. A cada três dias no país é feita uma denúncia de intolerância religiosa, segundo dados do governo federal. Entre 2011 e 2014, 504 queixas desse tipo foram relatadas à Secretaria Especial de Direitos Humanos, ligada ao Ministério da Justiça.

A escolha desse tema para os estudantes do ensino médio foi considerada "muito importante" para secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, a pastora Evangélica Confessional Luterana Romi Márcia Bencke. "Viemos há bastante tempo chamando a atenção para os diversos casos de intolerância religiosa no Brasil, principalmente contra as tradições de matriz africana (umbanda e candomblé) e aos praticantes do islã", disse. Para o presidente do Conselho de Ética da União Nacional das Entidades Islâmicas no Brasil, o sheik Jihad Hassan Hammadeh, o ódio contra as religiões tem ganhado força sobretudo na internet e "para sair da internet e vir para as vias de fato na rua é um pulo".

Hammadeh disse que tem recebido mais relatos de islâmicos vítimas de atos de intolerância. Ele atribui o problema aos discursos que associam o islã com o terrorismo e à repercussão da Operação Hashtag, contra supostos seguidores brasileiros do Estado Islâmico. "É necessário abordarmos esse assunto principalmente entre os jovens porque eles estão na internet e estão agora assumindo postos na academia e precisam participar dessa discussão", afirmou. O presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil), Fernando Lottenberg, declarou que a comunidade judaica vê com muita simpatia a iniciativa em tratar desse tema em uma redação do Enem.

"É um tema cuja importância é crescente no Brasil e no mundo. Estamos vendo episódios de violência, de terrorismo com base em ideias religiosas." Lottenberg citou o caso da menina Kaylane Campos, que foi agredida com uma pedrada na cabeça ao sair de um terreiro de candomblé no Rio, em 2015. "É importante que os estudantes se preparem para pensar nesse tipo de dilema e evitar que essas questões tomem conta no Brasil e no resto do mundo", acrescentou. Adna Santos, coordenadora de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro na Fundação Palmares, é uma das lideranças da Casa Oya Ileaxeo Dagan, do Camdomblé, em Brasília, que foi incendiada em novembro de 2015.

À época, houve a suspeita de que o incidente foi crime motivado por intolerância religiosa, embora essa possibilidade não tenha sido comprovada. Santos, também conhecida como Mãe Baiana, disse à reportagem que todas as religiões pregam a paz e por isso é fundamental que se discutam formas de combater o problema, principalmente no Enem. "Não podemos deixar que isso avance de forma nenhuma". "Os jovens, que serão lideranças no futuro, precisam se aproximar desse tema", afirmou João Rabelo, diretor de comunicação da Federação Espírita Brasileira. "A intolerância é uma agressão aos valores da sociedade", complementou.

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