Guerrilha contra madeireiros

Crimes ambientais em terras indígenas têm exigido dos fiscais do Ibama até o uso de armas. Foco é a destruição de equipamentos

Os eventos acontecerão entre os dias 1° e 02/08 nas cidades de Santa Filomena, Ouricuri, Santa Cruz. Na sexta-feira, também será realizada uma reunião no Fórum de PetrolinaOs eventos acontecerão entre os dias 1° e 02/08 nas cidades de Santa Filomena, Ouricuri, Santa Cruz. Na sexta-feira, também será realizada uma reunião no Fórum de Petrolina - Foto: Divulgação

 

PARQUE DO ARIPUANÃ (Folhapress) - Na ponta do lápis, a operação do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) contra crimes ambientais em terras indígenas em Rondônia e Mato Grosso, há duas semanas, teve bons resultados. Em apenas um dos quatro dias de fiscalização na divisa entre Mato Grosso e Rondônia, foram incendiados dois caminhões para transporte de madeira, um skidder (trator para arrasto de toras), uma camionete Mitsubishi L200 e uma pá carregadeira - prejuízo de pelo menos R$ 600 mil aos madeireiros.
De quebra, os agentes encontraram, no porta-luvas de um caminhão, guias florestais em nome de Hidemar Finco, fazendeiro vizinho à Terra Indígena Parque do Aripuanã que possui autorização para exploração sustentável em 375 hectares de sua propriedade.

O documento facilitará a investigação da quadrilha. O uso de créditos legais para esquentar árvores roubadas de áreas protegidas é o modus operandi mais comum das quadrilhas de madeira.
Apesar da operação de cinema do Grupo Especializado de Fiscalização (GEF), uma espécie de “tropa de elite” com cientistas, engenheiros e outros profissionais com curso superior e treinamento de guerr, com armas nas mãos para enfrentar a violência na região, ninguém foi detido. Os madeireiros fugiram pouco antes da chegada, em três helicópteros, dos agentes do Ibama, acompanhados pela reportagem.
Por outro lado, o tamanho do acampamento mostra que operação semelhante feita no ano passado não conseguiu coibir a atividade na área, onde vivem índios cinta-larga, alguns deles aliados de madeireiros e garimpeiros. À época, foram destruídos dois caminhões e um trator usados na extração de madeira.
Segundo os agentes do Ibama, os madeireiros sabem que uma operação de grande escala demora a se repetir e voltam rapidamente ao mes­mo local, muitas vezes com mais voracidade para recuperar o prejuízo.
As áreas indígenas na divisa entre Mato Grosso e Rondônia são as últimas grandes florestas dessa região amazônica. Ainda que a retirada de madeira seja seletiva, a atividade costuma ser a precursora do desmatamento, que cresceu 29% na Amazônia entre agosto de 2015 e julho deste ano, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O alto lucro obtido pela venda da madeira ilegal e a baixa punição para esse tipo de crime favorecem a reincidência, na avaliação de Roberto Cabral, coordenador do GEF. A unidade, que usa táticas de grupo de assalto, é acionada para as operações de fiscalização mais arriscadas.
Na legislação, o principal recurso do GEF é o decreto 6.514, de julho de 2008, que autoriza a destruição de equipamentos usados para crimes ambientais encontrados em terras indígenas e áreas de conservação. Essa prática costuma gerar revolta contra o Ibama nas cidades do Norte, onde o roubo de madeira em áreas protegidas é uma prática socialmente aceita e vista como uma das poucas alternativas econômicas da região.

A hostilidade contra funcionários do Ibama é constante, o que justifica os membros do GEF andarem armados. Um servidor lotado em Mato Grosso que participou da operação foi identificado por moradores de Aripuanã (950 km ao norte de Cuiabá), que passaram a divulgar ameaças a ele no WhatsApp. “O grande problema ambiental é o crédito fraudulento”, disse Cabral. “A ideia do plano de manejo é utilizar essa madeira de maneira sustentável. Infelizmente, o que a gente vê são vários planos de manejo originando créditos para acobertar madeira retirada em outro lado.”
Dentro do Ibama, o GEF vem defendendo uma série de aprimoramentos da fiscalização. Cabral acredita que a legislação ambiental seja branda contra o roubo da madeira, geralmente resultando num TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrência), boletim de ocorrência para crimes pouco graves.

 

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