Pastor que vendia diplomas é preso em SP

Eram oferecidos certificados para mais de 30 cursos de graduação e mais de mil cursos de pós em esquema de pastor e mais seis suspeitos

Diplomas falsos eram vendidos por pastor e outros suspeitosDiplomas falsos eram vendidos por pastor e outros suspeitos - Foto: Reprodução/Polícia Civil SP

O segundo andar de um sobrado identificado como escritório de advocacia e contabilidade no Itaim Paulista, extremo leste de São Paulo, escondia um esquema de venda de diplomas que envolvia ao menos oito faculdades particulares de cinco estados. O responsável pelo esquema, um pastor, e mais seis suspeitos foram presos em flagrante nesta quarta-feira (28), e outras quatro pessoas estão sendo investigadas segundo a Polícia Civil.

Eram oferecidos certificados para mais de 30 cursos de graduação e mais de mil cursos de pós. Também era possível comprar documentos das modalidades tecnólogo, extensão e até ensino médio.

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Um diploma de administração, por exemplo, custava até R$ 35 mil e o de medicina, cerca de R$ 100 mil. A reportagem teve acesso a emails do Grupo Digamma Educacional, que é dono das faculdades e funcionava na casa da zona leste.

Em uma das mensagens, um funcionário pergunta: "Estou fazendo o histórico [escolar] dele, porém eu gostaria de saber se você quer um certificado ou diploma, e se é para fazer pela Facel, Fatesf ou Spei", se referindo a um diploma de gestão comercial. Em outro e-mail, de setembro de 2017, um homem diz: "Diploma de administração para esta aluna. Ela não terminou o ensino médio".

A empresa e o esquema eram comandados por um pastor da Assembleia de Deus conhecido como José Caitano Neto - não é possível saber se esse é seu nome verdadeiro porque ele possui mais de uma identidade. A igreja evangélica a princípio não tem relação com os crimes.

Para fazer os diplomas, eram usados assinaturas e históricos escolares falsos. Os documentos, por exemplo, emitidos pela Facel (Faculdade de Administração, Ciências, Educação e Letras) e pela Spei (Sociedade Paranaense de Ensino e Informática) são assinados pela secretária Josefa Ambrósio Mourão e o diretor Saulo Gomes Pena.

No entanto, ambos nunca foram vistos por funcionários nas duas faculdades, em Curitiba, nem na sede da Digamma em SP. Quem fazia as assinaturas era o próprio Caitano Neto, como indicam fotos obtidas pela reportagem.

As outras seis instituições que o grupo detém são: Afirmativo, Fatesf, Fama, Ação, Fasvipa e EBS. As oito faculdades estão em cinco estados (PR, SC, MT, RO e AL), e ao menos quatro delas já têm processos administrativos abertos no Ministério da Educação por oferta irregular de ensino.

Elas possuem cursos de graduação e pós registrados no MEC, mas algumas estão em estado de abandono desde que a Digamma as comprou, de 2015 a 2017. A suspeita é de que Caitano Neto as adquiria para pegar o dinheiro em caixa e emitir os diplomas falsos, atrasando o pagamento de contas e funcionários.

Na Justiça Federal, Caitano Neto já é réu ao menos desde 2002. Existem contra ele diversos processos em estados como Goiás, São Paulo, Pará e Distrito Federal. Pelo menos quatro são por estelionato ou uso de documento falso.

Além do imóvel em Itaim Paulista, a Digamma funcionava em outras duas casas na zona leste de SP e tinha cerca de 2.300 funcionários no país, segundo o próprio pastor. A reportagem apurou que parte dos empregados da empresa e das faculdades não sabia das irregularidades praticadas.

Outro lado

A defesa de Caitano Neto disse, em nota, que a denúncia é falsa e partiu de um ex-funcionário que tentava "se livrar" de uma acusação de desvio nos cofres da Digamma, registrada pelo seu chefe no 22º DP na semana passada.

Segundo o advogado Ademir Sérgio dos Santos, os documentos apreendidos na empresa foram esclarecidos à polícia. "Os fatos foram apurados de forma genérica sem sequer um resultado pericial que atestasse qualquer falsidade. [...] Trata-se de prisão arbitrária que com certeza será revogada."

Antes de ser preso, o pastor havia dito à reportagem que o responsável pela venda de diplomas em nome de suas faculdades também era um ex-funcionário, já demitido. Na ocasião, o pastor disse por email que o empregado agiu "de má-fé com acordos obscuros com outras instituições, onde falsificava assinaturas".

O funcionário teria continuado a falsificar documentos em nome da Facel mesmo após sua demissão, em 2016 –os pedidos de diplomas falsos obtidos pela reportagem, porém, foram todos feitos em emails internos da empresa.

Em uma dessas mensagens, José Caitano Neto responde que um diploma custa R$ 15 mil. Quanto a isso, o pastor também declarou ter sido alvo de sabotagem de ex-funcionários, que teriam invadido a rede de dados do grupo para prejudicá-lo.

 

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