PF decide adiar indicação de novo chefe do Rio após interferência de Bolsonaro

Nenhuma documentação para formalizar a indicação foi enviada para o governo até o momento

Presidente Jair BolsonaroPresidente Jair Bolsonaro - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A direção da Polícia Federal decidiu paralisar temporariamente o processo de indicação do novo chefe da superintendência do Rio, tema que deu início a uma crise com queda de braço entre o ministro Sergio Moro (Justiça) e o presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Nenhuma documentação para formalizar a indicação foi enviada para o governo até o momento e, agora, não há prazo para que isso ocorra.A PF é subordinada a Moro, também enfraquecido em meio à divulgação de mensagens que mostram sua atuação em parceria com os procuradores em diferentes processos da Lava Jato e que colocaram em xeque sua atuação como juiz federal.

Moro ainda tem sofrido seguidas derrotas no Congresso, onde tramita o pacote de medidas anticrime encaminhado por ele no início do governo.Tácio Muzzi, diretor executivo do Rio, número 2, deve assumir a função interina por tempo indeterminado.

O tema se tornou relevante especialmente por causa da tentativa de interferência do presidente. Bolsonaro primeiro atropelou a PF anunciando a troca de comando que ainda estava sendo discutida internamente. O atual chefe do Rio, Ricardo Saadi, já tinha previsão para deixar o posto, mas ainda levaria semanas ou meses.

Leia também:
Após ameaça de Bolsonaro, Moro diz que diretor-geral da PF 'permanece' no cargo
Policiais federais reagem a Bolsonaro e pedem mandato para diretor-geral da PF


Depois, o presidente deu entrevistas rejeitando o nome escolhido pela direção do
órgão para substituir Saadi, o de Carlos Henrique Oliveira, atual superintendente de Pernambuco.

Isso porque, segundo Bolsonaro, estava pré-conversado (não disse com quem), o nome de Alexandre Saraiva, hoje superintendente no Amazonas. O fato de o presidente ter, no mínimo, sugerido um nome provocou reação imediata na cúpula da PF, inclusive com ameaças para deixar os cargos.

O entendimento de delegados e dirigentes é o de que a escolha do diretor-geral é de fato política, de atribuição do ministro da Justiça em acordo com o presidente, mas os cargos de superintendentes são blindados de interferência.

Quinze dias depois do início dessa crise, a temperatura baixou. O tom, internamente, também mudou. Se antes a cúpula da PF falava em renúncia coletiva caso o nome de Carlos Henrique Oliveira não fosse aceito, hoje o discurso é outro. A principal frase que tem sido dita agora é que continua sendo inadmissível uma indicação do presidente, mas não mais se fala na obrigatoriedade da nomeação de Carlos Henrique.

A justificativa que está sendo usada é que um veto do Planalto a uma indicação não seria uma coisa inédita -até alguns exemplos da época de Dilma Rousseff e Lula foram resgatados. Ainda assim, o superintendente de Pernambuco continua sendo o escolhido da cúpula para assumir o Rio.

O plano agora é "esperar a poeira baixar", segundo frase que tem sido usada internamente. Na última segunda (26), Moro e o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, fizeram uma visita à superintendência do Rio. A agenda, segundo o ministério da Justiça, já estava prevista há semanas.

Ricardo Saadi, ainda oficialmente o número 1 da superintendência do estado, se afastou do comando desde que a crise começou. Além de sua saída ter passado a ser conhecida publicamente, o fato de o presidente ter feito ataques criticando sua "produtividade e gestão" acelerou seu distanciamento da chefia, mesmo antes de sua remoção ser publicada.

Nesta terça (26), Moro fez elogio público a Valeixo, em evento no ministério da Justiça. No meio da crise, quando se mostrou irritado por não ter sua indicação contemplada, Bolsonaro chegou a falar em trocar o diretor-geral da PF, se não pudesse mudar o superintendente.

Veja também

Lira nega disputa por paternidade de reforma tributária e quer administrativa no Senado até julho
Reforma Tributária

Lira nega disputa por paternidade de reforma tributária e quer administrativa no Senado até julho

Ministério de Damares retira do ar nota em que lamentava mortes no Jacarezinho
Governo

Ministério de Damares retira do ar nota em que lamentava mortes no Jacarezinho