Relatos sobre serra elétrica e traição marcam 1º dia de júri de Elize

Elize é acusada de matar o empresário Marcos Matsunaga, herdeiro do grupo Yoki, na noite de 19 maio de 2012.

Setor de comércio e serviços deve começar as contratações de final de anoSetor de comércio e serviços deve começar as contratações de final de ano - Foto: Leo Motta/Folha de Pernambuco

O primeiro dia de julgamento de Elize Matsunaga, realizado nesta segunda-feira (28) em São Paulo, foi marcado pelos depoimentos sobre a compra de uma serra elétrica no dia do crime e sobre a investigação de uma traição conjugal cometida por Marcos Matsunaga.

Elize é acusada de matar o empresário Marcos Matsunaga, herdeiro do grupo Yoki, na noite de 19 maio de 2012. O corpo dele foi esquartejado. Para a acusação, a compra de uma serra elétrica no dia do crime indica que a assassina confessa do marido premeditou a morte da vítima.

Segundo o depoimento da babá da família, Mauriceia José Gonçalves dos Santos, a serra elétrica foi comprada em Cascavel (PR) quando Elize voltava de viagem do Paraná. Ela acompanhou a patroa nessa viagem.

Elize teria dito que a ferramenta era um pedido do marido -para usar com caixas de vinho. A tese da compra da serra elétrica no dia do crime também foi levada ao juri pela babá substituta da família, Amonir Hercília dos Santos. Amonir é filha de Mauriceia.

O depoimento de Mauriceia ocorreu sem a presença de Elize, já que a babá disse ter receio de testemunhar em frente à ex-patroa.

"É muito estranho que alguém que está revoltada, contrariada diante da confirmação de uma traição, resolveu atender um pedido do marido, levando um presente a ele", destacou o advogado Luiz Flávio D'Urso, assistente de acusação, que disse que a serra elétrica sumiu após o crime.

Detetive

Outra testemunha ouvida nesta segunda foi o detetive particular William Coelho de Oliveira, contratado por Elize para investigar se Marcos Matsunaga estava tendo um caso extraconjugal. Ele confirmou que a ré soube da traição do marido ainda no Paraná e que ela ficou sabendo em tempo real dos passos do marido.

A defesa de Elize alega que o crime ocorreu num momento de forte emoção, sem qualquer planejamento. Os defensores argumentam ainda que ela teria usado uma faca de cozinha para esquartejar o marido e que laudos demonstrariam que não houve o uso de serra elétrica no crime.

"Tanto claro que essa história de serra elétrica não tem o menor cabimento, que o crime não é premeditado, que ela não usou a serra elétrica", disse Luciano de Freitas Santoro, um dos advogado de defesa.

A Promotoria disse, na semana passada, que não está muito claro qual instrumento foi utilizado, mas há suspeita até de uso de bisturi cirúrgico para isso.

Embora tenha sido convocado pela acusação, o testemunho do detetive Oliveira teve muitos pontos favoráveis à defesa, já que o profissional disse que Elize ficou muito abalada quando recebeu a notícia da traição.

"Ela agiu como qualquer pessoa frágil que depara com uma traição. Ficou muito abalada, chorou muito", disse o detetive. "Estava muito nervosa e que procuraria um advogado", afirmou.

Também foi favorável ao dizer que Marcos levou a amante -que tratava como namorada antiga- a um restaurante japonês a que o casal sempre ia, apresentado ao marido por Elize. "Ela não acreditou quando falei do restaurante, porque eles conheciam até o sushiman."

Durante alguns momentos do julgamento, Elize chorou.

"Todo mundo viu hoje que ela foi muito humilhada pelo marido dela. É muito difícil para alguém que é muito humilhada, que vinha em constante humilhação na casa dela, ouvir de novo em depoimentos como esses", disse Roselle Soglio, advogada de Elize.

"O depoimento do detetive foi muito bom porque mostra que a Elize só falou a verdade até hoje", ainda acrescentou, após o primeiro dia do julgamento. "Quem esquarteja o marido não pode ter sensibilidade de derramar uma lágrima", declarou o promotor José Carlos Cosenzo, após a sessão.

Os trabalhos devem ser retomados na manhã desta terça (29) com depoimentos de acusação, entre eles o do irmão da vítima, Mauro Kitano Matsunaga e o do delegado Mauro Gomes Dias.

Com é o júri
O júri começou a ser formado por volta das 11h20, com a seleção de cidadãos que decidirão sobre a culpa de Elize. O juiz escalado aplica apenas a pena, após a condenação ou absolvição.

Houve uma pequena demora para o início do júri por conta do tipo de roupas que Elize usaria no plenário. Segundo membros da equipe de defesa, a Promotoria queria que a ré usasse as roupas do presídio e ficasse de algemas.

Isso, porém, não aconteceu, já que há o entendimento de que usar roupas de presidiário pode ser desfavorável ao réu durante seu julgamento.

O júri de Elize é de maioria feminina -são quatro mulheres e três homens. Para a defesa, um júri feminino pode ajudar, mas também é importante a seleção de pessoas que possam entender argumentos técnicos.

No júri popular, são convocados no mínimo 25 jurados, dos quais 7 formarão o conselho que dará a sentença (escolhidos sob sorteio).

Os jurados têm uma hora para ler informações sobre o processo e então são ouvidas as testemunhas de acusação (entre elas o irmão de Marcos), as de defesa e as comuns -são 22 no total, incluindo policiais e peritos. Após essas oitivas, a ré é interrogada.

O crime
O crime ganhou notoriedade na época não apenas por envolver o empresário, mas pela forma como sua mulher tentou ocultar o cadáver. Após efetuar um disparo na têmpora da vítima, ela dividiu o corpo em seis partes (diz ter usado uma faca de cozinha), colou-os em malas de viagem (dentro de sacos de lixo) e livrou-se deles numa mata em Caucaia do Alto (na Grande São Paulo).

Ela afirmou que agiu no calor de uma das muitas discussões do casal e que foi agredida por ele com um tapa no rosto.

Como houve confissão do crime, a tentativa da defesa será tentar afastar as três qualificadoras do homicídio (motivos para agravar a pena) pelas quais ela é acusada: meio cruel (esquartejamento), sem chances de defesa e motivo torpe (teria matado por vingança e pela herança).

Os advogados de Elize dizem haver no processo provas que afastam ao menos duas dessas qualificadoras, em especial sobre o meio cruel. Segundo a defesa, quando houve o esquartejamento a vítima já estava morta. A Promotoria sustenta que ele ainda estava vivo e, por isso, há sinais de sangue no pulmão.

Se condenada por homicídio simples, Elize terá uma pena entre 6 e 20 de prisão. Como está presa há mais de quatro anos e não tem outros antecedentes criminais, ela poderia sair do júri com ordem de soltura por ter cumprido mais de um sexto da pena. A condenação por destruição e ocultação de cadáver, de 1 a 3 anos de prisão, não afetaria muito na contagem.

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