Sob Bolsonaro, Brasil tem pico de conflitos no campo desde morte de Dorothy

Em alta desde 2017, sob gestão Michel Temer (MDB), o número subiu 23% no ano passado

Presidente Jair BolsonaroPresidente Jair Bolsonaro - Foto: Alan Santos/PR

O Brasil registrou o maior número de conflitos no campo dos últimos 14 anos no primeiro deles sob governo de Jair Bolsonaro (sem partido), de acordo com levantamento da CPT (Comissão Pastoral da Terra), ligada à Igreja Católica.

Em 2019, foram 1.833 ocorrências envolvendo disputas trabalhistas, por água ou por terra em áreas rurais, 48 a menos do que o registrado em 2005, quando a religiosa norte-americana Dorothy Mae Stang foi assassinada a tiros a mando de fazendeiros em um assentamento no Pará.

Em alta desde 2017, sob gestão Michel Temer (MDB), o número subiu 23% no ano passado –em que a reforma agrária e as demarcações de terras indígenas e quilombola estiveram paralisadas​— em relação a 2018, com média de cinco episódios diários.

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Os conflitos mais recorrentes envolveram disputas por terra: foram 1.254 casos, maior número em três anos, segundo a instituição que atua junto às famílias do campo e publica cadernos sobre o tema anualmente desde 1985 –o mais recente saiu na sexta-feira (17).

A CPT divide os conflitos por terra entre os que são empenhados por trabalhadores rurais, em ocupações ou retomadas de território, e os que são protagonizados por agentes agressores, nos termos da entidade, como grileiros ou órgãos do Estado.

Sob Bolsonaro, estes últimos foram responsáveis por 1.206 dos conflitos por terra, maior número para toda a série histórica, enquanto os episódios que partiram de famílias do campo tiveram recorde negativo. A Pastoral atribuiu isso à postura do presidente eleito ao final de 2018.

"O campo brasileiro experimentou um significativo aumento de conflitos, motivado, em boa parte, pelo incendiário e violento discurso do Governo Federal em favor dos grandes proprietários rurais e grileiros, do agronegócio, das atividades garimpeira e madeireira ilegais", registra o documento.

A Amazônia Legal, que reúne nove estados brasileiros, envolvendo a cidade de Anapu (PA), onde a irmã Dorothy, então missionária e agente da CPT, foi morta há 15 anos, situou a maior parte das disputas por terra (60%) em 2019, com 748 casos –aumento de 17% ante o ano anterior.

A região, que já liderava índices dos conflitos agrários, teve situação agravada no primeiro ano de mandato de Bolsonaro –quando o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) ainda registrou recorde de desmatamento no bioma. O número de invasões subiu 55% (33.202), de famílias despejadas cresceu 82% (5.877) e de ações de pistoleiros, 29% (5.945).

A área que abriga a maior floresta tropical do planeta também concentrou casos de violência no campo, com 27 dos 32 assassinatos ocorridos em 2019 (84%) e 22 das 30 tentativas de homicídio (73%). A CPT ainda chama a atenção para os indígenas como principais alvos do conflito.

No período, nove índios foram assassinados, sendo sete lideranças –recorde em 11 anos–, outros nove sofreram tentativas de homicídio e 39 receberam ameaças de morte. Do total de famílias atingidas pelos conflitos por terra, 34,4% (49.750) eram de etnias indígenas.

No relatório, a CPT associa novamente os índices ao discurso bolsonarista: "Durante sua campanha, Bolsonaro reiterou inúmeras vezes que 'não iria demarcar nem mais um centímetro de terra indígena'. [...] Foi o estopim perfeito para avalizar e legitimar ataques contra as Terras Indígenas".

O documento ainda destaca o aumento de 77% ante 2018​ do número de conflitos por água no país, agora com 489 casos, recorde na série histórica iniciada em 2002. A maioria deles está em Minas Gerais (128) e no Nordeste (234), locais mais afetados, em 2019, pelo rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho e pelo desastre ambiental com óleo no litoral, respectivamente, conforme lembra a Pastoral.

Procurado para comentar sobre os dados levantados pela CPT e os apontamentos a respeito do presidente Bolsonaro no relatório, o Palácio do Planalto não respondeu até a publicação desta reportagem.

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