Aprendizado

Brincar coletivamente traz benefícios para o desenvolvimento das crianças

Especialistas apontam que a interação é importante para aspectos físicos e emocionais

Os irmãos Raul, de 5 anos, e Aurora, de 8Os irmãos Raul, de 5 anos, e Aurora, de 8 - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Quem nunca ouviu algo como: “No meu tempo, a gente fazia dessa forma”? Ou: “Quando eu era criança, brincávamos na rua, na praça...” Quem vem de uma geração anterior costuma falar com saudosismo sobre as atividades lúdicas da própria infância.

E, em certo ponto, especialmente no que diz respeito ao brincar em conjunto, essa saudade pode ter um fundamento superior ao emocional ou às recordações de anos atrás. O brincar coletivo, a interação entre crianças de uma mesma faixa etária, pode trazer benefícios extremamente positivos para o seu desenvolvimento físico e emocional.

Como explica a psicóloga Gabriele Gomes, tal atividade é essencial para a construção da vida social coletiva: “Através do brincar, a criança desenvolve interação com os outros sujeitos. Brincando, elas aprimoram a criatividade, reproduzindo ações sociais vivenciadas, aprendendo sobre si e sobre o mundo em que vivem”.

A psicóloga Gabriele Gomes destaca os benefícios comportamentais a partir da interação - Foto: Divulgação

A psicóloga Gabriele Gomes destaca os benefícios comportamentais a partir da interação - Foto: Divulgação

Essa interação, inclusive, ajuda a aprimorar habilidades comportamentais. “Ao brincar, a criança não está apenas explorando o mundo, ela está expressando suas emoções, comunicando-se com o outro, criando relacionamentos, manifestando seus sentimentos, ideias e fantasias”, comentou.  

Para a presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp) - Seção Pernambuco, Manuela Barbosa, tanto o brincar quanto o jogar são interessantes para o desenvolvimento das crianças: “O brincar coletivo e o jogar coletivo, os dois são importantes. Na perspectiva da criança é simplesmente pelo prazer. Agora, nós adultos, e nós que estudamos sobre o brincar, o que eu destacaria de mais positivo nas atividades coletivas estaria ligado à capacidade de negociação, de argumentação entre pares”. 

Manuela Barbosa, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia - Seção Pernambuco, reforça que os adultos devem dar espaço para que as crianças brincarem entre si - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Manuela Barbosa, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia - Seção Pernambuco, reforça que os adultos devem dar espaço para que as crianças brincarem entre si - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Terapeuta sistêmica e também professora, Manuela defende que, passados os primeiros anos, os adultos atuem como observadores ativos e deem espaço para que as crianças brinquem entre si. “Quando crianças ou adolescentes estão numa atividade lúdica, entre pares, o poder de argumento, de convencimento, é de outro nível de quando estão interagindo com adultos, ou com mediação de adultos”, destacou.

Em 2022, inclusive, a ABPp - PE implementará um atendimento social voltado para estudantes da rede pública ou bolsistas de escolas particulares que necessitem de acompanhamento. “Concordo com o que diz Jorge Gonçalves da Cruz, psicólogo argentino: ‘pode-se ensinar tudo por meio do brincar, desde que não se pretenda ensinar coisa alguma’”, refletiu.

A médica Sophie Helena Eickmann, membro da Sociedade de Pediatria de Pernambuco (Sopepe), destaca que as atividades em grupo são fundamentais para o desenvolvimento das crianças enquanto seres humanos.

“Todo ser humano absorve, aprende, se conecta ao mundo através dos seus sistemas sensoriais, especialmente visão, audição, gustação, olfato, tato. Quando esses estímulos vêm na coletividade, eles são preenchidos na sua totalidade”, explica. 

De acordo com a pediatra, o aprendizado também passa pelo afeto, seja negativo, como medo, preocupação e estresse, ou positivo, como amor, cuidado e reciprocidade: “Sem isso, a criança é incapaz de desenvolver todas as suas habilidades, sejam elas as socioemocionais, sejam elas as cognitivas, motoras e linguísticas adequadas para a vida real”.

A pediatra Sophie Helena Eickmann afirma que as atividades em grupo são fundamentais para o desenvolvimento das crianças enquanto seres humanos - Foto: Divulgação

A pediatra Sophie Helena Eickmann afirma que as atividades em grupo são fundamentais para o desenvolvimento das crianças enquanto seres humanos - Foto: Divulgação

Mestre e doutora na área de Desenvolvimento Infantil e professora associada do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Sophie Eickmann explica que o brincar coletivo ajuda nas chamadas funções corticais superiores ou funções executivas.

“As brincadeiras em grupo facilitam uma habilidade cognitiva executiva chamada controle do impulso ou controle inibitório. Então, por exemplo, em um grupo onde eu preciso da interação, a criança aprende a esperar a sua vez.”
 
Segundo a psicopedagoga  Manuela Barbosa, as crianças estão aptas à interação desde os primeiros meses de vida e, com o passar dos anos, as atividades evoluem, passando pelo universo da imaginação até chegar ao interesse por jogos com regras (veja mais no infográfico).

Thyago Felix, professor de Educação Física, e a filha, Maria Sofia, de 9 anos - Foto: Divulgação

Thyago Felix, professor de Educação Física, e a filha, Maria Sofia, de 9 anos - Foto: Divulgação

Professor de Educação Física, Thyago Félix ressalta que a possibilidade de as crianças adaptarem os jogos, por exemplo, à realidade do espaço, do tempo e do número de participantes, pode antecipar questões que surgem na vida adulta.

 “A criança como indivíduo em formação precisa passar por experiências, vivências e situações de conflito. Os jogos e brincadeiras em coletivo simulam alguns dos aspectos reais para que quando elas se depararem com situações-problema semelhantes em outro momento da vida, já tenham passado por tais experiências mesmo que de brincadeira”, disse.

Ele reforça, ainda, que é essencial que a finalidade da atividade seja lúdica e que traga ao participante uma sensação de prazer, alegria e satisfação.
 
Os cientistas sociais Rafael Sales e Fernanda Meira são pais de Aurora, de 8 anos, e Raul, de 5. O casal apoia e incentiva a brincadeira coletiva, atividade que precisou ser reduzida devido à pandemia.

“A gente sempre achou que a sociabilização com outras crianças era um ponto muito chave para o desenvolvimento. Então, a gente nunca optou por soluções que facilitassem a nossa vida e que deixassem elas isoladas”, comentou Rafael.

“E teve um momento da pandemia que você não tinha para onde ir porque as praias estavam fechadas, os parques estavam fechados, não tinha nenhum plano de escape para você levar as crianças”, lembrou. 

Raul e Aurora 1Os cientistas sociais Rafael Sales e Fernanda Meira são pais de Aurora, de 8 anos, e Raul, de 5 - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Os cientistas sociais Rafael Sales e Fernanda Meira são pais de Aurora, de 8 anos, e Raul, de 5 - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Nesse contexto, as opções digitais se tornaram mais presentes. “Não tem como mentir. Isso faz parte da vida, eles acessam conteúdo. Teve um momento que a gente teve menos condição de regular no meio da pandemia, só que agora a coisa ficou um pouco mais tranquila”, analisou Fernanda.

Uma estratégia adotada pela família é retomar de forma gradual os passeios e brincadeiras: “A gente ainda não se sente seguro para liberar 100% toda essa sociabilidade. E eles cobram muito a nossa presença também. Então, nos finais de semana a gente tem se dedicado a eles”, completou.
 
A pediatra Sophie Eickmann reforça que, nesse momento de retomada, atividades ao ar livre são boas opções: “O brincar, o desenvolvimento saudável, inclui, necessariamente, atividades na natureza. E, especialmente atualmente, com o problema da Covid, essas brincadeiras coletivas na natureza ou no ambiente livre são excelentes, permitem muito mais segurança”.

De acordo com a médica, apesar de haver jogos digitais com conteúdos adequados para o desenvolvimento das crianças, a brincadeira presencial ainda deve ser incentivada.

“Infelizmente, ninguém desenvolveu ainda nenhum tipo de aplicativo ou de filme educativo que ensine a gente a nos tornarmos seres humanos. Então, nós precisamos da interação humana, ela é fundamental para o desenvolvimento saudável da criança. Mesmo que eu tenha alguns aplicativos interessantes, alguns conteúdos cognitivos, visuais, auditivos, de filmes que são legais, eles jamais preencherão a necessidade das crianças de terem toda a sua paleta de informações que o mundo real vai lhe dar”, pontuou.

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