Bumba meu boi: participação feminina muito além de Catirina

Interesse de jovens pelo folguedo reflete na conquista de espaço pelas mulheres

bumba meu boi , carnaval , catirina , folclore , folguedo , foliabumba meu boi , carnaval , catirina , folclore , folguedo , folia - Foto: Rafael Furtado

Manifestação folclórica datada do período da colonização e com raízes fincadas no Nordeste, já correu o risco de ter sua história esquecida. Mas, assim como o boi, personagem principal da história, a brincadeira também “voltou à vida” por meio do interesse e empenho de jovens das comunidades periféricas do Recife. Alinhado a esse fortalecimento cultural existe um movimento de transformação com maior participação da figura feminina. Apesar de os personagens tracionais serem em sua maioria masculinos, já que refletiam o contexto machista no passado, as meninas têm conquistado seu espaço.

Com personagens essencialmente masculinos, como Mateus, o Padre, o Capitão, por exemplo, o bumba meu boi tem passado por um processo de transformação, induzido, principalmente, por quem tem carregado a missão de não deixar morrer esse folguedo tão tracional em todo o Estado. Os jovens à frente das agremiações também fazem com que a participação de integrantes mulheres venha crescendo e não se limite apenas a quem fará a Catirina. "Essas brincadeiras populares refletem o contexto em que as histórias se passam e são contadas. No passado, o contexto vivenciado era puramente machista.

Com a transformação que vem acontecendo hoje, é importante se pensar nessa questão de gênero, em que a figura feminina tem o poder de quebrar tabus e mostrar que o bumba meu boi não é algo exclusivo dos homens", afirmou a jornalista e pesquisadora de cultura popular Maria Alice Amorim. Ela destaca que a participação das meninas não pode ser vista como algo que quebre a tradição do bumba meu boi, mas como uma forma de demonstrar respeito a essa cultura.

No Boi da Cutia, no bairro de Água Fria, o mestre Edilson Ferreira da Silva busca equilibrar a participação de meninos e meninas. "Nosso grupo é paritário e defendemos esse equilibrio de gêneros. Tanto que há meninas se preparando para serem mestres", explicou o artesão. O incentivo por uma inserção maior de mulheres nos grupos de Bois vem de casa. A filha de Edilson da Silva, a estudante Fernanda Lourdes Correia da Silva, de 16 anos, é aprendiz de mestre. "Eu gosto muito de participar do bumba meu boi, não só pela brincadeira, mas pelo aprendizado que levamos para o nosso futuro. É preciso ter paciência, dedicação, organização e é bom ver nosso espaço sendo valorizado, não é uma festa só dos meninos", afirmou a jovem mestre.

As meninas participam do enredo do bumba meu boi, dependendo do grupo, como pastorinhas, baianas, cantadeira, dançarinas dos cordões e até na percussão. Para Sandra Cristina Sá de Barros, filha do presidente do Boi Malabá, Renílson, "é uma satisfação ver esse movimento de jovens, incluindo as meninas participando dos grupos". "Nós desenvolvemos um trabalho muito importante de ressocialização na comunidade através dessa cultura", afirmou Sandra, que fazia o papel de Catirina, e este ano será a rezadeira do Boi. Apesar de ser visto como positiva a participação feminina no folguedo, ainda há resistência dos mais velhos em manter a tradição de gênero. "A pedido do meu pai, pelo legado do Boi Malabá, quem fara a Catirina esse ano será um menino, mas só para o concurso da Prefeitura do Recife que vamos participar. Nas demais apresentações, será uma mulher a fazer a personagem", explicou Sandra.

Cultura de resistência
No bairro de Água Fria, zona Norte do Recife, há seis agremiações de bumba meu boi e um movimento semelhante ao que ocorre no futebol: as pessoas torcem por esses grupos com a mesma paixão de quem torce por um time. “Existe um movimento antropológico aqui no bairro em relação a cultura de bois muito interessante, pois as crianças já nascem pertecendo a um grupo e toda a comunidade se envolve no que diz respeito ao bumba meu boi, e cada vez mais os grupos são liderados pelos jovens”, explicou o fundador do Boi Treloso, Ailson Barbosa.

Conhecido como Mestre Xavier, Wesley Kevin do Nascimento Xavier, de 24 anos, cresceu dentro da agremiação Boi Malabá - que significa “rei dos bois” e foi criado pelo Mestre Caboclo em 1987. “Foi ali que me apaixonei pela história do bumba meu boi e hoje ele é 100% minha vida. Saí do Malabar e virei percussionista do Boi Mimoso da Bomba do Hemetério. Agora sou Mestre do Boi Treloso, que tem 70 integrantes de sete a 40 anos”, explicou Xavier. "Meu filho de quatro anos já diz que quer ser o [personagem] Mateus. Se você parar numa esquina vai ouvir que o assunto é sobre o bumba meu boi. Aqui, as pessoas se envolvem mesmo na brincadeira", relatou o mestre.
Ainda há em Água Fria: o Boi de Loucos, essencialmente de teatro, e o Boi Teimoso, que por ser o mais antigo, deu origem aos demais grupos.

Tradicionalmente a cultura do boi era passada por pessoas mais velhas. Agora cabem aos jovens darem vida aos personagens, como o Capitão, Bastião, Mateus, Catirina, Doutor, Padre, Arlequim, o Boi, a Ema, a Burrinha, o Babau, o Jaraguá, o Diabo, o Morto-carregando-o-vivo, a Caipora e o Mané Pequenino. "O guardião de uma tradição não precisa necessariamente ser o mais velho. É muito importante que os jovens se conectem a essas expressões culturais, garantindo a renovação dessa cultura", ressaltou a jornalista e pesquisadora da cultura popular Maria Alice Amorim.

Assim com o Mestre Xavier, há outros jovens que estão seguindo esse mesmo caminho e estão sendo preparados para serem mestres - figura, muitas vezes poética, que coordena o grupo e a condução da história. No Boi da Cutia, do artesão Edilson Ferreira da Silva, existem cinco jovens de 14 a 20 anos que estão sendo “treinados” para assumirem o papel de Mestre. “É importante esse interesse deles e a dedicação para assumirem esse papel. É uma forma de manter a nossa cultura viva”, comentou Ferreira. Para Eduardo Penedo, de 14 anos, um dos aprendizes de mestre, a troça do bumba meu boi vai além dos festejos de carnaval. “Sempre gostei de brincar com o bumba meu boi, desde meus oito anos, e estar presente no grupo tem nos influenciado a ficarmos longe dos caminhos errados”, declarou Eduardo.

A rivalidade existente nas agremiações que participam do concurso realizado pela Prefeitura do Recife (PCR), que ocorrerá no dia 12 de fevereiro, na Avenida Dantas Barreto, Centro do Recife, de 10h às 16h, é deixada de lado no momento em que a musicalidade contagiante trazida por esses grupos começam a ganhar as ruas do Alto do Pascal. Crianças e adolescentes correm para as ruas para acompanhar os meninos e meninas que compõe a percussão e desfilam com os personagens. A família desempenha um papel importante na perpetuação do bumba meu boi, parte deles o incentivo para que, desde cedo, a brincadeira ganhe força.

O Mestre Diego de Oliveira, do Boi Mirim, rege 50 crianças e adolescentes na troça carnavalesca que existe há 10 anos. “São meninos que entram aos dois anos de idade e aprendem a dançar, tocar instrumentos. É muito bom ter esse resgate por parte desses jovens. Muitos vivem em situação de dificuldade e encontram no bumba meu boi um local para se divertirem”, declarou o mestre. “Se faz necessário que as políticas públicas ofereçam mais condições de visibilidade para estes grupos de Bumba Meu Boi. Nós ainda não vemos essas apresentações em grandes palcos, como acontece com os maracatus e caboclinhos. O bom mesmo é que as pessoas possam ver in loco esses grupos e apresentações", enfatizou a pesquisadora de cultura popular Maria Alice Amorim. 

Nassau e o boi voador
Os Bois de Carnaval são figuras simples, mas cheios de irreverência. Os figurinos são criados de acordo com a história de cada personagem, mas todos são muito coloridos, usando diversas estampas de chitão. As composições feitas pelos próprios integrantes de cada grupo de bumba meu boi ganham ritmo através de instrumentos como ganzá, gonguê, alfaia, rabeca, entre outros. Tudo isso para contar a história de um casal de escravos, cuja mãe grávida sente desejo de comer língua de boi. Para atender a vontade, seu marido mata o boi mais belo do seu senhor. O fazendeiro convoca curandeiros e pajé para ressuscitar o animal e todos da comunidade celebram a vida do boi.

Os contos se modificam de acordo com cada grupo e região, mas a figura do Boi como papel principal é mantida. Para valorizar essa expressão da cultura popular, foi criado, em 2005, a Federação de Bois e Similares de Pernambuco (FECBOIS/PE), com o objetivo de elaborar ações estratégicas para a união e sobrevivência do folguedo. Um dos frutos conquistados pela instituição é o Dia da Cultura dos Bois, celebrado em 28 de fevereiro, em referência ao primeiro registro histórico da confecção do Boi.

O conde Maurício de Nassau, afirmou aos recifenses que no dia da inauguração da ponte, que hoje é conhecida pelo seu nome, faria um boi voar. Ele moldou o animal em forma de um balão, amarrado em cordas finas, sobre roldanas. “Esse foi o relato mais antigo sobre a confecção de um boi e que nós usamos também como referencial”, disse o presidente da Federação de Bois. Esses grupos culturais eram muito dispersos, então nos juntamos para que eles pudessem ter um reconhecimento e trabalhamos pela conquista visual dessa modalidade”, afirmou Aelson.

Sobre o movimento de resgate dessa brincadeira no Estado, feita cada vez mais por jovens, o presidente da Federação ressalta que isso não diminui a importância de se manter as pessoas mais velhas a frente dos grupos, mas reconhece que é uma forma da tradição se manter viva. “Existe um problema muito grande em encontrar referências, pois as pessoas mais idosas acabam não tendo mais condições de transmitir esse conhecimento. Mas é fundamental a participação dos jovens, muitos grupos voltaram a existir graças ao interesse deles”, destaca Aelson da Hora.

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