Colômbia

Cali, epicentro dos protestos na Colômbia, vê eclodir embates entre classe média e indígenas

O estado de caos instalado no país já deixou 47 mortos, sendo 35 apenas em Cali

Vigília por mortos em conflitos na ColômbiaVigília por mortos em conflitos na Colômbia - Foto: Luis Robayo/AFP

Em Cali, a terceira maior cidade da Colômbia, o que começou como mais um foco de protestos no país contra a reforma tributária proposta pelo presidente Iván Duque se transformou num caleidoscópio de exigências e críticas ao governo — de ações no combate à pandemia a emprego e educação, passando por demandas de minorias com grande presença no Valle do Cauca, onde a cidade está localizada.

Epicentro dos atos que tomaram a Colômbia nas últimas duas semanas, com bloqueios em estradas que provocaram desabastecimento de alimentos e combustível, Cali já não vê os embates se limitarem a manifestantes e policiais. Agora, moradores de bairros de classe média e alta também enfrentam indígenas, ampliando a tensão em um cenário que, segundo a ONG Indepaz, já deixou 47 mortos em todo o país, sendo 35 apenas em Cali.

"Há muitos espaços na cidade que favorecem a disputa entre diferentes grupos e a resistência às forças policiais. É um lugar muito dividido geograficamente", afirma o sociólogo Alberto Sánchez. "Há tempos vemos tensões entre os interesses ligados à zona de plantio de coca, dos imigrantes em situação irregular e dos que exploram a mineração ilegal, num território em que a presença mais antiga é a de indígenas e afro-colombianos, que vêm reagindo a avanços do crime organizado e da polícia sobre suas atividades."

 



Com 2,2 milhões de habitantes, Cali é uma parada importante da rota do narcotráfico entre a América do Sul e a Central, devido à ligação por terra e à proximidade a portos do Oceano Pacífico. Entre o fim da década de 1970 e a de 1990, a cidade ficou famosa por abrigar um dos mais importantes cartéis de drogas no país, comandado pelos Rodríguez Orejuela.
O Departamento de Cauca, do qual Cali é capital, é também um refúgio de "desplazados" pela violência e pobreza em Cauca e Putumayo. A falta de acesso dos deslocados a trabalho e moradia apenas aumenta os problemas de segurança.

Embora Duque tenha ido à cidade na última terça (11), ele não conseguiu evitar que novas manifestações continuassem a ser convocadas. Não ajudaram as declarações do presidente e de membros de seu partido, o direitista Centro Democrático, de que os atos estão infiltrados por forças desestabilizadoras estrangeiras, associadas a dissidências de guerrilhas, cartéis e mesmo do governo venezuelano. Em reação, o prefeito de Cali, Jorge Iván Ospina, do Partido Verde, de oposição a Duque, respondeu: "Os atos e os bloqueios são consequência de causas muito claras. Falta de emprego, de saúde e de educação".

Além dos problemas sociais que afetam toda a população, o governo também passou a receber reivindicações de sindicatos e movimentos indígenas, reunidos no Conselho Regional Indígena do Cauca (Cric), organização que denunciou um ataque no fim de semana realizado por civis associados à polícia, com agressões e destruição de bloqueios montados para protestar. "Estão impedindo o direito constitucional à manifestação. É um movimento que está tomando carona no caos para expressar a xenofobia", disse Alfredo Acosta, que dirige a Guarda Indígena da Colômbia.

Por outro lado, moradores do Solares de Pance, condomínio localizado em um bairro nobre da cidade, foram feitos reféns durante um dia por um grupo de indígenas, também no último fim de semana.

Com acusações de lado a lado, as redes sociais são um caldeirão confuso na guerra de versões. Integrantes do Cric publicam vídeos de reuniões pacíficas em praças onde, de repente, há explosões e correria motivada por tiros. Moradores de bairros fechados, por sua vez, exibem imagens captadas por drones do avanço de indígenas contra as suas residências. Há, ainda, gravações de tiros e ataques da polícia a manifestantes desarmados e também de delegacias onde bombas são detonadas.

"Sabíamos que algo assim poderia ocorrer na Colômbia e especialmente em Cali, que é marcada pela segregação", diz Sánchez. "Agora vemos uma escalada, com casos mais graves ocorrendo todos os dias. No caso de uma cidade muito armada, como esta, em que cada um desses grupos tem meios de causar danos e mortes, a situação é muito complexa."
Quando, no segundo semestre de 2019, protestos ocorreram em todo o país, Cali também concentrou os mais violentos. Os atuais, que voltam a levantar bandeiras daquela época, também são piores em Cali.

Para Julián González, da Universidad del Valle, a pandemia agravou problemas do país. "Houve o fechamento de mais de 500 mil pequenas e médias empresas, e há 17 milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar. A base dos protestos urbanos se desenvolve sobre essa deterioração das condições de vida das maiorias". Frente a esse quadro, a pobreza no país passou de 35,7% em 2019 para 42% em 2020, de acordo com o Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE).

González lembra que Duque, com apenas 33% de aprovação popular, está muito desgastado para lidar com a situação. "Ele tem respaldo apenas de parte de seu partido, os demais se desvincularam dele, a Igreja Católica também. E some-se a isso o repúdio internacional aos abusos da polícia, os relatórios da Human Rights Watch, da ONU e do Parlamento Europeu. Será difícil controlar essa crise."

A ONU, aliás, expressou nos últimos dias preocupação com a situação em Cali. A representante na Colômbia do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Juliette de Rivero, denunciou os ataques a indígenas: "Urgimos a garantia dos direitos e Justiça para os que sofreram ataques, entre os quais mulheres e crianças".

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