Cássia chora a perda da Mãe

É difícil falar da mãe. Faz quase cinco anos da morte. Mas para ela é como se fosse hoje.

Filme "O vendedor de sonhos"Filme "O vendedor de sonhos" - Foto: Divulgação

Para Cássia, é difícil falar da mãe. Faz quase cinco anos da morte. Mas para ela é como se fosse hoje. “Só esta semana eu coloquei a foto dela na parede. Tirei do guarda-roupa e coloquei”, começa, já emocionada. A história é descabida demais, mas o motivo da morte de dona Joana foi briga entre vizinhos. Um grupo de homens, esbravejando autoridade, levou aquela senhora, já cardíaca, já doente, que não aguentou tanta violência. Tomaram partido da briga e a agressão foi demais para ela. Dias depois do episódio, o coração parou.

A morte de dona Joana não é considerada um Crime Violento Letal Intencional (CVLI), mas quando aconteceu, em 2011, o Ceav atendia amplamente casos de violação de direitos. Depois da entrevista à Folha, o caso foi reativado, para ajudar Cássia a ir até o fim dos processos, mas os julgamentos não deram em nada e Cássia desistiu de tudo. A morte da matriarca já desmantelara a família toda. O marido de Joana não aguentou; deprimido, foi deixando de comer até morrer. A neta, que já era doente, teve uma piora e também morreu. Cássia perdeu a graça pela vida, deixou o emprego. Naquele dia, em 2011, quando dona Joana foi levada, ouviu-se os gritos dentro do veículo. Passando mal, foi levada para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), mesmo com a filha dizendo que a mãe tinha plano de saúde e poderia ser atendida em um hospital particular. Ainda passaram por outra unidade do SUS. Só foram liberadas já de madrugada e muito longe de casa. “Pior foi quando começaram as audiências, que só eram a favor do outro lado. Eu nunca contei a verdade para o meu pai”.

Cássia fala com revolta. “Se hoje acontecer alguma coisa, vou confiar em quem? Posso até estar errada, mas o que eu sofri me leva a isso. Queria ter inteligência para colocar esse povo na cadeia. Tá aqui minha casa vazia”, derrama Cássia, de uma vez só. Quando me permiti interromper, perguntei o que mais a indignava nessa história. “Eu não acredito mais na justiça. Quem tem poder, faz. Quem não tem, paga por tudo”.

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