Castigados pela pandemia, Brasil e EUA defendem cloroquina apesar da OMS

Na segunda-feira (25), a OMS disse que suspenderia "temporariamente" os ensaios clínicos com hidroxicloroquina contra a Covid-19, depois que um estudo considerou a cloroquina e seus derivados ineficazes

CloroquinaCloroquina - Foto: Secom/Governo do Amazonas

Apesar da decisão da OMS de suspender os ensaios com hidroxicloroquina, Estados Unidos e Brasil - os dois países do mundo com a maioria dos casos do novo coronavírus - mantêm a recomendação de usar este medicamento para interromper a pandemia.

O presidente americano, Donald Trump, pressionou fortemente pelo uso da hidroxicloroquina como um tratamento potencial para o coronavírus, que infectou mais de 5,5 milhões de pessoas e matou mais de 346.000 pessoas em todo mundo, segundo um balanço da AFP feito com base em dados oficiais. Trump afirmou que ele próprio estava tomando o remédio, de forma preventiva.

O presidente Jair Bolsonaro também promoveu seu uso para conter o vírus, que explodiu no país, o sexto do mundo em número de mortes por Covid-19 (23.473) e o segundo com mais casos confirmados (375.000). Hoje, o Brasil está atrás apenas dos Estados Unidos.

Na segunda-feira (25), a Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que suspenderia "temporariamente" os ensaios clínicos com hidroxicloroquina contra a Covid-19, depois que um estudo considerou a cloroquina e seus derivados ineficazes, ou até contraproducentes, no tratamento do novo coronavírus.

Ainda de acordo com o estudo, publicado no periódico "The Lancet", essas moléculas aumentam o risco de morte e arritmia cardíaca, o que levou a OMS a tomar sua decisão. Apesar disso, o Ministério brasileiro da Saúde anunciou que continuará recomendando a hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19.

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"Permanecemos muito calmos e serenos, e não haverá nenhuma modificação" na recomendação, disse a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde, Mayra Pinheiro, em entrevista coletiva em Brasília.

Bolsonaro é um forte opositor das medidas de confinamento e, como Trump, minimizou a ameaça do vírus desde seu surgimento. E mantém sua postura, apesar de a América Latina se tornar o novo epicentro global do coronavírus.

Já a Colômbia decidiu seguir o conselho da OMS e retirou na segunda-feira a recomendação de usar cloroquina e hidroxiloroquina em pacientes com Covid-19.

Trump anunciou, por sua vez, que estava tomando o remédio, depois de receber a carta de um médico e várias "ligações positivas" de pessoas que recomendaram seu uso. Ignorou, assim, a opinião de seus próprios especialistas do governo e da FDA (a agência federal que regula alimentos e remédios nos EUA), os quais alertam que o medicamento pode causar sérios problemas cardíacos em pacientes com Covid-19.

O presidente dos EUA tem sido muito criticado pela gestão da crise em seu país, o mais afetado pela pandemia, com mais de 98.000 mortes e mais de 1,6 milhão de casos confirmados de coronavírus.

- Latam, em quebra -
A pandemia também continua a causar estragos na América Latina e no Caribe, com cerca de 766.000 casos e mais de 41.000 mortes. Atrás do Brasil, que registrou 23.473 óbitos, os outros países mais afetados são México (7.633 mortes), Peru (3.629) e Equador (3.203).

A crise da saúde e a decorrente paralisia econômica também estão dando origem nesta parte do mundo a um aumento da tensão na população. Embora o confinamento tenha ajudado a conter a propagação do vírus, suas consequências econômicas e no ânimo da população já começam a ser notadas.

Em todo mundo, foram adotadas medidas de recuperação econômica sem precedentes, com os governos tentando apoiar suas economias, afetadas pela crise. Foram especialmente atingidos os setores de turismo e transportes, devido a restrições de viagens.

A Latam, a maior companhia aérea da América Latina, entrou com pedido de falência nos Estados Unidos nesta terça-feira, devido à drástica queda na atividade da empresa. Antes da pandemia, a Latam voava para 145 destinos em 26 países e fazia cerca de 1.400 voos diários.

A decisão da empresa, que inclui subsidiárias no Chile, Peru, Equador e Colômbia, não terá um impacto imediato nos voos de passageiros, ou de carga.

Na Bolívia, depois que algumas cidades retomaram parcialmente o transporte público na segunda-feira, um sindicato dos trabalhadores da saúde lançou uma greve de fome para mostrar seu temor de um aumento do número de infecções.

No México, o presidente Andrés Manuel López Obrador considerou que a crise econômica resultante da pandemia causará a perda de um milhão de empregos em 2020.

Seu colega chileno, Sebastián Piñera, declarou que o sistema de saúde está "perto do limite", enquanto na segunda-feira cerca de 5.000 casos foram registrados no país em 24 horas - um recorde. Dois ministros do gabinete de Piñera estão contaminados com Covid-19.

Na Argentina, o isolamento social vai durar até 7 de junho, o que levou cerca de 150 pessoas a protestarem no centro de Buenos Aires. O governo decidiu estender o confinamento, devido a uma rápida aceleração dos contágios, que aumentaram cinco vezes em duas semanas na capital e nos subúrbios.

- Europa avança com prudência -
Do outro lado do Atlântico, muitos países europeus continuam a moderar as medidas de contenção, enquanto vão controlando a epidemia.

Na Espanha, muito atingida pela Covid-19 com mais de 26.800 mortes, Madri e Barcelona reabriram seus parques e terraços dos cafés na segunda-feira - a primeira vez em mais de dois meses.

Em outros lugares, academias e piscinas também funcionaram novamente, como na Alemanha, Islândia, Itália e em algumas regiões da Espanha.

Dada a menor taxa de infecção, os restaurantes gregos começaram a receber clientes uma semana antes do esperado, mas apenas com atendimento externo.

"O café tem uma dimensão social, é onde a vida do bairro acontece", disse à AFP Giorgos Karavatsani, em Atenas.

Em outro exemplo do retorno gradual à normalidade, a Basílica da Natividade em Belém, onde Jesus nasceu de acordo com a tradição cristã, na Cisjordânia, reabriu nesta terça-feira após ficar fechada por mais de dois meses.

Especialistas alertam para uma possível segunda onda do coronavírus, que pode ser devastadora se governos e cidadãos baixarem a guarda, principalmente sem uma vacina disponível.

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