Chocolate e Páscoa (parte 2)

Colombo foi o primeiro europeu a provar a bebida à base de cacau

Foi na Califórnia onde se descobriu a forma de separar a gordura do chocolateFoi na Califórnia onde se descobriu a forma de separar a gordura do chocolate - Foto: Da editoria de Arte

Colombo foi o primeiro europeu a provar o xocoatl (bebida asteca preparada com as sementes do cacau), no Caribe (1502), em sua quarta e derradeira viagem. Não gostou. Ainda assim levou as sementes para a Espanha do Rei Fernando II, onde não fizeram sucesso. Cortés compreendeu melhor o seu valor, espalhando plantações de cacau desde onde hoje é o México até Trinidad Tobago.

Voltou à Espanha só em 1528 já com sementes, ferramentas e receitas para seu preparo. Ao Rei garantindo que “uma taça dessa preciosa bebida permite que o homem caminhe durante dia inteiro, sem nenhum alimento”. Logo passaram a ser tão valiosas quanto ouro. Acabaram mesmo usadas como moeda - “amêndoas monetárias”, um “dinheiro abençoado que livra seus possuidores da avareza, já que não pode ser armazenado ou escondido”, assim disse o jesuíta Pedro Martyre de Angleria (em Livro primo della Historia de L’Indie Ocidentali).

Por essa época um escravo custava cem sementes, serviços de prostituta dez, e um coelho quatro delas. A fórmula foi mantida em segredo, por muito tempo. Nos mosteiros a bebida ganhou importância especialmente quando decidiu a Igreja que “liquidum non frangit jejunium” (o líquido não quebra o jejum). Sendo, aquele chocolate, alimento perfeito para os períodos de jejum. Principalmente quaresma. Nesses mosteiros abandonou a pimenta da receita original - ganhando açúcar, almíscar, urucum, canela, anis e âmbar cinzento.

Passou a ser servida quente, em vez de fria, ficando muitíssimo mais saborosa. Acabou proibida, em 1650, pela Companhia de Jesus, porque “suas propriedades revigorantes deveriam ser obra de espíritos malignos” - segundo Thomas Cage (em O Anglo-americano, suas Viagens por Mar e Terra). Mas essa proibição durou pouco.

À França chegou em 1615, na bagagem da princesa Anne - filha de Felipe II da Espanha, que ali foi para casar com Luís XIII. Todo fim de tarde havia, na corte, o “chocolat du Roi”. Consta até que o cardeal de Lyon, querendo agradar ao Rei, “conseguiu o segredo com um monge espanhol, para acalmar sua irritação, sua raiva e seu temperamento desagradável” - segundo o historiador Bonaventure D’Argonne. Por esse tempo era ainda apenas bebida.

Maria Tereza da Espanha, que casou com Luís XIV, chegou a confessar - “o chocolate e o rei são minhas únicas paixões”. Nessa ordem. Obedecendo a Luís XV, a marinha francesa levou aquelas sementes para o Haiti, formando grandes plantações de cacau. Era, nos palácios, luxo destinado só a nobres. Maria Antonieta chegou a criar o prestigioso cargo de “Chocolateiro da Rainha”.

Depois acabou presa na Consiérge e morta no cadafalso, mas essa é outra história. Napoleão Bonaparte preferia chocolate ao café, como bebida matinal. O Marquês de Sade enlouqueceu os protagonistas de uma de suas novelas obscenas misturando chocolate com um besouro (a cantárida). E a bebida ganhou o mundo.

As primeiras casas de vender chocolate, ainda como bebida, surgiram na Espanha, em fins do século XVI. Depois, todas as grandes cidades europeias passaram a ter dessas casas. Voltou às Américas só no princípio do século XVIII, por mãos de oficiais ingleses em serviço na Colônia. Os avanços na tecnologia foram surgindo; e, com eles, um outro jeito de fazer chocolate. Em barra. Dubuisson (1732) inventou mesa de moagem em que os operários moíam as sementes de pé - e não mais ajoelhados, em cima de uma pedra curva que lembrava o metate asteca.

Depois veio máquina à vapor (1795), inventada por Joseph Fry (Inglaterra), que moía os grãos de cacau. Coenraad van Houten (1828), na Holanda, revolucionou a indústria do chocolate, ao extrair 50% da manteiga do cacau - deixando, como resultado, um pó muito fino. Houten também inventou o dutching - processo para tornar esse pó mais fácil de ser dissolvido com outros líquidos, ao beneficiá-lo com sais alcalinos.

O chocolate passou a ser mais escuro e a ter gosto mais suave. Ghirardelli descobriu acidentalmente, na Califórnia (1885), um jeito de tirar quase completamente a gordura daquele pó. Quando, depois de prensar aquele cacau, deixou a pasta em saco pendurado ao relento.

Encontrando, na manhã seguinte, o chão coberto de manteiga de cacau. Separada aquela manteiga, veio a ideia de combiná-la com uma mistura de açúcar e sementes moídas de cacau - no que resultou pasta muito fina, ideal para ser colocada em moldes. Inclusive para fazer o ovo de Páscoa que deverá ser amanhã distribuído com as crianças (entre elas, filhos adultos e casados).

RECEITA: Petit gâteau
INGREDIENTES

5 ovos
400g de chocolate meio amargo picado
150g de manteiga sem sal
150g de açúcar de confeiteiro
1/3 de xícara de farinha de trigo
Sorvete de baunilha

CALDA: 200g de chocolate ao leite (picado), 50ml de creme de leite fresco, 20g de manteiga

PREPARO

· Bata as claras em neve e reserve
· Derreta, em banho-maria, chocolate, manteiga e açúcar. Retire do fogo. Acrescente as gemas, mexendo sempre
· Junte farinha de trigo (peneirada) e claras em neve. Mexa, delicadamente, em movimentos de baixo para cima
· Coloque a massa em fôrmas individuais, untadas com manteiga e polvilhadas com trigo. Asse em forno preaquecido, por 10 minutos. O interior do bolo fica úmido e pouco assado

*É especialista em Gastronomia e escreve toda semana neste espaço