Cidade mais bolsonarista ignora presidente e adota restrições mesmo sem casos de coronavírus

Nova Pádua, no Rio Grande do Sul, teve 93% dos votos na última eleição presidencial para Jair Bolsonaro

Nova Pádua, no Rio Grande do SulNova Pádua, no Rio Grande do Sul - Foto: Divulgação

Município onde Jair Bolsonaro venceu as eleições presidenciais com a maior margem percentual de votos, Nova Pádua (RS) tem cerca de 2.500 moradores e nenhum caso confirmado do novo coronavírus. Mesmo assim, a cidade mudou a rotina diante da pandemia.

As escolas e quase todo o comércio seguem fechados. Consultas odontológicas foram suspensas. Academias e o ginásio esportivo também não abrem. Cultos religiosos e eventos com aglomeração de pessoas não estão autorizados.

Nova Pádua nasceu de imigrantes da Itália - segundo país com maior número de mortes na pandemia, atrás apenas dos Estados Unidos. Em 2018, a cidade foi quase unânime na eleição: 93% dos votos válidos para Bolsonaro, que tem minimizado os impactos e o alcance da Covid-19.

Entre a preocupação com a gravidade do vírus e o desprezo de Bolsonaro à situação, o prefeito Ronaldo Boniatti (PSDB) diz que não houve dúvidas na hora de agir.

Antes mesmo de grandes centros urbanos brasileiros, Nova Pádua passou a adotar medidas de restrição à circulação de pessoas para evitar que a Covid-19 chegasse ao município.

Descendentes de italianos que chegavam da Europa ficaram em quarentena - isso valia inclusive para quem não pertence ao grupo de risco do coronavírus.

A prefeitura divulga um boletim diariamente nas redes sociais atualizando a população sobre o quadro da Covid-19. Onze pessoas continuam em isolamento preventivo por apresentarem sintomas de síndrome gripal; um caso descartado e nenhum confirmado, dizia o balanço desta segunda-feira (13).

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Apesar de pequena, a cidade fica a menos de 40 km de Caxias do Sul, com 500 mil habitantes e 17 casos confirmados de coronavírus. Foi o voto antipetista e o desejo por mudança no poder que levou Nova Pádua a ser a zona mais bolsonarista do Brasil em 2018. O PT nem diretório municipal tem lá.

Mas a condução de Bolsonaro diante da pandemia tem decepcionado. "Ele tomou medidas contra o coronavírus. Aí, em outro pronunciamento, muda de postura. Não entendo, muitas vezes, qual o direcionamento. Ele tenta não deixar a economia ir a zero, mas essa é uma questão de saúde pública", disse o presidente da Avenp (Associação Vêneta de Nova Pádua), Alvirio Tonet.

A cidade da Serra Gaúcha teve forte imigração da região de Vêneto, no norte da Itália e uma das mais afetadas no mundo pela Covid-19. A volta à normalidade, pregada por Bolsonaro quando chamou o contágio de "resfriadinho", também não encontra respaldo nas autoridades da cidade que mais apoiou o presidente nas eleições.

"Temos que ter embasamento científico. A gente não pode fugir disso. Tem que ponderar a questão econômica, sim, restringindo ou liberando mais. É uma avaliação a ser feita todos os dias nessa crise, mas olhando as evidências", afirmou o prefeito.

O prefeito apoiou Bolsonaro no segundo turno de 2018 e acredita que o presidente poderá cair no descrédito ao se opor a recomendações técnicas do Ministério da Saúde e a orientações internacionais. "Com essas declarações dele [Bolsonaro], o pessoal aqui acaba tendo algumas frustrações", disse Boniatti.

O prefeito deve manter as escolas fechadas até o fim de abril, segundo a decisão do governo do Rio Grande do Sul. A cidade tem, além de uma creche pública, duas unidades de ensino – uma municipal e uma estadual.

Há cerca de três semanas, Bolsonaro pediu a abertura dos colégios, do comércio e o fim do isolamento. Essas medidas são adotadas por governantes na ampla maioria dos países com casos de coronavírus para reduzir as transmissões e evitar um colapso do sistema de saúde.

Nova Pádua tem um posto de saúde, que faz um atendimento geral. O hospital mais próximo fica a 15 km, em Flores da Cunha (RS). Há um convênio para transporte de emergência, se necessário. Prevendo que o pico de contágio da Covid-19 ainda está por vir, a prefeitura avalia a compra de testes rápido para reforçar o enfrentamento.

Na seara econômica, Boniatti até chegou a abrir parcialmente o comércio e restaurantes entre os dias 31 de março e 1º de abril. Decreto estadual flexibilizou as regras e, a pedido do setor lojista, o prefeito permitiu o funcionamento, mas com limitações: metade da capacidade e após curso obrigatório sobre cuidados e medidas de prevenção.

Mas, com o avanço da pandemia no estado, o Rio Grande do Sul recuou, e o comércio e restaurantes em Nova Pádua voltaram a fechar as portas. As medidas mais duras no município começaram logo após Bolsonaro descumprir orientações médicas e participar, no dia 15 de março, de manifestações contra o Congresso.

O decreto de Boniatti que suspendeu o transporte urbano e limitou a operação de bares e restaurantes ao serviço de delivery, por exemplo, foi editado dia 17 de março - dia da primeira morte por coronavírus no Brasil e primeiro dia de panelaço contra Bolsonaro nas grandes cidades.

O presidente, que já tinha chamado a pandemia de "fantasia", tentou modular o discurso após críticas, mas, poucos dias depois, pediu o fim de medidas de isolamento por, na avaliação dele, se tratar de uma "gripezinha".

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