Guerra na Ucrânia

Cidade ucraniana de Kharkiv 'desrrussifica' suas ruas

Esta grande cidade do nordeste ucraniano já modificou três nomes de ruas e derrubou uma estátua de Alexander Nevsky, herói medieval russo

Pedestres caminham na recém-nomeada "Avenida dos Heróis de Kharkiv", anteriormente "Avenida de Moscou" no centro de Kharkiv, leste da Ucrânia, em 23 de maio de 2022Pedestres caminham na recém-nomeada "Avenida dos Heróis de Kharkiv", anteriormente "Avenida de Moscou" no centro de Kharkiv, leste da Ucrânia, em 23 de maio de 2022 - Foto: Dimitar Dilkoff / AFP

O estudante de arte Evgen Deviatka reivindica na avenida "Heróis de Kharkiv", que há pouco tempo se chamava "Avenida de Moscou", que todas as referências ao "país agressor" sejam removidas das ruas da segunda cidade mais populosa da Ucrânia.

Esta grande cidade do nordeste ucraniano já modificou três nomes de ruas e derrubou uma estátua de Alexander Nevsky, herói medieval russo celebrado por suas vitórias militares. 

Cerca de 200 nomes da toponímia atual estão na mira da "desrrussificação".

Situada perto da fronteira, Kharkiv foi atacada desde as primeiras horas da invasão russa, em 24 de fevereiro, e sofreu com semanas de bombardeios antes que as tropas ucranianas recuperassem o terreno.

Contudo, a cidade, que contava com cerca de 1,4 milhão de habitantes antes da guerra, continua ameaçada. 

"Os nomes estão associados a uma nação, a um país. O que faz este país? Vimos o que ele faz. Fora tudo que é russo", afirmou Larissa Vasilchenko, uma engenheira de 59 anos.

"Os russos nos atacam e matam nossos cidadãos. Nos ferem e nos humilham", enfatizou o soldado Mikita Gavrilenko, parado diante do pedestal onde ficava, há alguns dias, a estátua de Alexander Nevsky, arrancada por um caminhão.

Para Yuri Sidorenko, chefe de comunicações de Kharkiv, "chegou o momento e os topônimos russos em praças, ruas e cidades já não vão mais figurar no mapa da cidade". 

Mas nem tudo é tão simples como parece e a prefeitura não quer se precipitar. "Há muitos nomes em jogo, não posso dizer quantos porque as autoridades devem discuti-los e é preciso debatê-los publicamente", explicou Sidorenko.

Embora a mudança de nomes como Avenida e/ou Praça Moscou, ou Avenida Belgorod - cidade russa de onde partiu o ataque de 24 de fevereiro - sejam "evidentes", outras ruas levam nomes de artistas e escritores russos do passado, que nada têm a ver com a história recente ou do período soviético.

Avenida Moscou vira Heróis de Kharkiv

"É preciso mudar toda uma cultura imperialista russa. Eles impuseram sua cultura, seus escritores, tudo...", assegurou um transeunte, que não quis dizer seu nome.

Ele explicou que não tem nada contra Alexander Pushkin, o lendário poeta russo. 

Na "Rua Pushkin" estão agora os grafites do artista ucraniano de arte urbana Gamlet, que rebatizou o logradouro de "Rua Britânica", porque a Grã-Bretanha é atualmente um dos maiores defensores da Ucrânia em sua guerra contra a Rússia.

Na Avenida Moscou, os moradores haviam se antecipado à prefeitura e instalado um cartaz com o nome "Avenida Grigori Skovoroda", filósofo ucraniano do século XVIII.

O aplicativo de geolocalização Google Maps já modificou a identificação da antiga Avenida Moscou por "Heróis de Kharkiv".

"Gosto do nome. Faz tempo que digo que é preciso modificar esses nomes", comentou a artesã Yulia Butenko.

Mas a questão não é tão simples.

Nikolai Gogol, escritor do século XIX e reivindicado por ambos os países, "escreveu sobre a Ucrânia, mas em russo", reconheceu Butenko. 

O mesmo acontece com o prestigiado autor soviético Mikhail Bulgakov, nascido em Kiev e falecido em Moscou.

Quanto ao compositor Pyotr Tchaikovsky, "ele não fez nada contra a Ucrânia, mas é um símbolo da cultura russa", enquanto o escritor Ostap Vyshnia era ucraniano "mas pró-soviético!", frisou Yulia. 

"Estou preocupada com a Rua Pushkin. Eu gosto de Pushkin. Tudo é ambíguo", destacou. 

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