Cidades mais vulneráveis ao coronavírus têm sistema de saúde despreparado

As quatro outras cidades com maior vulnerabilidade, por sua vez, estão concentradas na Bahia

Quarentena rigorosa em Recife, Olinda, Jaboatão, Camaragibe e São Lourenço da MataQuarentena rigorosa em Recife, Olinda, Jaboatão, Camaragibe e São Lourenço da Mata - Foto: Heudes Régis/SEI

O Pará tem mais de 26 mil casos confirmados do novo coronavírus e 2.372 mortes pela doença. É no estado que está o município mais vulnerável à Covid-19, Mojuí dos Campos, segundo o IVM (Índice de Vulnerabilidade de Municípios), um mapeamento criado pelo Instituto Votorantim, braço social do conglomerado de empresas de metalurgia homônima.

A cidade fica a cerca de 700 km da capital, Belém, e tem uma população de aproximadamente 16 mil habitantes. Apesar de ter 13 casos de coronavírus confirmados e uma morte, o município desponta como o mais vulnerável porque dispõe de poucos recursos para um eventual surto local.

O índice revela que um dos principais fatores de risco para os municípios é um sistema de saúde despreparado para grande número de internações, exames e atendimentos.

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Mojuí dos Campos tem um hospital municipal e um posto de saúde, mas a realização de exames e internações estão condicionadas a hospitais de outras cidades que integram a mesma microrregião, Santarém.

As quatro outras cidades com maior vulnerabilidade, por sua vez, estão concentradas na Bahia, estado em que há mais de 14,5 mil casos confirmados do novo coronavírus e quase 550 mortes. Depois de Mojuí dos Campos, Wanderley, Ibirataia, Sítio do Quinto e Jussiape são, respectivamente, as mais vulneráveis de acordo com a avaliação do

índice.O IVM não utiliza dados de mortes e casos confirmados para medir a vulnerabilidades dos municípios, mas oferece esses dados, atualizados diariamente, como um serviço extra.O índice pontua as cidades com valores que podem ir de 0 a 100, de maneira que, quanto maior o valor, mais vulnerável o município está. Para o cálculo e a aplicação do valor no índice, são considerados 5 eixos temáticos e 18 indicadores. Cada eixo e indicador tem um peso diferente na composição do valor final.

Os cinco eixos e seus percentuais de participação no valor final são População Vulnerável (32,3%), Economia Local (11,7%), Estrutura do Sistema de Saúde (23,5%), Organização do Sistema de Saúde (20,5%) e Capacidade Fiscal da Administração Municipal (11,7%).

Em se tratando da necessidade de organização do sistema de saúde, o índice pode funcionar como um raio-x do sistema, avalia Leonardo Weismann, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. "Se o vírus chegasse aos municípios com maior vulnerabilidade seria uma catástrofe, porque falta organização do sistema de saúde. Não basta ter dinheiro se não houver um modelo de saúde sustentável e organizado", diz.

Para Weismann, nas cidades menos vulneráveis, o impacto seria mais facilmente controlado, uma vez que são majoritariamente municípios pequenos e com sistema de saúde mais organizado e economia mais estável.

A exceção, no entanto, é a cidade de São Bernardo do Campo. O município da região do Grande ABC paulista é a única cidade com mais de 500 mil habitantes entre as cinco menos vulneráveis à crise da Covid-19 -e segunda cidade brasileira menos vulnerável, segundo o IVM.

Apesar de o município ter mais de 2.000 casos confirmados da doença e quase 190 mortes, a avaliação do índice indica que a cidade tem um preparo razoável para a contenção da crise.

SBC, como é conhecida, tem uma taxa de 0,23 mortes por Covid-19 por mil habitantes e um sistema de saúde municipal, segundo o IVM, que possibilita internações e realização de exames na própria cidade.

Além disso, a atenção básica de São Bernardo do Campo atende a 60,6% dos munícipes. Quase metade dos mais de 800 mil habitantes da cidade dependem do SUS (Sistema Único de Saúde).

O prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando (PSDB), comemorou nas redes sociais a pontuação da cidade no IVM. À reportagem Morando atribuiu a classificação como resultado do programa de governo que o levou ao cargo em 2016.

"Eu tratei a saúde como prioridade da nossa gestão. Inaugurei um hospital permanente de urgência para a cidade e projetei o novo Hospital Anchieta. Os dois hospitais não foram criados para a crise do coronavírus, já estavam nos planos, mas, com a pandemia, ambos passaram a atender exclusivamente casos da Covid-19", disse.A cidade tem hoje uma das menores taxas de ocupação de leitos de UTI dos municípios da região do ABC, com 73% de ocupação. Quando considerado o total de leitos, a taxa de ocupação cai para 50%, segundo último balanço da prefeitura.

Ambos os hospitais citados pelo prefeito foram inaugurados no último dia 14 de maio. Somente o Hospital de Urgência adiciona novos 250 leitos ao sistema de saúde da cidade, sendo 80 de UTI. Já o Hospital Anchieta soma 100 leitos. Ao todo, São Bernardo do Campo tem 517 leitos, entre UTI e comuns, destinados a pacientes com coronavírus.

Já a cidade menos vulnerável, Colina, a cerca de 400 km da capital paulista, não teve grande exposição ao Sars-CoV-2, segundo dados oficiais. Até o momento, Colina tem oito casos de coronavírus confirmados e uma morte. Uma taxa de 0,05 mortos por mil habitantes.

Um dos pilares do índice, a organização do sistema de saúde, pode ser determinante quanto aos casos confirmados e as mortes por coronavírus, segundo Rafael Gioielli, gerente geral do instituto Votorantim.

Gioielli explica que uma cidade ser mais vulnerável não quer dizer que, necessariamente, haverá mais casos confirmados e mortes. "O IVM mostra que se a gestão pública tomar medidas acertadas de isolamento social, agir rápido, e orientar a população, a cidade terá melhor performance do que municípios onde havia menor vulnerabilidade. O IVM não é uma ciência exata, ele depende da gestão municipal".

A saúde econômica das cidades também é um ponto importante no valor atribuído a cada município pelo índice. Mojuí dos Campos, por exemplo, tem PIB (Produto Interno Bruto) per capita de R$ 9.919 e apenas 6,7% da sua população com emprego formal, enquanto Colina tem PIB per capita de R$ 51.642 e 27,9% de empregados formalmente.

A população vulnerável também é outro indicador essencial para o índice. Na cidade mais vulnerável, 95,6% da população está inscrita no Cadastro Único para programas sociais da Caixa, enquanto no município menos vulnerável a proporção de inscritos é de 20,2%.

As prefeituras de Colina e de Mojuí dos Campos foram procuradas pela reportagem, mas não responderam até a publicação deste texto.

Índice era interno, mas surpreendeu e foi divulgado Apesar de reunir informações de diversos temas relevantes sobre os mais de 5.500 municípios brasileiros, o IVM foi criado para ajudar o Instituto Votorantim a direcionar seus projetos de ajuda no combate ao coronavírus, segundo Gioielli.

"Já estamos usado o índice há mais de um mês para observar dados por município, como disponibilidade de equipamentos, o que nos ajuda a priorizar doações. A Votorantim já doou, por exemplo, EPIs (equipamentos de proteção individual) para profissionais da saúde de 98 cidades, em muitas das quais há atuação da empresa", afirma.

O instituto também tem doado equipamentos, como respiradores. É o caso da doação a ser feita para a cidade de Capanema, no Pará. "Nós observamos diversos municípios nos quais a Votorantim tem ação e encontramos a cidade de Primavera, no Pará, mas Primavera não tem hospital, portanto optamos por doar um respirador pulmonar para a cidade de referência da região, Capanema", disse.

Até o momento, o Instituto investiu R$ 150 milhões em cerca de 300 projetos em todo o país. Em um deles, por exemplo, a Votorantim selecionou 20 cidades para participarem de um treinamento de gestão para uma eventual segunda onda de infecções pelo novo coronavírus. A seleção dos municípios inscritos usou, como critério, o IVM, até então uma ferramenta de uso privado.

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