Cientistas propõem saídas para a fome mundial em 2050

No 2º dia da série Dieta do Futuro, sobre a pesquisa que prevê uma fome mundial em 2050, caso não haja redução do consumo de carne, a Folha mostra as alternativas propostas pelos cientistas para salvar o planeta da falta de comida e da destruição do meio

O holandês Mark Post foi o primeiro cientista a criar um hambúrguer feito em laboratórioO holandês Mark Post foi o primeiro cientista a criar um hambúrguer feito em laboratório - Foto: Divulgação

A World Resources Institute (WRI) detalhou o que é preciso fazer para que uma grande fome não atinja o planeta em 2050, quando a população chegará aos 10 bilhões. São cinco pontos, subdivididos em 27, que envolvem consumidores, produtores e criadores de políticas públicas. “Todas as soluções ainda estão sendo implementadas, em diversos lugares, nós precisamos agora aumentar a escala em são utilizadas”, explicou a vice-presidente do WRI, Janet Ranganathan.

Consumidor

Como indivíduo, mudar a alimentação reduzirá sua pegada ecológica. Para Janet Ranganathan, o mais importante é trocar carne de ruminantes por outras, como a de porcos e a de aves de capoeira. “Ou, melhor ainda, por proteínas vegetais como feijões, lentilhas, soja e ervilhas. Um bife precisa de 20 vezes mais terra e emite 20 vezes mais gases de efeito estufa que essas plantas”, contabilizou.

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“Isso também impactará a saúde do consumidor.” Países que têm alto consumo como Brasil, Argentina, Canadá e Estados Unidos são os que mais precisam diminuir. De acordo com a pesquisadora, programas de educação não são eficientes na mudança de dieta das pessoas.


“Precisamos que o setor privado aja. Eles têm influenciado muito as escolhas do consumidor. Têm que encorajar alimentos mais sustentáveis. Há bons sinais nisso. A sueca Max Burgers fará todos as suas refeições sem bife a partir de 2020. A americana Sonic Burger criou um hambúrguer mesclado com cogumelos para que se coma menos carne”, contou.

Político

Para o professor de nutrição da universidade de Oxford Pete Scarborough, não se pode esperar a proatividade do setor privado. Os agentes legislativos têm um papel em transformar o sistema alimentar que influencia o consumo. “Primeiro deve-se incluir a sustentabilidade como diretriz alimentar, da mesma forma que já vem sendo feito com o consumo que faz mal à saúde pública: rotulagem, restrições de marketing e propaganda e taxas”, sugere.

Produtor

É possível reduzir a emissão de metano dos bois adicionando um composto especial na comida deles. “Se esse uso aumentasse, por exemplo, a questão ambiental seria menos problemática”, explica o vice-presidente da WRI para alimentação, Craig Hanson. “Além disso, é possível reduzir emissões de nitrogênio dos fertilizantes. Já foi desenvolvido fertilizante que aumenta a absorção pela planta, reduzindo a contaminação dos lençóis e da atmosfera”, exemplifica Hanson. Associar ganhos de produtividade à conservação florestal é também muito útil. Empresas atualmente têm compromissos em terem uma cadeia de produção livre de desflorestamento.

A ciência pode ajudar a criar carne

A carne feita em laboratório é exatamente a mesma da tradicional, exceto em termos de produção, garante o professor de fisiologia da universidade holandesa de Maastricht Mark Post. Ele foi o primeiro a conseguir fazer um bife dessa maneira. “Carne é essencialmente as células de músculo e de gordura. Então, nós fazemos uma biópsia dessas células do corpo do animal e a cultivamos. O produto final é o mesmo”, explicou à Folha de Pernambuco.

O processo é teoricamente simples. Células musculares chamadas miossatélites são retiradas, sob anestesia, de um animal. A função dessas células é justamente criar células musculares quando há uma lesão. Então, em um biorreator, elas proliferam, chegando aos trilhões a partir de uma pequena amostra.

As células são colocadas em meio contendo nutrientes e fatores de crescimento naturais, para que proliferem como a tradicional. “Fazemos de maneira similar à fazendas de gado de corte. A diferença é que a carne cresce fora do corpo do animal”, comparou Post.

“Uma pequena tira muscular é capaz de gerar 80 mil hambúrgueres como o Quarteirão, do McDonalds. E, como o produto é o mesmo, o sabor é o mesmo“, prometeu Post. O pesquisador está trabalhando com bifes atualmente. “Mas é possível criar carne de qualquer mamífero, peixe ou ave.”

Mesmo com a tecnologia, o futuro ainda é incerto. Afinal, em 2013, um quilo de carne custava US$ 250 mil, quase R$ 1 milhão. Atualmente, custa U$$ 363. A intenção dos pesquisadores é que o preço se torne acessível a partir de 2020. Mas ainda será preciso universalizar a tecnologia. “Acreditamos que podemos ser uma alternativa real para 2050. Essa é a principal razão de termos criado uma empresa para comercializar esse tipo de carne, a Mosa Meat.”

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