Sáb, 08 de Agosto

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SAÚDE INFANTIL

Com vacinação de gestantes, amamentação é principal forma de prevenção de doenças em bebês

Unidades de saúde em Pernambuco sentem impacto da inclusão da vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório no calendário da gestante com a diminuição de internamentos de bebês por Srag

Saber que a filha Helena estaria protegida na janela de sazonalidade da Srag foi um "alívio para o coração" da jornalista Natália Santos Saber que a filha Helena estaria protegida na janela de sazonalidade da Srag foi um "alívio para o coração" da jornalista Natália Santos  - Foto: Marina Santos/Cortesia

A amamentação é considerada a principal estratégia global de promoção da saúde infantil nos primeiros meses de vida. Como o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento, o leite materno fornece ao bebê a imunidade necessária para combater infecções como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag), uma das principais causas de mortalidade infantil no Brasil. Por isso, segundo os profissionais de saúde, é de extrema importância que gestantes e puérperas completem o calendário vacinal.

Além do imunizante contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), principal causador da bronquiolite - que leva à Srag -, as vacinas listadas na caderneta da gestante e disponíveis de forma gratuita no Sistema Único de Saúde (SUS) são a de coqueluche, gripe e covid. Elas também protegem o bebê a partir de anticorpos gerados e transferidos pela mãe.

A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), Flávia Bravo, ressalta que todas são igualmente relevantes para a saúde da mãe e do bebê. “Não há como dizer que uma é mais importante que a outra. Todas têm importância. A vacinação materna contra a coqueluche também protege o bebê contra o tétano neonatal, que foi erradicado com esse protocolo. Lembrando que coqueluche não é um vírus respiratório. É uma bactéria que causa infecção respiratória, potencialmente muito grave quanto mais jovem for a criança. Normalmente, a mortalidade se concentra nos menores de 1 ano, sobretudo nos menores de 3 meses”. 

Flávia destaca ainda que até os anticorpos de doenças como sarampo, caxumba e rubéola, cujas as vacinas são contraindicadas para gestantes, são repassados da mãe para o bebê se ela tiver sido vacinada antes da gestação.

“A vacinação da mulher vem de antes de ela gestar, durante a gestação e no pós-parto. São estratégias que, em conjunto, protegem a criança e reduzem o risco de doenças respiratórias graves, que podem evoluir para Srag por conta da faixa etária. Em uma mãe vacinada contra a gripe, por exemplo, o risco de ela contrair e transmitir para o bebê é muito menor”, explica ela, que também é médica pediatra e especialista em imunizações.

Benefícios

A pediatra Tarciana Mendonça, que atua no Banco de Leite do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), esclarece que, apesar de haver a transmissão placentária de anticorpos, a amamentação reforça esse processo e a proteção do bebê nos primeiros meses de vida até que ele possa ser vacinado. Isso se dá devido a fatores científicos, protetivos e imunológicos do leite materno. 

“O leite materno é rico em imunoglobulinas (anticorpos). E isso a indústria de fórmulas infantis ainda não conseguiu reproduzir. A principal delas, a IgA secretora, atua revestindo a mucosa das vias respiratórias e do intestino do bebê, evitando que vírus, bactérias e outros patógenos (agentes biológicos capazes de causar doenças) consigam aderir e se multiplicar nessas regiões que ainda são muito vulneráveis”, detalha a especialista.

De acordo com a pediatra, enquanto a maioria das fórmulas infantis que “tentam copiar o que é produzido pelo corpo humano” contam com apenas dois tipos de oligossacarídeos, no leite materno existem mais de 200. Esses nutrientes ajudam na saúde intestinal e servem de alimento para as bactérias boas do intestino, auxiliando na digestão e na imunidade. Além disso, o alimento contém ainda as chamadas citocinas (pequenas proteínas que regulam a inflamação, o crescimento celular e a defesa do corpo contra infecções). 

“Ele oferece uma imunidade que já está pronta. Isso garante que o bebê que recebe o aleitamento materno (especialmente o exclusivo) fique significativamente mais protegido contra infecções, como as gastrointestinais e respiratórias, do que aquele que não é amamentado”, alerta a médica.

Recomendação

A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que o leite materno seja o único alimento de bebês até os seis meses de vida, excluindo até mesmo a água. Diversas pesquisas, incluindo uma revisão sistemática da Cochrane, atestam que essa conduta é um fator importante na redução das taxas de mortalidade infantil. No Brasil, o Ministério da Saúde preconiza que, após esse período, a amamentação continue até os 2 anos ou mais. 

“Ele ainda é um bebê, que precisa de muita ajuda para fazer diversas atividades como andar, comer e falar. Então, ele também precisa de ajuda para se defender das doenças. É nesse contexto que entra o aleitamento materno. Da mesma forma, ele ainda precisa de ajuda afetiva, e a amamentação também ajuda nesse quesito”, comenta Tarciana.

“Ele oferece uma imunidade que já está pronta", ressalta a pediatra Tarciana Mendonça sobre o leite materno. Foto: Arthur Botelho/Folha de Pernambuco

O processo de imunização da criança no Brasil começa já na primeira semana de vida com a vacina BCG, que é aplicada em dose única e protege contra as formas graves de tuberculose - como meningite tuberculosa e miliar -, além da primeira dose contra a hepatite B. O problema é que esse processo dura meses e só é concluído quando o bebê tem por volta de um ano e meio.

“Neste ano, aqui no Imip, nós percebemos uma redução no número de crianças acometidas pelo vírus da bronquiolite, o sincicial respiratório, porque essas mães foram imunizadas em larga escala pelo SUS. Isso é bem positivo. Se esse bebê continua sendo amamentado, ele recebe ainda os anticorpos que continuam sendo produzidos por essa mãe vacinada além dos que ele já recebeu via placenta", enfatiza a pediatra. 

Efeitos

O Imip, localizado no bairro da Boa Vista, área central do Recife, é referência no tratamento e internações de crianças por Srag em Pernambuco. O estado, assim como muitos outros no Brasil, sofre com crises sazonais da síndrome que superlotam ambulatórios e Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) entre os meses de março e agosto, com o momento mais crítico concentrado entre os meses de abril e junho. 

Esse impacto da imunização nas gestantes contra o VSR também foi percebido em outra instituição de referência no cuidado infantil, o Hospital Barão de Lucena (HBL), localizado no bairro da Iputinga, na Zona Oeste da Capital. 

“É um período em que, por mais preparados que os centros estejam, existe a superlotação. É comum, inclusive, ter lista de espera para UTI pediátrica, mesmo aumentando o número de vagas. As estatísticas ainda devem sair, mas a gente levanta que pode, sim, ter havido já uma redução de casos respiratórios neste ano. A gente espera que a vacina tenha conferido, sim, uma proteção. Existem estudos que mostram isso. Tivemos um vislumbre disso nessa primeira sazonalidade e é provável que esses números impactem ainda mais na próxima”, atesta a coordenadora da neonatologia do HBL, a pediatra neonatologista Eduarda Capiberibe.

“É um período em que, por mais preparados que os centros estejam, existe a superlotação", almeja Eduarda Capiberibe. Foto: Divulgação/SES

Números

De acordo com os boletins epidemiológicos semanais da Secretaria Estadual de Saúde (SES), Pernambuco contabilizou 7.317 casos reportados de Síndrome Respiratória Aguda Grave ao longo das 53 semanas epidemiológicas de 2025. Até o dia 17 de maio, 2.267 casos e 108 mortes foram notificados no estado. Em 2026, o acumulado parcial até o final de julho (SE 29) foi de 1.114 casos.

O imunizante do VSR, que antes só era encontrado na rede particular, passou a integrar o Programa Nacional de Imunizações (PNI) em fevereiro de 2025. A distribuição da vacina para gestantes começou em dezembro, enquanto a oferta do anticorpo monoclonal nirsevimabe teve início em fevereiro de 2026. A vacina é aplicada em dose única a partir da 28ª semana de gestação ou a partir da 24ª, se recomendada por um médico, sem limite de idade gestacional.

Entusiasmo

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que a pasta acompanha esse cenário com “muito entusiasmo”, confirmando aquilo em que se acreditava ao decidir incorporar a vacina ao SUS. “Ao oferecer gratuitamente uma tecnologia de alto custo para todas as gestantes, o Ministério da Saúde ampliou o acesso à prevenção e está colhendo os primeiros resultados concretos dessa decisão”, celebrou o ministro em entrevista à Folha de Pernambuco

Segundo o gestor, dados preliminares já mostram uma redução de 52,5% nos casos de Srag em bebês menores de 6 meses. “No primeiro semestre de 2026, os casos graves caíram de 14.061 para 6.674 em comparação com o mesmo período de 2025”.

“Quando vemos hospitais de referência em Pernambuco, como o Imip e o Barão de Lucena, registrando uma queda importante nas internações de bebês por doenças respiratórias, temos um sinal muito positivo de que essa estratégia está chegando a quem mais precisa. Vamos continuar acompanhando esses resultados de perto, ampliando a cobertura vacinal e trabalhando em parceria com estados e municípios para que esse impacto positivo alcance todo o Brasil”, declara Padilha.

Alívio

A jornalista Natália Santos, mãe de Helena, de 5 meses de idade, conseguiu aproveitar a inserção da vacina no calendário da gestante na reta final da gravidez, com 32 semanas. A comunicadora conta que, na época, ficou bastante ansiosa antes de ser imunizada, pois a previsão do nascimento da filha era justamente na janela de sazonalidade da Srag. Foi um “alívio para o coração” saber que a pequena estaria protegida nesse período.

“Infelizmente a gente vive um momento em que muitas pessoas estão desacreditando das vacinas. Eu faço parte de alguns grupos de gestantes e, na época que a vacina da bronquiolite foi incorporada ao calendário do SUS, apesar disso, muitas celebraram. É uma vacina que na rede privada tinha um custo mais elevado, e tê-la no SUS era uma oportunidade para todas protegerem os seus filhos”, conta a mãe.

Sabendo dos benefícios que a amamentação proporciona, Natália compartilha que não estipulou um prazo para parar de amamentar. Ela afirma que deve seguir amamentando Helena “enquanto fizer sentido e sentir que é importante”.

“Eu percebo, pelo que escuto de amigas que têm filhos maiores que Helena, que crianças que foram amamentadas até uns 2 anos de idade adoeceram menos. Com certeza é um impacto da proteção que o leite materno também traz. Então eu acredito que a união das vacinas com o aleitamento materno transforma a imunidade do bebê em algo muito mais forte para esse início de vida”, afirma a comunicadora.

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