Combate ao racismo, uma luta dentro e fora das redes

A repercussão mundial da morte de George Floyd por um policial branco, nos Estados Unbidos, renovou o debate e provocou engajamento nas redes sociais no combate ao racismo. Mas o ativismo digital é suficiente?

Protestos tomaram as ruas dos Estados Unidos após a morte de George Floyd por um policial brancoProtestos tomaram as ruas dos Estados Unidos após a morte de George Floyd por um policial branco - Foto: Bridget Bennet / AFP

As imagens da morte de George Floyd, um homem negro norte-americano, após um policial branco o imobilizar no chão e o sufocar com o joelho durante sua prisão, em Minneapolis, Minessota (EUA), provocou protestos e revolta da população, que há mais de uma semana segue ocupando as ruas e acirrando o conflito com as forças policiais em várias partes do país. Esse triste episódio só veio à tona graças ao poder da internet e das redes sociais e a repercussão mundial do caso renovou o debate e trouxe à tona um maior engajamento nas redes sociais no combate ao racismo.

É a internet o terreno onde grupos de 'hackerativistas' pressionam governos com informações sensíveis, a exemplo do Anonymous, que voltaram a atuar contra o presidente Donald Trump após o incidente em Minessota. Mas o ativismo que popularizou-se na internet, com frases de avatar e bandeiras, por si só, é realmente efetivo ou existem outras formas de contribuir mais contra o racismo dentro e fora das redes? Para aprofundar o tema, procuramos pessoas pretas que, cada uma em seu campo de atuação, compartilham vivências e ajudam a entender melhor sobre o problema.

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"Eu acho que a primeira coisa que uma pessoa branca que se autointitula antirracista tem que se perguntar todos os dias ao acordar pela manhã é: 'de qual privilégio eu vou abrir mão hoje?'. Não é mais razoável uma pessoa branca achar que está fazendo luta da varanda de seu apartamento compartilhando campanhas e mudando a foto do perfil enquanto a empregada preta, que cria os filhos na favela levando porrada da polícia, faz o jantar", avaliou a jornalista, produtora e ativista pelos direitos negros, Lenne Ferreira. Ela destacou que casos de violência policial com a população negra no Brasil, como a morte do garoto João Pedro, dentro de casa, em uma comunidade do Rio de Janeiro, tem mobilizado protestos.

"Eu sou favelada e preta. Tudo o que faço está associado a essa condição. Como jornalista e produtora, busco atuar no sentido de afrocentrar meus pensamentos e ações, fortalecendo redes pretas e sendo uma canal de potencialização para ações de outras pessoas pretas", descreveu Lenne, nome à frente da produtora Aqualtune, que potencializa as vozes de mulheres pretas de Pernambuco. 

Em seu perfil do Instagram (@lenneferreira), Lenne dedica postagens para debater questões raciais e fortalecer outros grupos ativistas e movimentos populares. "Temos muitas armas: poder de mobilização, comunicação, mão de obra, criatividade, ancestralidade, lideranças jovens com muita disposição. Aqui mesmo, Em Pernambuco, assistimos a força de movimentos que emergem em várias comunidades: @redetumulto, @coletivopaoetinha, @bocanotrombon3, @coresdoamanha, @caranguejo_uca, @caranguejotabaiaresresiste, @iburamaiscultura, @favelalgbtq, @coletivobagac, @mdamaconha, @povopankararu e @coletivotururu", escreveu em um de seus posts.

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Crédito: Reprodução Instagram



Geison Guedes, idealizador da Blackstage, produtora que atua oferecendo palestras de roadie e técnica de palco e formando jovens para o mercado, comentou sobre como percebe o ativismo no Brasil."Não basta ser só contra o racismo, tem que ser anti-racista. Com um discurso inteligente e objetivo, pois o que a gente quer é que os direitos sejam iguais. As pessoas não vão mudar e passar a gostar de negros e a gente viver num baile da fantasia, mas que os direitos sejam iguais e o respeito impere. E que a justiça seja para todos de fato e não seja seletiva como acontece", disse.

"O ativismo digital ele funciona, ele propaga. As imagens só chegaram pra gente em tempo real por conta disso. Talvez a gente só tenha tido acesso à morte do Floyd por conta desse ativismo, pois se fosse um branco que tivesse filmado talvez não teria colocado. Então esse ativismo é importante, mas só tem consistência quando ele é ganhado na rua, olho no olho, no front. É real, nós somos humanos e não somos hologramas ainda e precisamos da presença humana. Isso é que faz a força", sugeriu Geison.


O produtor Geison Guedes, da Blackstage, durante o curso de roadie e técnica de som

O produtor Geison Guedes, da Blackstage, durante o curso de técnicas de palco



Geison acredita que sua atuação formando jovens de periferia pode contribuir para mudar o cenário de poucas oportunidades para eles. "Criamos palestras em locais públicos, onde o público majoritariamente é negro e habita cada um com sua importância social, que são os Compazes, escolas públicas e presídios. É a forma de chegar nessas pessoas e dar um outro ponto de vista, para que eles conheçam o mercado e percebam que dá para se inserir e voltem a estudar e se interessar. Isso faz com que realmente entendam a situação como adversam mas vejam em mim e outros um exemplo de que podem chegar a uma situação de não miséria", afirmou.

"Só o fato de se existir e se entender como negro já é uma forma de combate direta. E a gente soma com os familiares, com minhas filhas, com minha neta, explicando toda a história e trazendo coisas que os livros de história não contam", contou Geison.


Como contribuir?

O perfil do instagram @saquinhodelixo (https://www.instagram.com/saquinhodelixo/) divulgou uma iniciativa que oferece caminhos para quem quer contribuir na luta contra o racismo. "Nas vezes de questionar um passado-presente colonial e o nosso lugar na luta contra o racismo, parece importante romper com alguns hábitos. nesta tentativa, compartilhamos no link da bio uma série de textos, livros, materiais, atos que acontecem agora e, em suma, propostas para ações concretas na luta antirracista – o site foi organizado por @limanayu, a quem, de antemão, agradecemos! fiquem à vontade para comentar a respeito de outras iniciativas e sobre como podemos nos engajar, nos avizinhar, entendendo que, ainda que se parta de lugares diferentes, há coalizões possíveis", diz a postagem, que teve a arte feita por @mmagriss O site pode ser acessado pelo link https://vidasnegrasimportam.carrd.co/

Mapa solidário

Existem diversas iniciativas de organizações populares em Pernambuco que contam com apoio financeiro e voluntariado da sociedade civil. Para ajudar a divulgá-las, foi criado um mapa solidário. Para contribuir, basta clicar na marcação no mapa da Região Metropolitana do Recife e conferir nome, redes sociais e telefone da entidade, no link
https://mapasolidario.riacho.info/

Contribuir com essas organizações e uma das ações efetivas que podem ser tomadas no combate ao racismo estrutural, afinal, grande parte da população negra está nessas comunidades. O acesso à cultura, à educação e à cidadania ajudam a transformar realidades e entregar o que os governos muitas vezes negligenciam.

"Tem muita revolução acontecendo agora em Pernambuco com protagonismo de uma juventude preta que luta por igualdade racial por meio de ações culturais e educativas em várias quebradas que só aparece no noticiário policial. Coletivos como Boca no Trombone (Água Fria), Pão e Tinta (Favela do Bode), Bagaço e Ibura Mais Cultura, Coletivo Jardim Resistência só para citar alguns. São grupos que constroem redes de comunicação permanente e de solidariedade também e que contribuem com a formação política de outros jovens. É a favela potencializando a favela. Financiar e apoiar esses movimentos é uma forma de contribuir com a igualdade racial também" afirma Lenne Ferreira.

 

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