Guerra na Ucrânia

Como a guerra na Ucrânia mudou a geopolítica mundial

Há um ano, Moscou iniciava a invasão do território ucraniano

militar da Ucrânia desviando o olhar enquanto um lançador de foguetes BM-21'Grad' MLRS 122mm dispara nos arredores de Soledar em 11 de janeiro de 2023militar da Ucrânia desviando o olhar enquanto um lançador de foguetes BM-21'Grad' MLRS 122mm dispara nos arredores de Soledar em 11 de janeiro de 2023 - Foto: Arman Soldin / AFP

Há um ano, a invasão russa da Ucrânia alterou a ordem mundial, aprofundando as fissuras da globalização, e impulsionou sua refundação com base em uma lógica de blocos com a Rússia na órbita chinesa e a Europa, na americana.

Supremacia e blocos
A guerra recrudesceu as tensões e acelerou a marcha para uma consolidação de grandes blocos ao redor de Pequim e Washington.

Ásia Central, Cáucaso, Bálcãs, África, Indo-Pacífico... Várias regiões são palco de lutas silenciosas de influência - econômica, militar ou diplomática - entre potências como a China, a União Europeia, os Estados Unidos, a Rússia ou a Turquia.

O conflito fragilizou, por exemplo, a posição russa em suas antigas repúblicas da Ásia Central e deu à Turquia grandes oportunidades diplomáticas.

Para o chefe da diplomacia da UE, Josep Borrell, "tudo é uma arma: energia, dados, infraestruturas, migrações".

"Esta recomposição caótica é real, mas provavelmente transitória", avalia Pierre Razoux, da Fundação Mediterrânea de Estudos Estratégicos (FMES).

"Mecanicamente, o final da guerra verá um enfraquecimento e um desgaste da Rússia e da Europa. Os dois grandes vencedores poderiam ser os Estados Unidos e a China", resume, em declarações à AFP.

Mas, isto significaria uma divisão total do mundo? No contexto atual, países emergentes como o Brasil ou a Índia tentam aparecer como potências de "equilíbrio", evitando se alinhar claramente.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende, inclusive, criar um "grupo de países" para "pôr fim" à guerra na Ucrânia, uma iniciativa que ele propôs a seus contrapartes dos Estados Unidos, Joe Biden; da França, Emmanuel Macron, e pretende fazer ao chinês Xi Jinping.

Postura chinesa e vassalagem russa
A China, que se vê como a primeira potência mundial em 2049, se pergunta, assim como os Estados Unidos, como inserir esta guerra em sua agenda.

Pequim apoia a Rússia de Vladimir Putin, embora tente fazer com que sua posição pareça aceitável aos ocidentais.

Um relatório dos serviços secretos da Estônia, ex-república soviética e membro da UE, qualifica como um "erro" considerar o "apoio reduzido" de Xi à guerra de Putin como uma "demonstração de distanciamento".

Embora Pequim não ajude Moscou como Washington faz com Kiev, "a relação econômica se fortaleceu", observa Alice Ekman, especialista em China do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia (EUISS).

Mas a Rússia, detentora de um arsenal nuclear maior do que o da China, corre o risco de ser relegada ao nível de potência subordinada.

"A Rússia não está em posição de negociar com a China, que tomará o que quiser da Rússia e não lhe dará o que deseja", como armas ou alguns componentes, avalia Agathe Demarais, encarregada de previsões no Economist Intelligence Unit (EIU).

Para Razoux, "para evitar uma vassalagem econômica e estratégica", Moscou aposta em "diversificar suas relações geopolíticas, econômicas e estratégicas: Turquia, Oriente Médio, Irã e África".

Europa, potência ou peão?
A UE está em uma encruzilhada. A guerra lhe permitirá se reafirmar como um terceiro ator importante ou relegará o bloco a um peão de Washington?

"A Europa mostrou sua capacidade de resistência, de reação rápida desde o início da guerra, em apoio militar, aos refugiados, em reduzir a dependência energética", afirmou um participante nas decisões europeias de alto nível no começo do conflito.

Juntos no apoio a Kiev, a Europa quer "fortalecer a relação com os Estados Unidos, mas se dá conta de que um dia poderia ficar sozinha" se o campo ultrarrepublicano e isolacionista vencer em Washington, avalia Razoux.

Espoliada por seus membros mais atlantistas, que só veem sua segurança sob o guarda-chuva americano e da Otan, a UE tentará reduzir outras dependências estratégicas como em matérias-primas críticas, semicondutores, alimentos, etc.

Para o pesquisador francês Bruno Tertrais, da Fundação para a Investigação Estratégica (FRS), os europeus se arriscam a ficar contra a parede se não reagirem.

E o Pacífico?
"A relação entre os Estados Unidos e a China vai moldar o século XXI", profetizava em 2009 Barack Obama, abrindo a via para a guinada americana à Ásia, em detrimento da Europa.

A guerra na Ucrânia representa "uma distração estratégica" para Washington, segundo Tertrais.

Além disso, o presidente americano, o democrata Joe Biden, deve buscar um equilíbrio entre aqueles que querem uma solução "rápida" para o conflito e aqueles do Partido Republicano reticentes a enviar armas para a Ucrânia, segundo Giovanna De Maio, pesquisadora da Universidade George Washington.

Por outro lado, o caso da Ucrânia permite se preparar para um eventual conflito com a China sobre Taiwan, lembrou recentemente o comandante das tropas americanas no Japão, James Bierman, ao jornal Financial Times.

Fim da globalização? 
As sanções econômicas impostas pelos aliados da Ucrânia, com a Europa e os Estados Unidos à frente, contra a Rússia acertaram um duro golpe ao já debilitado livre-cambismo globalizado, impulsionado após a Guerra Fria.

As sanções "corrigem o vazo no espaço diplomático, entre as declarações sem efeito e as intervenções militares potencialmente mortais", resume Demarais em seu livro, "Backfire".

Medidas como limitar o valor do barril de petróleo cru russo, adotadas pelo G7 e a UE, provocaram, assim, "o fim do mercado mundial", afirma à AFP Patrick Pouyanné, presidente-executivo da TotalEnergies.

Mas, ao socavar a ideia de um preço mundial, estas medidas poderiam ter outro efeito: permitir que a Índia e a China, que não impõem sanções, comprem petróleo cru russo a menor custo, adverte.

As restrições aos produtos russos recrudescem os impactos prévios infligidos ao comércio mundial, seja por decisões protecionistas em nome da soberania ou por fatores exteriores, como o impacto da pandemia de covid-19 nas redes de abastecimento.

Custo de vida
A alimentação, a calefação, a eletricidade são três elementos básicos da humanidade, cujos preços dispararam devido à guerra em muitas regões, da África em desenvolvimento à próspera Europa.

Esta "crise do custo de vida" já era vislumbrada antes da pandemia, diz o Fórum Econômico Mundial em seu último relatório sobre os riscos mundiais.

Embora alguns governos tenham tentado limitar seus efeitos, 2022 foi "marcado" por "uma onda sem precedentes" de manifestações sociais, que costumam motivar protestos contra as autoridades, segundo um estudo da fundação Friedrich Ebert, vinculada ao partido social-democrata alemão SPD.

O Oriente Médio e o Norte da África, grandes importadores de produtos alimentares, são duas das regiões mais expostas, especialmente quando os países mais pobres têm pouca margem de manobra financeira.

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