Contradições na Festa do Morro

Imaculada, a imagem da Santa contrasta com pecados capitais e embustes durante a Festa do Morro

Presidente eleito Jair BolsonaroPresidente eleito Jair Bolsonaro - Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Pingar uísque num copo com cerveja não é compatível com uma imagem religiosa. Ao menos fora do Morro da Conceição, na Zona Norte do Recife. No santuário, todos os brindes ocorrem sob o olhar da estátua da Santa padroeira do local. Do alto, a Imaculada enxerga ainda - provavelmente com cristalina compreensão -, além da luxúria, atos de avareza, hipocrisia, embustes e problemas sociais.

Encarecer a cerveja a depender do cliente é uma das práticas reprováveis e recorrentes. Com o aumento do movimento no Morro, donos de restaurantes e vendedores ambulantes percebem a oportunidade e enganam os menos atentos. “Sou morador do Morro e sei os lugares onde posso beber pelo preço normal. São lugares em que os donos me conhecem e aí não me cobrariam a mais”, contou Jorge Santana, 53, entre um gole e outro no Bar da Vó. “Hoje em dia não aguento mais muito farra. Mas aqui, os boêmios estão indo embora para casa quando os religiosos estão chegando para a primeira missa.”
Ao lado do bar, um adolescente de 15 anos comercializa imagens. Como todo evangélico, rejeita as estátuas. “O negócio é da minha avó. Eu fico aqui quando não tenho aula”, se explica.
Em outra barraca, é a ateia Jane Inês que vende imagens, velas e fitas. Pelo sexto ano consecutivo. É a primeira vez, porém, em que é dona do ponto. “Além dos R$ 140 do ponto, pagamos R$ 40 para ter dois bicos de luz, mas ficamos desde a última semana sem ela. Só chegou no sábado. Sei que deixei de vender muito”, reclamou.

Sem um Deus para reclamar a impostura da Celpe, a quem pagou, decidiu fazer um protesto com pneus e sofás na Avenida Norte, mas foi impedida pela polícia. Jaílda Silva, que vende lanches na barraca ao lado, ainda não viu a eletricidade chegar. Soluciona o problema “pegando emprestada” de Jane.
A Compesa também é alvo de reclamação dos moradores, mas não por deixar a desejar durante a Festa. O problema é justamente o contrário. “Durante a Festa do Morro, são nove dias sem corte no abastecimento. É quando a gente toma banho de chuveiro de manhã, de tarde e de noite. Mas às 21h do último dia, voltamos ao banho de cuia”, disse Zilda dos Santos, 78, que aproveita a Festa para encher os tonéis que utiliza como reservatórios.
Mas é literalmente sob os pés da Santa que os moradores denunciam um engano. Afirmam que os ex-votos, presentes doados à Santa após um milagres, são recolhidos e vendidos para outros fiéis. Edenilze Silva, 60, por exemplo, comprou por R$ 2 um simulacro de um braço. “As flores são compartilhadas com a comunidade. Já esses presentes não posso dizer para onde vão”, sorriu amarelo uma das voluntárias que recebem os presentes.

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