Opinião

Convivendo com a cidade

Em um primeiro olhar sobre a cidade, revela-nos uma vontade maior em devolvê-la à sua escala humana de outrora para recuperar os seus valores esquecidos - motivos estes que conduziram os homens a se agruparem e se estabelecerem.

No início da nossa colonização, o litoral foi o lugar decidido pelos portugueses para a fixação dos primeiros núcleos populacionais - um contato permanente com a metrópole e onde surgiram as primeiras culturas do açúcar e, depois, do algodão, cultivadas em grandes propriedades, em cujas terras desenvolviam-se alguns aglomerados urbanos independentes. O interior, habitado pelos indígenas, era um lugar de início, ignorado.
Por mais de dois séculos o Brasil produziu e respirou açúcar, após a extração de pau-de-tinta. Mais tarde, com o declínio de tais lavouras, e já no início do século XIX, com a chegada da corte portuguesa ao País e outros acontecimentos, como a Independência e a Abolição da Escravatura, os centros urbanos ganharam importância e a população, uma nova ordem social, com novas profissões e enredos, especificamente citadinos. Observa-se nesse momento, e é inteiramente compreensível, que essas novas profissões geraram mudanças sociais, ficando mais visíveis entre as classes mais abastadas, como os senhores de engenho e seus descendentes, cujos hábitos, comportamentos e mentalidade trouxeram consigo. 

Com o passar dos anos, o crescimento das cidades é inevitável. O aumento da população amplia os problemas de ordem urbana. Surgiram, então, os municípios e, com eles, inúmeros planos de desenvolvimento, os quais em seus capítulos trazem diversas políticas de melhoria urbana, tais como: criação de diversos fundos de desenvolvimento, origem dos convênios - como fontes de recursos federais, dentre outros. Um fato a ser considerado foi o surgimento de alguns órgãos para atuarem tanto nas áreas do interior quanto nas urbanas, os quais, diante das carências diárias, assumiram as necessidades urgentes. 
A cidade moderna é, indubitavelmente, complexa. Busca apresentar uma integração de funções entre moradia, trabalho e lazer. Toda complexidade apresentada através da diversidade dos meios de transporte e de comunicação tornam-se céleres - evoluem rapidamente. De maneira inquestionável, a cidade é o lugar do encontro e da sociabilidade. 

Ao longo dos anos, as cidades vêm sofrendo contínuas mudanças, decorrentes das numerosas intervenções promovidas em seu espaço urbano, todavia resguarda e preserva seu modo de vida, suas tradições e seus valores culturais, os quais, muitas vezes, estão apenas adormecidos. A arqueologia histórica, que atua em busca da nossa memória, segue escavando e revelando antigas edificações, encontrando artefatos preciosos em ruas antigas e locais de saudosos encontros - atualmente com novos usos e novas funções. 
Na rua, apesar de muitas vezes não haver comportamento exemplar dos transeuntes, a vergonha da desordem passa a ser do poder público. Lamentamos e sofremos quando não conseguimos recriar, no espaço público, um ambiente social harmonioso. Ainda assim, a rua continua sendo o nosso local tradicional de encontro, de ofertas, de descobertas e de diversos ritos, portanto histórias vivas continuam e devemos prosseguir para dignificar a sociedade. 

Sobre a questão do transporte na cidade, observam-se dois distintos aspectos - um positivo e outro negativo: o primeiro, o transporte individual, o qual acarreta grandes congestionamentos, requerendo consideráveis áreas de estacionamento, e com isso ocupando as ruas em áreas demarcadas - infelizmente modificando a paisagem da cidade (como ocorre atualmente no Recife); o segundo, o transporte coletivo de boa qualidade, o que seria de grande importância para a cidade, porque promove a integração entre os passageiros, levando-os a vários itinerários entre as cidades.

Outro aspecto é o lazer, o qual apresenta grande diversidade. Teatro, cinema ou outro equipamento urbano deve ser integrado à população e deve acontecer de forma espontânea, nos mais diversos locais de encontro da paisagem da cidade. Devemos, pois, cuidar para que se torne sempre uma atração para a população. Dessa forma, contribuímos, indubitavelmente, para a sua satisfação e qualidade de vida dos seus habitantes. 
O homem urbano moderno convive, hoje, com uma cidade com espaços demarcados e individualizados, sob uma estrutura valiosíssima, milionária e dispendiosa e, muitas vezes, sob uma estrutura inteiramente alheia e disforme com nossa realidade.

Convivendo com a cidade, relacionamos algumas proposições que poderiam ser analisadas, resultado de numerosos  estudos realizados ao longo dos anos: A estrutura econômica da cidade deveria atender à sua vocação, conforme a sua potencialidade; A estrutura de crescimento deve ser analisada sob três aspectos: o uso do solo, a complexidade do sistema viário e o transporte coletivo - para atender grande parcela da população com segurança, conforto e regularidade. O estudo e a integração desses três fatores, certamente, conduzirão ao desejado crescimento; A aplicação dos recursos financeiros com prioridade de investimentos, com o objetivo de consolidar a estrutura de crescimento da cidade; A moradia nos bairros ou sítios históricos deve ser uma moradia adequada e integrada à estrutura de crescimento da cidade.

A restauração ou a readequação de antigos edifícios para moradias, escolas ou sede de entidades públicas ou particulares, sempre apresentará um menor custo do que a construção de novos edifícios, além de preservar a memória da cidade; Nas comunidades que se desenvolveram em morros, para levar aos habitantes alguns serviços básicos, como água, esgoto e energia elétrica, seriam criados “corrimãos de serviços”, junto às escadarias que servem de acesso às comunidades. Nos patamares formados conforme a declividade dos terrenos, nos trechos das escadarias, seriam erigidos os equipamentos de recreação, escolas e centros de saúde ou comunitários, conforme uma ideia do saudoso arquiteto Jayme Lerner. O objetivo geral do desenvolvimento do gestor atento é, certamente, a melhoria da qualidade de vida da população, o acesso à infraestrutura que se oferece, aos benefícios da tecnologia moderna e a uma convivência harmônica com a sua ambiência.

Conviver com a cidade como o Recife, percebe-se que em apenas 11 meses o seu espaço urbano vem sendo transformado em um imenso canteiro de obras. Busca-se resolver os seus antigos problemas e assim recuperar os seus valores perdidos. Precisamos de um Recife belo, limpo e organizado, como descrevia Tristão de Athayde em relação à beleza de sua paisagem: “abrir as janelas do sobrado alto sobre a foz do rio para que um novo alumbramento se produzisse e a cidade singular de outrora revelasse, com a graça maliciosa de quem entreabre um manto, o que guardava de encantos secretos e renovados”.                                                                   
Dedico este artigo ao meu mestre querido e inesquecível professor José Luiz Mota Menezes, com muitas saudades.


*Arquiteto, membro do CEHM, membro do Instituto Arqueológico e Professor Titular da UFPE


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