Copa do Mundo e São João: excesso de estímulos pode provocar sobrecarga sensorial em pessoas com TEA
No Brasil, 2,4 milhões de pessoas foram diagnosticadas com autismo
A sensibilidade auditiva é uma das características de pessoas com neurodivergências como o transtorno do espectro autista (TEA), uma vez que o cérebro de pessoas autistas apresenta alteração no processamento sensorial. Isso significa que ele não filtra ou modula os sons da mesma maneira que acontece com as outras pessoas.
Com isso, outros estímulos como os de luzes, cheiros, texturas e aglomerações, principalmente em tempos de Copa do Mundo e São João, representam grandes desafios para essas pessoas, visto que a temporada é marcada por festas, fogos, música alta e aglomerações que podem causar pânico e crises sensoriais.
Leia também
• Copa do Mundo: veja como usar a IA para transformar a experiência durante o torneio de futebol
• São João do Vila da Fonte terá tarde junina gratuita para o público 60+ em Casa Forte
• Balancê sinfônico marca segunda semana da programação do São João do Recife
Dados do Brasil e lei que proíbe fogos
Segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil. Em Pernambuco, uma lei publicada em abril de 2016 proíbe a queima e a soltura de fogos de artifício com estampido no estado, tanto em áreas públicas como privadas.
Em abril de 2021, a medida foi editada e passou a valer também para as unidades de conservação de proteção integral, abrangendo todo o território nacional, a fim de proteger pessoas com hipersensibilidade auditiva, crianças, idosos e animais de estimação. Apesar disso, nem sempre a lei 15.736/2016 combinada com a Lei nº 17.195/2021 é cumprida.
Sinais de alerta para o autismo
- Ausência de contato visual ou expressões faciais;
- Não responder ao nome até os 12 meses;
- Atraso na fala ou regressão de habilidades já adquiridas;
- Pouco ou nenhum interesse por interações sociais;
- Comportamentos repetitivos (como balançar o corpo ou alinhar objetos);
- Resistência a mudanças na rotina;
- Hiper ou hipossensibilidade a sons, luzes, texturas.
Como reduzir impactos?
A partir de avaliações clínicas, a psicopedagoga, analista do comportamento e mãe atípica, Cinthia Cardoso, elencou medidas que podem ser adotadas pelos familiares de autistas para amenizar o impacto desses estampidos.
Segundo ela, os parentes precisam trabalhar a previsibilidade, conversando previamente para explicar o que vai acontecer e passar segurança. Além disso, é recomendado criar um espaço confortável e que seja tranquilo.
Para isso, é ideal que o lugar conte com almofadas, iluminação suave e objetos confortáveis para onde a pessoa autista possa ir quando estiver sobrecarregada. O uso de abafadores também pode ser útil em algumas situações.
“O uso desses artifícios pode alterar a saúde e até causar uma parada cardíaca em neurodivergentes, pessoas com doenças cardíacas, com hipersensibilidade e possam ter uma emergência de saúde diante da surpresa de um estampido desse. Então, diante de um cenário com a cultura milenar, um ambulante que precisa do sustento para a família e essas pessoas que têm hipersensibilidade, o que fazer? Usar o bom senso. O acesso aos fogos silenciosos precisa ser mais facilitado”, declara.
“Síndicos de condomínio e organizadores de festas de rua precisam entender, reconhecer e até mapear se naquele local existem pessoas com hipersensibilidade. Ninguém quer acabar com a festa e nem com o sustento que é levado para casa, por meio dos vendedores. Mas vamos pensar em quem tem a saúde mais vulnerável, nesse momento, inclusive os animais que sofrem bastante”, complementa.
Como identificar uma sobrecarga sensorial?
- Mudanças de humor;
- Inquietação;
- Aumento de movimentos repetitivos;
- Tentativa de tampar os ouvidos ou de se afastar do ambiente.
Reconhecimento
Para Elizabete Souza, que é especialista em desenvolvimento infantil e sócia da Clínica Mundo da Aprendizagem, inclusão não significa que elas precisem participar das atividades da mesma forma que as demais pessoas. Respeitar as necessidades delas pode representar conforto e segurança.
“Quando os adultos compreendem os limites da criança e fazem pequenas adaptações, ela consegue participar das experiências sociais com muito mais bem-estar. Cada criança é única. O que funciona para uma pode não funcionar para outra”, repara.
Isolamento resolve tudo?
A especialista ressalta ainda que o isolamento não significa compreender as particularidades sensoriais de uma pessoa com TEA, a convivência social é importante, inclusive, para contribuir com o desenvolvimento da pessoa.
“Por isso, mais importante do que seguir regras prontas, é essencial observar, escutar e respeitar os sinais que ela apresenta. Quando existe acolhimento e compreensão, é possível construir experiências positivas e afetivas, mesmo em períodos tradicionalmente marcados por muitos estímulos”, termina.

