Coronavírus altera rotina de trabalhadores que prestam serviços essenciais

Enfermeiras contam como é atuar na linha de frente no combate à pandemia. Profissionais de outros setores, como farmácias e transporte público, redobram cuidados com a higiene.

Gilson Júnior controlou o fluxo de clientes e usa equipamentos de proteção em farmácia em Casa Amarela, no RecifeGilson Júnior controlou o fluxo de clientes e usa equipamentos de proteção em farmácia em Casa Amarela, no Recife - Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco

O mundo mudou rápido demais. Encarando o vazio que as ruas do Recife se tornaram desde a chegada do novo coronavírus, a enfermeira Margarida (nome fictício) sai de casa duas vezes por semana para dar o plantão de 12 horas na UTI reservada aos pacientes com Covid-19 do Hospital da Mulher, no bairro do Curado. A unidade prepara, ao todo, 208 leitos para os que contraírem a forma grave da doença.

“É tudo muito obscuro ainda. Estamos num trem que não sabemos onde vai parar”, diz a profissional, que, por estar na linha de frente no combate à pandemia, pediu para não ser identificada. “Quem está enfrentando todo o ônus da situação somos nós. É nesse momento que nos agarramos à fé para estar no horário de cada turno”.

Margarida está entre os muitos brasileiros que não podem cumprir integralmente a quarentena em casa por prestar um serviço essencial. No caso dela, mais do que essencial, já que atua diretamente no atendimento às vítimas do coronavírus. Em poucos dias, a enfermeira, assim como os colegas de trabalho, teve que se adaptar a uma rotina diferente, com um grau de alerta muito maior.

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“A gente chega, recebe a roupa privativa fornecida pelo hospital, realiza a higiene das mãos e aí começa. Touca, máscara N95, depois uma máscara cirúrgica por cima, óculos de proteção, avental impermeável e outro avental descartável. E passa o plantão todo com as luvas”, conta.

Os cuidados moram nos detalhes, com atenção constante até na hora de botar e tirar os equipamentos de proteção individual (EPIs). “A retirada [dos EPIs] é um momento crítico em que a gente pode se contaminar. Então, tem um passo a passo. Recebemos protocolos, vídeos. Isso, a gente tem feito em conjunto, perguntando um ao outro se está fazendo certo”, relata.

Até em casa, foi preciso redobrar as medidas de restrição de contato. “Além de estar com o paciente acometido pelo vírus, eu estou fora do meu isolamento social. Acaba sendo uma exposição dupla. Escuto relatos de colegas que mandaram os filhos para o interior, ficar com cunhada, sogra, para não haver a possibilidade de dizer: ‘Eu contaminei quem eu amo’. Isso é muito sério”, comenta.

A realidade enfrentada por Margarida serve de alerta aos colegas de profissão que, mesmo sem atuar diretamente no tratamento da Covid-19, seguem no atendimento aos outros pacientes. A enfermeira obstetra Joanna Francyne, 26, trabalha em um hospital no Centro do Recife. Para ela, a rotina prática não sofreu muitas modificações.

“O que tem pesado muito para os profissionais, independente do serviço em que eles estão inseridos, é como lidar com o bem-estar e não ter a escolha de ficar em casa. Além disso, se preocupar em ser um vetor em potencial. É uma angústia geral ir ao plantão e ter uma criança ou um idoso esperando”, afirma. “Estamos num clima de incertezas. Se você conversar comigo daqui a 20 dias, as aflições serão outras”.

Para Margarida, é necessário buscar um suporte psicológico. “O que tem nos dado esperança e equilíbrio é a nossa fé. Somos humanos, falíveis, finitos, mas nos agarramos com o Senhor Jesus para nos dar graça e força, porque alguém precisa fazer o trabalho. Se todos os profissionais entrarem em colapso, vamos enfrentar um caos triplicado”, ressalta.

Mudança de hábito
São diversas as atividades mantidas em funcionamento para que a maior parte da população permaneça em casa o máximo de tempo possível. No decreto que estabelece o fechamento do comércio em Pernambuco, assinado pelo governador Paulo Câmara no dia 20 de março, foram liberados empreendimentos como farmácias, postos de gasolina, padarias, supermercados e mercadinhos. Outros serviços, como o transporte público e abastecimento de água, além dos hospitais, seguem em operação.

Apesar disso, todos esses setores tidos como essenciais tiveram que se adaptar às medidas restritivas para evitar aglomerações e diminuir o contágio do vírus. É o caso de Gilson Júnior, 36. Dono de uma farmácia no bairro de Casa Amarela, Zona Norte do Recife, ele trabalha todos os dias, das 7h às 20h.

“O movimento é sempre intenso. Coloquei uma barreira de contenção a um metro do balcão. A gente minimizou o fluxo. Só entram de duas em duas pessoas”, explica. Para fazer esse controle, fica um funcionário na entrada do estabelecimento. “Do lado de fora, a gente está sempre orientando o pessoal a manter uma distância de um metro entre cada um. Quem entra, borrifa a mão com álcool em gel”, conta.

No total, seis pessoas, incluindo o proprietário, trabalham na farmácia, utilizando luvas e máscaras como equipamentos de proteção. Ainda segundo Gilson, desde o início da pandemia, tem aumentado a procura por medicamentos antigripais e produtos como álcool em gel. “Tem muita gente acima de 60 anos, é complicado. Mas infelizmente é a realidade, principalmente em farmácia de subúrbio. Dá para sentir o medo nos olhos de todo mundo. É algo muito crítico”, afirma.

Um serviço que também não pode parar é o dos que trabalham para assegurar a despedida de quem está partindo. Proprietário de uma funerária no bairro de Santo Amaro, área central da Cidade, Herton Viana diz que reforçou o uso de EPIs, entre eles, touca, óculos, máscara, luvas, macacão e botas, objetos que devem ser higienizados depois de cada saída. Outra preocupação é em relação ao deslocamento dos funcionários para o local de trabalho. “Aqueles que não têm carro próprio, buscamos em casa. Estamos fazendo o possível para que eles não tenham acesso aos ônibus e metrô”, detalha.

No mercado há 22 anos, Herton tem notado uma queda de movimento nos cerimoniais. “Eu fiquei impressionado. Teve um velório aonde só foi uma pessoa. As próprias pessoas estão preocupadas para não fazer aglomeração e, nesse caso específico, o diagnóstico era doença respiratória. A gente orienta para haver uma distância, afastou mais as cadeiras, procura deixar as portas abertas. E foram todos muito receptivos. Está todo mundo querendo se prevenir, preferindo ficar nas lembranças, sem se expor em velórios cheios, em contato com o corpo”, relata.

Cuidados para proteger
E nos locais onde a rotatividade é grande por natureza? Acostumado com o trânsito e o aperto nos coletivos, o cobrador de ônibus Edson Dantas, 48, se sente em uma rotina menos agitada. A preocupação com o vírus, no entanto, o fez reforçar os hábitos de higiene. “Estou lavando a mão com água e sabão e passando álcool em gel. Quando eu chego em casa, não entro direto. Venho pelo beco, tiro a roupa lá mesmo, separo para lavar e tomo meu banho”, enumera o trabalhador que mora com a mulher e a filha em Nova Descoberta, Zona Norte da Capital.

Da mesma maneira devem se comportar os que trabalham para manter a limpeza das ruas, como o gari Jorge Luiz da Silva, 51. Varrendo as calçadas e asfaltos do Centro do Recife, ele é testemunha do silêncio que toma conta da Cidade durante a crise do coronavírus. “Tem menos lixo, está mais vazio. Tem sabão quando eu chego [ao trabalho], lavo as mãos. O que eu faço é bom para a gente e para a população. Tem que ter a cidade limpa”, afirma.

Em uma situação nova como a pandemia da Covid-19, é preciso tomar medidas para evitar o contágio no ambiente de trabalho. O advogado trabalhista Marcello Burle explica que, como o coronavírus é um fato inédito que não é previsto na legislação, as organizações, exceto as que atuam na área de saúde, não são obrigadas, em tese, a fornecer aos funcionários produtos como álcool em gel e equipamentos de proteção. O especialista alerta, porém, para as recomendações do Ministério Público do Trabalho (MPT) (veja na arte), que, se não forem seguidas, podem levar a uma penalização.

“O que a gente indica é que as empresas tomem o maior cuidado possível. Ceder álcool em gel é bom porque as pessoas usam equipamentos compartilhados e, quando for possível, ceder máscaras e luvas. Se entender que precisa receber algo que não está recebendo para fazer o trabalho com segurança, o funcionário pode fazer uma denúncia ao MPT ou, no futuro, numa ação trabalhista, pedir uma indenização por dano moral”, observa.


Recomendações às empresas sobre a Covid-19

- Fornecer lavatórios com água e sabão e sintetizantes, como álcool 70%

- Estabelecer política de flexibilidade de jornada

- Não permitir circulação de crianças e familiares no ambiente de trabalho

- Reduzir a força de trabalho necessária

- Permitir a realização de trabalho a distância

- Organizar o processo de trabalho para aumentar a distância entre as pessoas

Fonte: Ministério Público do Trabalho (MPT)

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