Coronavírus

Tecnologia se torna aliada para minimizar impactos do coronavírus

A partir do isolamento exigido pela pandemia, muitos viram as ferramentas tecnológicas como um salva-vidas. Mas cuidado. É preciso o uso consciente dos programas e dispositivos

Tecnologia é aliada no combate ao coronavírusTecnologia é aliada no combate ao coronavírus - Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

De repente tudo mudou. Hábitos triviais, como caminhar na praia e apertar a mão do vizinho, tornaram-se impraticáveis. Questão de saúde pública. Causada pelo vírus Sars-Cov-2, a pandemia de Covid-19 trouxe mudanças que quase ninguém podia imaginar. O distanciamento social passou a ser regra, gerando um novo cenário socioeconômico e nos obrigando a reaprender a viver. A rápida disseminação da doença estimulou a busca por soluções tecnológicas que minimizassem seu impacto. Alguns estudiosos defendem, inclusive, que o coronavírus acelerou uma série de mudanças que já estavam em andamento, como a educação a distância e o trabalho remoto.

O jornalista Marcos Oliveira, 30 anos, conhece bem esta nova realidade. Boa parte da sua rotina foi alterada para se adaptar às mudanças. Para ele, entre os ganhos estão o tempo e o dinheiro que deixou de gastar com deslocamentos. Antes do surto da Covid-19 ele levava cerca de 20 minutos indo de casa ao trabalho e uma hora para chegar na pós-graduação. Uma vez por semana, ao sair do curso, ele desembolsava em torno de R$ 15 para o Uber, ou seja, está economizando R$ 60 por mês. “É o equivalente a seis refeições que eu costumava pagar antes da pandemia”, compara. Por outro lado, ele lamenta a falta de contato físico com as pessoas. 

Marcos reconhece, porém, que atualmente temos a tecnologia como fundamental aliada e sem o mundo teria parado. “Estamos vivendo hoje uma pandemia que de fato acelerou o curso da história. Tínhamos discussões de quando seria implementado o trabalho ou educação remota, mas ela era sempre postergada. Chegou o surto do coronavírus e, em questão de dias, isso foi implantado”, comenta o jornalista. Com a avó internada na UTI com Covid-19, ele fala a tecnologia também está sendo importante nesta situação. “Como ela não pode receber a gente presencialmente podemos gravar vídeo, fazer chamadas de vídeo, mandar áudios”.

No Brasil, mais de 1,5 milhão já foram infectadas e passam de 60 mil os que morreram de Covid-19, segundo o Ministério da Saúde. Em Pernambuco, estes números ultrapassam as marcas de 61 mil casos confirmados e 5 mil óbitos. Diante deste cenário, diariamente surgem desafios, provocando um efeito cascata em todos os setores e mostrando a urgência do momento que estamos vivendo. Consequentemente, decisões rápidas e efetivas precisam ser tomadas. Novamente a tecnologia se mostrou necessária, sobretudo os segmentos de inteligência artificial e ciência de dados, oferecendo soluções para combater a pandemia.

Ferramentas foram criadas visando o rápido monitoramento da doença, ajudando a reduzir a propagação do Sars-Cov-2, especialmente levando em consideração a velocidade com que o vírus se espalha. A plataforma da empresa In Loco, por exemplo, utiliza sistemas de localização de celulares para alimentar as ações da Prefeitura do Recife. São ao menos 700 mil aparelhos monitorados de forma coletiva, com respeito à privacidade dos usuários. Com a inteligência gerada pela ferramenta, o poder público é capaz de pensar e colocar em prática uma série de medidas voltadas para o incentivo do isolamento social.

Esta foi apenas uma das inúmeras soluções que surgiram no Porto Digital, um dos mais importantes polos de tecnologia do Brasil, de referência internacional, localizado no Recife. Algumas empresas do parque saíram na dianteira e estão fazendo a diferença no Estado. Além disso, por meio de uma parceria com o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) e a Secretaria Estadual de Saúde (SES), foi lançado o Desafio Covid-19 para promover o desenvolvimento de soluções tecnológicas que ajudassem na contenção da pandemia e pudessem ser postas em prática em curto prazo. 

TELEMEDICINA
No setor da saúde não faltam exemplos de soluções pensadas para evitar o colapso dos serviços públicos e que até então pareciam “coisa do futuro”. Fruto de parceria entre a Prefeitura do Recife (PCR) e o Governo do Estado, o Atende em Casa foi criado durante a pandemia para garantir assistência virtual às pessoas com suspeita de Covid-19, evitando que elas se dirijam desnecessariamente às unidades de saúde. Já são mais de 85,7 mil usuários cadastrados em Pernambuco. Além da teleorientação e do teleacolhimento, a ferramenta também passou a auxiliar no agendamento das testagens para a doença.

Segundo a Diretora de Atenção Básica à Saúde do Recife, Ana Sofia Costa, 70% das pessoas que acessaram a plataforma na Capital foram indicados para ficar no isolamento domiciliar, 20% não se enquadravam no diagnóstico da Covid-19 e apenas 10% realmente precisavam se dirigir a um hospital. Para ela é um caminho sem volta. “É importante cada vez mais investir em tecnologia. Inclusive, a gente está planejando o futuro do Atende em Casa. Queremos expandir para outras patologias, outras demandas que a gente consiga incorporar inovação em saúde na nossa rotina, tanto de profissionais quanto de pacientes”, disse Ana Sofia Costa.

Na Capital outro projeto também merece destaque: Movimenta Recife, criado para estimular e orientar a população a praticar atividades físicas sem sair de casa. O aplicativo contém videoaulas de aproximadamente meia hora de ginástica e dança nos níveis básico, intermediário e avançado. “Além do exercício físico achamos importante trazer as práticas integrativas, como meditação e yoga. Neste momento temos que ter cuidado com o corpo e a mente, para combater o estresse e aumentar a imunidade daqueles que se exercitam”, acrescenta a diretora de Atenção Básica à Saúde do município.

O presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, ressalta que manter o ambiente de inovação é essencial. “Diante dessa pandemia ficou muito a necessidade que temos. Não apenas a tecnologia, mas a indústria como um todo não pode ficar dependente de outros países. Isso ficou muito evidente na hora que precisamos de EPIs e respiradores, mas não tínhamos. Precisamos investir em capital humano”, comentou. Para Lucena um dos problemas é a falta de diretrizes nacionais que guiem os caminhos a serem seguidos. “Para que a gente faça algo impactante é preciso ter um norte nacional. Inovação precisa ser um projeto nacional”, disse.

CUIDADOS
A história da humanidade é marcada por outras pandemias que já causaram transformações significativas na sociedade. Desta vez, é preciso inovar inclusive nas ferramentas já usadas, para que se adequam às mudanças sociais. No mundo inteiro, empresas buscam manter as atividades minimamente, com profissionais atuando em modelo home office. Os serviços de entrega estão cada vez mais ativos. Até mesmo o modo de consumir cultura mudou. Lives musicais tornaram-se recorrentes e shows em drive-in começam a ser realizados. Já presente em nossas vidas, as interações nas redes sociais estão ainda mais populares.

A doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Viviane Toraci alerta sobre o consumo dessas ferramentas. Ela afirma que ser apenas usuário é um engano, pois para realmente se posicionar como cidadão nessa sociedade digital é preciso compreender como as tecnologias funcionam e conseguir até desenvolvê-las para ter controle sobre o que acontece na sua vida digital. “Tão importante quanto se beneficiar dela é saber que tecnologia é essa para não cair numa armadilha lá na frente. Não podemos permanecer nessa ilusão de que só em se cadastrar em uma ferramenta já nos coloca como cidadão desse mundo digital”, disse.

De acordo com o especialista em cultura de consumo e mediação tecnológica, André Leão, o mundo vive um processo crescente de midiatização da vida social. Ele explica que se trata de um fenômeno por meio do qual cada vez mais a realidade social é mediada por tecnologias. “Tínhamos evidências de que esse processo estava se consolidando, mas ainda não tínhamos levado de forma tão clara para outras dimensões da vida social. O fato de termos precisado nos isolar fez com que esse fenômeno de virtualização das relações sociais tomasse uma aceleração que talvez viesse acontecer em dez anos e ocorreu em poucos meses”, comenta.

Parafraseando o filósofo e educador canadense Herbert Marshall McLuhan, André Leão afirma que a tecnologia é um meio de extensão do ser humano e se bem utilizadas pode potencializar o alcance e a capacidade que temos. “E o lado que serve de alerta para ser pensado macro-socialmente é a forma de lidar com isso para não correr o risco de criar algumas disfunções sociais. Inclusive, isso passa a ser uma preocupação em nível de política de estado. Já que o processo está sendo acelerado a resposta política também deve ser compatível”, disse o especialista, que é coordenador do programa de pós-graduação em administração da UFPE.

Indiscutivelmente, o cenário de incertezas que atravessamos nos últimos meses tem se transformado em uma boa oportunidade para que as tecnologias evoluam e novas ferramentas apareçam a nosso favor. No entanto, é preciso avaliar a longo prazo, uma vez que os efeitos da pandemia na economia e na sociedade devem durar anos. É hora de estarmos atentos a esse potencial e manter a calma para contornar a situação da melhor forma possível, focando no que pode ser feito agora para evitar maiores perdas.
 

Conheça algumas ferramentas criadas durante a pandemia

Atende em Casa - Ajuda no atendimento à população que esteja com suspeita de ter contraído a doença provocada pelo novo coronavírus. O app pode ser acessado pelos smartphones e pelo computador, através do endereço www.atendeemcasa.pe.gov.br.

Movimenta Recife - Criado para estimular e orientar a população a praticar exercícios físicos sem sair de casa durante a pandemia da covid-19, o aplicativo conta com videoaulas de ginástica, dança e práticas integrativas, ministradas por profissionais de Educação Física. O app está disponível nas versões Android e iOS.

Voluntários Online - Plataforma com mais de 30 atividades divididas em diversas categorias. Qualquer pessoa, pode acessar o site voluntariosonline.recife.pe.gov.br e selecionar uma das opções ("quer ajudar" ou "precisa de ajuda").

Anna - Aplicativo de troca de mensagens que se propõe a fazer companhia aos jovens, em meio ao isolamento social imposto durante a pandemia. A plataforma virtual é aberta e pode ser baixada gratuitamente no site www.eusouanna.com.br e funciona para Android e iPhone.

Desafio Covid: fake ou news - Para desmentir as fake news sobre a Covid-19, quiz com perguntas e respostas confirma a cada alternativa respondida o que é verdade e o que é mentira sobre a doença. O game pode ser encontrado no site desafiocovid.com.

Anjo amigo - Criada para ser a rede colaborativa de apoio para idosos acima dos 60 anos, a plataforma promove conexão, monitoramento, auxílio, informação e tratamento dos idosos em isolamento social devido à Covid-19. Saiba mais acessando anjoamigo.com.

DyCovid – Plataforma alerta aglomerações em tempo real baseado em geolocalização e classificação de fatores de risco. Com a solução, é possível definir o grau de risco de contaminação. O aplicativo móvel está disponível nas lojas do Google Play (Android) e App Store (iOS).

Xô Corona - O aplicativo promove o isolamento social voluntário empregando ferramentas da economia comportamental, linguagem visual e games. O grande objetivo da solução é reduzir a velocidade de propagação da doença. O app está disponível na Google Play e em breve, na App Store (iOS).

Medvelox - Ferramenta é uma forma de comunicação móvel customizada para necessidades de equipes médicas. Como um “WhatsApp médico”, existe funcionalidade de acompanhar gráficos da evolução dos quadros de pacientes, dentre outras funcionalidades. O app já está disponível para download no Google Play e em breve estará na App Store.

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