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MACHISMO

Cortando o mal da violência de gênero pela raiz

Diante da crescente onda de violência contra mulheres e LGBTQIA+, startup pernambucana criou jogo lúdico para combater o machismo

Combate à violência de gêneroCombate à violência de gênero - Foto: Alan Marques/Folhapress

Encarado como desafio por especialistas e o poder público, o combate à violência de gênero enfrenta barreiras que aos poucos vêm sendo ultrapassadas. Apesar de as mulheres serem as mais atingidas, pessoas de outros gêneros também são alvos dessas agressões. Cada vez mais percebe-se que não basta apenas punir para impedir a agressão física, psicológica, sexual ou simbólica contra alguém em situação de vulnerabilidade devido a sua identidade de gênero ou orientação sexual. Mesmo cercado por tabus, o assunto vem ganhando espaço, sobretudo, entre os mais jovens.

Criado pela startup pernambucana Impulsiona Jovem para promover reflexões por meio do lúdico, o jogo de tabuleiro Inspira Jovem visa a construção de masculinidades saudáveis no ambiente escolar, de modo a estimular o diálogo, a transformação da comunidade e o protagonismo dos jovens.

Focado em estudantes do Ensino Médio, principalmente meninos, a iniciativa foi concebida durante um processo imersivo promovido pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), a “Roda das Juventudes Já! - adolescentes e jovens contra a violência de gênero”. Desde então, o coletivo reúne jovens espalhados em seis estados do Brasil, todos reunidos no propósito de oportunizar participação crítica, ativa e reflexiva através da educação.

De acordo com um dos desenvolvedores, o estudante Carlos Eduardo da Hora, 17 anos, o jogo surgiu devido a dores dos próprios criadores sobre diversos conflitos e consequências do machismo. "Queremos criar uma nova cultura de respeito às diferenças e combate ao machismo através de uma solução lúdica, que desconstrói, impacta e trata de assuntos sérios por meio de uma forma divertida e reflexiva", disse. Ele também explica porque os meninos são o foco do game. "Acreditamos que o machismo enraizado, plantado nos meninos desde o começo de suas vidas, pode sim ser o problema, mas esses mesmos meninos que sofrem com esse mal podem ser a solução", comenta.

Para jogar, será preciso estar disposto a percorrer um caminho de discussões, reflexões e desconstruções não apenas em relação ao machismo e às masculinidades, mas também sobre protagonismo, cidadania e participação coletiva. Os personagens possuem histórias baseadas em relatos verdadeiros sobre a violência a que foram submetidos alguns dos integrantes do Impulsiona Jovem. Quem primeiro chegar ao fim ganha. O foco do jogo, no entanto, não é ter um vencedor, mas que aquele tenha aprendido o que foi apresentado no decorrer do trajeto e possa ser agente multiplicador das ideias disseminadas.

Segundo o estudante de jornalismo e um dos idealizadores do jogo, Daniel Paixão, a equipe acredita que no ensino médio é o momento que os jovens conseguem refletir sobre seus projetos de vida e o seu potencial protagonista. Eles entendem que utilizando o game os estudantes se tornarão agentes multiplicadores dessa transformação socia. "Sabemos que discutir machismo é complicado por conta das estruturas e as culturas que são impostas desde a nossa infância, mas entendemos que nós, enquanto equipe, construirmos um jogo transformador e revolucionaremos a realidade de muitas pessoas que sofrem por conta dessas violências", afirma.

Startup pernambucana Impulsiona Jovem criou jogo de tabuleiro Inspira Jovem contra violência de gêneroStartup pernambucana criou jogo de tabuleiro contra violência de gênero



Números impressionam

Não por acaso, os números da violência de gênero impressionam. De acordo com a Secretaria de Defesa Social (SDS), nos seis primeiros meses deste ano, houve um aumento de quase 1% nos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, saindo de 19.764 para 19.955, uma diferença de 191 registros. Em todo o ano de 2020, as vítimas desse tipo de crime foram 41.554, uma queda de 2,65% em relação aos 42.686 casos de 2019. 

A SDS informa que o número de vítimas de violência doméstica e familiar contra a mulher caiu 6,44% em junho deste ano, com 2.890 queixas. No mesmo período do ano passado foram registrados 3.089 boletins casos desse tipo de crime. No acumulado dos seis primeiros meses deste ano, houve oscilação de 0,97%, saindo de 19.764 para 19.955, uma diferença de 191 casos. Em todo o ano de 2020, as vítimas desse tipo de crime foram 41.554, -2,65% em relação aos 42.686 casos de 2019. Também houve aumento nos feminicídios, em 2019, haviam sido 57 vítimas e este número subiu para 75 no ano passado. No primeiro semestre de 2021 estas mortes já chegam a 57. 

Para reforçar o combate à violência contra a mulher e evitar que esse tipo de crime culmine em feminicídio, a Secretaria de Defesa Social adota uma série de medidas, como a intensificação da Patrulha Maria da Penha, dos Plantões 190 e das 11 Delegacias da Mulher. Atualmente, Pernambuco conta com Delegacias da Mulher em 11 cidades, mas onde não há uma unidade especializada, a população pode procurar qualquer delegacia de Polícia Civil mais próxima.  "É importante que pessoas próximas, amigos e vizinhos colaborem com a rede de proteção, já que o feminicídio é um crime de proximidade", diz a nota. Para denúncias e informações sobre a rede de proteção veja o inforgráfico.

Legislação mais severa

Na última quinta-feira (29), o Diário Oficial da União trouxe uma lei que prevê que agressores sejam afastados imediatamente do lar ou do local de convivência com a mulher em casos de risco atual ou iminente à vida ou à integridade física da vítima ou de seus dependentes, ou se verificado o risco da existência de violência psicológica. O texto que já entrou em vigor modifica trechos do Código Penal, na Lei de Crimes Hediondos e na Lei Maria da Penha. 

A norma prevê pena de reclusão de um a quatro anos para o crime de lesão corporal cometido contra a mulher "por razões da condição do sexo feminino" e a determinação do afastamento do lar do agressor quando há risco, atual ou iminente, à vida ou à integridade física ou psicológica da mulher. A realidade dos crimes contra a população LGBTQIA+ não é muito diferente.

A SDS informa que, de janeiro a junho de 2021, foram registrados 18 CVLIs com vítimas LGBTQIA+ em Pernambuco.  No mesmo período, os casos de violência contra esse grupo no Estado somaram 1.504. No ano de 2020, notificaram-se 47 mortes violentas que vitimaram essa população, além de 2.113 casos de agressão, lesão corporal, maus-tratos, estupro, injúria e outros crimes. Em 2019, haviam sido 30 os casos de homicídio e 1.170 as ocorrências de outros tipos de violência não-letal contra pessoas LGBTQIA+.

Em nota, a SDS explica que essas estatísticas levam em conta a orientação sexual ou gênero declarados pelas vítimas. A pasta diz ainda que em caso de vítimas de homicídios, a relação entre sua identidade de gênero e a motivação do crime pode ser atestada com a conclusão das investigações. 

"Portanto, não necessariamente a motivação desses crimes seria a intolerância de gênero ou a homofobia. Cabe ressaltar que as forças de segurança pública estão dando resposta em todos os casos de homicídios contra pessoas LGBTQIA+, identificando e prendendo autores, como os acusados pelos crimes contra a vida de Roberta da Silva, Fabiana da Silva Lucas, Kalyndra Selva  e Crismilly Pérola", diz a nota.

A socióloga e professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Andrea Butto explica qual deve ser o papel do homem no combate à violência de gênero. “Antes de tudo é preciso reconhecer as mulheres como cidadãs plenas, além de prestar apoio e reagir à violência de forma a coibi-la", fala. Ela afirma ainda que a violência contra as mulheres é resultado de uma sociedade marcada por relações de poder que os homens exercem sobre elas em função de todo um sistema patriarcal existente na sociedade, combinado com outros sistemas de dominação, como o sexismo. 

“Além disso, é muito importante que isso não seja apenas uma luta das mulheres, mas que seja um compromisso da sociedade. Isso implica em um processo de conscientização que tem a ver com ações de instituições sociais, como a escola, as igrejas, os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário", comenta Butto, que é integrante da Marcha Mundial de Mulheres.

Socióloga Andrea ButtoSociológa Andrea Butto

Fenômenos culturais 

O mestre e doutorando em psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Jorge Luiz da Silva, ressalta que antes de tudo é preciso entender que as violências de gênero são fenômenos culturais intimamente relacionadas com o machismo, para que não se caia no erro de tomar essas situações como atitudes isoladas.

"Para prevenir estas violências é preciso fazer uma intervenção na cultura do machismo por meio da educação", afirma. O especialista acredita que, apesar estamos em um cenário de total precarização de políticas públicas e aumento do conservadorismo, a sociedade está no caminho certo no combate a estes tipos de agressões.

“Se não estivéssemos não haveria tanta resistência, mas transformações culturais a gente não vai conseguir na velocidade que a gente deseja. Claro que gostaríamos que avançasse em um ritmo que pudéssemos salvar muito mais vidas, mas como lidamos com uma transformação cultural extremamente complexa, uma cultura que vem se constituindo há tantos anos, as mudanças tendem a ser vagarosas”.

A doutoranda em antropologia social Fernanda de Carvalho Azevedo Melo defende que mais do que punir é preciso trabalhar para que a agressão não aconteça, pois a vida não volta com a punição. Para isso ela defende que a educação é o meio mais eficiente. "É preciso fazer com que os meninos entendam o que é identidade de gênero e como ela é socialmente construída", comenta.

A especialista diz ainda que é importante homens e meninos entenderem que a existência de outras realidades não afeta a existência deles e não deveriam afetar sua relação com sua masculinidade. "Assim, os próprios meninos podem se beneficiar desse entendimento, construindo uma noção de masculino, de hombridade mais saudável", afirma.

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