'Criei regras e jogos mentais para sobreviver', diz Eduardo Chianca

Após dois anos preso na Rússia, pesquisador espiritual Eduardo Chianca conta como foi a experiência em solo russo

Eduardo Chianca cumprirá restante da pena em liberdadeEduardo Chianca cumprirá restante da pena em liberdade - Foto: Rafael Furtado

Um senhor de 68 anos, terapeuta holístico e pesquisador espiritual. Que após um convite para ministrar palestras em cinco países da Europa em 2016, acabou sendo preso no primeiro deles. Eduardo Chianca foi preso por inocentemente levar consigo, em sua bagagem , quatro garrafas do chá indígena ayahuasca. Sorridente, o pesquisador espiritual afirma que levou a situação como um retiro de purificação da alma, uma prova pela qual ele precisava passar para evoluir. Chianca conta, em entrevista à Folha de Pernambuco, como aprendeu e criou regras para lidar com a situação. E ainda, o que tirou, essencialmente de positivo, da experiência, que para muitos teria sido traumática. 

Quando foi que o senhor notou que, como senhor disse, esta era uma experiência de caráter espiritual e não um simples acaso do destino terreno?

Eu sempre afirmei que nada de relevante acontece por acaso. Não existe acaso, o nosso livre arbítrio é muito pequeno. As coisas significativas da vida, como uma grande doença ou o nascimento de um filho, são planejamentos evolutivos da alma, então eu soube que era isso. Você toma essas decisões em um nível mais alto do eu superior, mas quando acontece o choque você fica desnorteado. 

E como se deu esta percepção?

No dia dois, dois dias depois da prisão, eu fui levado a um nível de consciência muito alto de clareza mental que me disse “você decidiu passar por esta prova”. 

Quando o senhor teria decidido passar por essa prova? Nessa vida, antes dessa vida, em uma meditação?

Quando nos encarnamos, já existe um planejamento. Antes de encarnarmos, no plano astral, antes de termos uma concepção, a alma já vem com uma missão, e isso vem de longe. No entanto, nós temos uma parte negativa que tem que ser purificada, porque depois que você purifica sua alma, sua consciência e sua percepção são elevadas. É um estado mental de uma clareza indescritível, e você sente uma grande bondade no coração, e um sentimento de poder também indescritíveis. 

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Então, na sua opinião, foi uma missão de purificação?

Sim, foi isso que aconteceu. Quando você passa na prova, vai se purificando, caindo e comendo o pão que o diabo amassou. Você tem que comer esse pão, porque está é a prova, como na música do Gilberto Gil, “Se eu quiser falar com Deus”.

E como você encarou toda essa experiência, na essência?

Eu encarei como um desafio que era positivo, e que eu tinha que vencer. Você tem que ter um propósito, isso é muito importante, eu tinha esse propósito e eu tinha que vencê-lo. Por isso eu não aceitei que ninguém da minha família fosse me visitar, porque esta era minha prova e eu tinha que passar por ela sozinho. 

Como foi tomar essa decisão?

Tomei essa grande decisão de não envolver ninguém, porque a gente vai assumindo essas responsabilidades e a partir disso você se purifica, aumenta sua potencialidade, e isso é transmitido praz outras pessoas. Um sentimento de verdade, de autoridade, que você está falando algo positivo baseado em verdades. 

Como foi para o senhor ficar preso esses dois anos e quatro meses em solo estrangeiro com pessoas, como o senhor disse, más em questão de espiritualidade?

Foi uma experiência dificílima. É um ambiente agressivo de pessoas desequilibradas, estressadas, drogadas, confinadas com comida inadequada. É tudo muito desafiante, é realmente uma prova, uma prova de pele vermelha. 

E como você era tratado lá? Você chegou a sofrer algum tipo de represália?

Eles são educados. As instituições da prisão, do ponto de vista do governo e do estado, são organizadas, os policiais são educados, mas o problema não foi esse. O problema, é o prisioneiro que você convive 24h uma pessoa louca, ou que se droga. 

Qual o maior desafio?

O grande desafio é você conviver com pessoas loucas. Uma prisão tem regras, são três regras que eu transformei em cinco.

E quais são essas regras?

1- Não confie. 
Você não pode confiar em ninguém, não existem amizades. Tudo é na base da falsidade, tudo é tentando lhe prejudicar, porque é assim que eles sobrevivem lá. Eles não querem que você seja libertado. Eles querem que você morra prisão, porque isso é uma compensação pra eles. 

2- Não tenha medo.
Os caras vão tentar te meter medo, para te dominar, então você tem que encará-los.

3- Não faça perguntas. 
Porque os caras cometem crimes lá, usam drogas, então você não pode perguntar nada. 

Além destas eu adicionei mais duas. 

4- Não fale. 

5- Não escute. 

Eu bloqueei o meu campo mental, me isolei. Eu não vou escrever livros sobre a vida na prisão, mas se eu o fosse, o livro com certeza seria “um estranho no ninho”, porque eu era completamente alheio ali. Não falava, não escutava, não compreendia e não queria conversa. Ficava na minha, escrevendo. Então eu tratei isso como um retiro espiritual. 

O senhor criou outros meios de lidar com a situação?

Eu fiz vários jogos mentais para sobreviver. Você assistiu “A vida é bela”? Muitas vezes eu fazia comigo mesmo o jogo mental que o protagonista fazia com o filho dele. Quando estava muito frio, nevando muito, dando -30°, eu imaginava que eu era um explorador, um cientista dentro de sua cabine na Antártica. Que eu tinha que dar graças a Deus por estar dentro da cabine porque lá fora estava -30°. 

Quando sua esposa começou a mover as coisas aqui no Brasil para trazê-lo para cá, o senhor tinha consciência disso e queria voltar?

Eu sempre quis voltar, só que na hora certa. Se eu voltasse para cá sem ter apelado na justiça de lá, na primeira sentença, de seis anos e meio, que eu poderia ter pedido a transferência naquele momento, eu iria direto para aquela nossa prisão terrível. Mas como eu era inocente, todos dizendo para que eu não apelasse, eu apelei e a minha pena caiu para três anos. E foi essa pena que me proporcionou ir para casa, por já ter cumprido dois terços da pena. 

Como o senhor encarou a forma como tudo aconteceu e deu certo. Você acha que tudo devia ter acontecido exatamente como aconteceu?

Com relação ao Brasil, eu não posso falar nada porque o tempo que eu fiquei fora não soube de nada. 

E o que fica para você de toda a experiência, até o seu fim?

Foi uma experiência fantástica, a vida é experiência. O que diferencia um ser humano de outro é experiência. E com essa experiência, vivenciando o mundo dos narcóticos, eu tenho autoridade para falar para os jovens que isso é loucura. O ser humano não foi feito para usar isso, é uma coisa danosa. 

E o que você tira dessa experiência?

Hoje você vê a humanidade caminhando para o buraco, principalmente os jovens, então temos que alerta-los. Então, eu vou usar essa notoriedade e fazer trabalhos para ajudar os jovens e alerta-los contra o narcótico. Para assim, desenvolver neles um sentimento de espiritualidade. Para que não vivam mais em função da matéria.

O senhor disse que era vegetariano. Em algum momento você teve que comer carne?

Eu comi de tudo que tinha, só não comi carne de porco, mas o porco surgiu lá umas cinco vezes. Comi carne de gado, uma galinha que era só osso, e eu lambi o osso. É a sobrevivência, você tem que sobreviver e, inclusive, você tem que ser rápido. Quando eles botam a comida na mesa, se você não for rápido eles comem tudo e você fica lambendo a colher. 

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