Da mão ao copo

Bebidas alcoólicas também têm etiqueta na hora do serviço, confira

Bebida não é tudo igual, nem tão pouco os seus coposBebida não é tudo igual, nem tão pouco os seus copos - Foto: Da editoria de Arte

Para os primeiros homens, ingerir líquidos era tarefa penosa. Usavam as mãos semifechadas, em forma de concha; ou imitavam outros animais, pondo a boca diretamente sobre o que queriam beber. Só aos poucos foram compreendendo que mais prático, e mais simples, era usar recipientes.

Por juntar maior quantidade de líquidos e facilitar o ato de ingerir. Passaram então a usar o que a natureza lhes oferecia - folhas, cascas (de ovo, de árvore, de frutas), chifre de animais e até crânios de inimigos mortos em batalha. Depois, começaram a fabricar recipientes específicos: grandes (jarras e ânforas de barro, cantis de couro, barris de madeira), para armazenar por mais tempo; e pequenos - aqueles que seriam os primeiros copos.

Aos poucos, também começaram a experimentar novos materiais - estanho, prata, ouro. Vidro só bem depois, uma invenção atribuída aos fenícios (4.000 a.C.) e surgida meio por acaso, como tantas outras que conhecemos. É que, ao colocar no fogo pedras de natrão (usado para tingir lã), esse carbonato de sódio natural se transformava em bloco brilhante e transparente, mais parecendo pedra preciosa. Para surpresa e encantamento de todos, claro.

No Egito antigo, esse vidro foi sendo aperfeiçoado. Por volta de 1400 a. C., passou a ser moldado a partir do sopro com tubos metálicos - daí vindo os vasos ocos, próprios para acondicionar líquidos. Ainda hoje podem ser vistos, em museus locais, antigos frascos de perfume e canecas. As taças foram uma evolução natural desses primitivos copos.

Do Renascimento veio a forma que até hoje é padrão - transparentes (para ver melhor o conteúdo), com o bojo em forma de vaso e haste longa (para evitar que o calor da mão esquentasse a bebida). Copos de cristal vieram ainda mais tarde, quando se acrescentou óxido de chumbo ao vidro; dessa mistura surgindo material que, embora menos resistente, permitia paredes e bordas bem mais finas. Uma novidade importante, porque essa espessura exerce influência direta na temperatura da mais importante bebida então conhecida - o vinho.

Por volta dos anos 1950, houve grande avanço na modelagem de copos. Sobretudo quando o vidraceiro austríaco Claus Josef Riedel descobriu que formato, tamanho e material das taças, influíam diretamente nos sabores do vinho. “O formato do copo influi na maneira como o vinho entra na boca, indo direto à zonas bem definidas do paladar.

A ponta da língua, mais sensível, responde pelo doce; as laterais, o salgado; e, mais próximo à entrada da garganta, fica zona vulnerável aos sabores ácidos e amargos” - segundo Célia Ribeiro, em Etiqueta do século XXI. Passa o tempo e esses cristais Riedel se consagraram como os melhores do mundo, porque são os que “melhor exibem a cor, o olfato e o paladar da bebida” - segundo Murilo Guimarães (Caderno Sabores 23/05/2009), maior entendido de vinhos do planeta.

As taças passaram a ser desenhadas para realçar ou atenuar os atributos do vinho - doçura, tanino e acidez. Espumantes, por exemplo, devem ser servidos numa flûte (do francês “flauta”, por lembrar na forma uma flauta doce), com bojo comprido e boca estreita, para reter o gás da bebida por mais tempo.

Vinho tinto, em taça grande, para acelerar a oxidação e liberar os aromas. Vinho branco, em taça menor (por ser resfriado, serve-se em quantidade menor para que não esquente). Vinhos de sobremesa (Porto, Madeira, Moscatel, Marsala) em taças pequenas, para atenuar sua doçura.

Por fim, vale a pena lembrar a invenção brasileira dos copos Americanos - criação do empresário Nadir Figueiredo, em 1940. O nome decorre de ter sido inspirado em modelo parecido, produzido nos Estados Unidos. Sucesso garantido, com esse copo hoje frequentando padarias, bares e botecos. E servindo todas as bebidas - água, café, cachaça, cerveja. Como se não fosse pouco, ainda é também utilizado como medida em receitas.

ALGUMAS REGRAS PARA USO DOS COPOS:
· As taças (bem limpas e brilhantes) devem ser colocadas logo acima dos pratos. Da maior para a menor. Tantas quantas forem as bebidas servidas. A primeira (e a maior), para a água; a segunda, ligeiramente menor, para o vinho tinto; a terceira, ainda menor, para o vinho branco. A flûte fica um pouco atrás, entre os copos de água e vinho tinto. Taças de vinho do Porto, Madeira, Moscatel ou Marsala vêm à mesa só ao final da refeição, junto com sobremesa e queijos.

· O vinho deve ser servido com a mão direita, e sempre pela direita do convidado.
· Quando for servir um espumante, coloque primeiro uma pequena quantidade (um dedo) no flûte. Espere baixar sua espuma e complete, no máximo até a metade da taça.
· Quando servir vinhos (tinto ou branco), encha apenas um terço da taça, que o espaço vazio favorece a emanação do seu perfume (bouquet).

· Não esquecer que deve-se brindar (do alemão ich bring dir’s, “eu bebo a você”) só depois do último prato salgado, e antes da sobremesa. “Se antigamente era uma falta grave brindar com água ou refrigerante, no século XXI o gesto simbólico é aceito pela intenção de comemorar um momento especial” - segundo Martha Calderaro, em Etiqueta e boas maneiras.

Com toda razão. Que se os chineses brindam com água, (para eles a mais nobre de todas as bebidas, por ser fonte de saúde), não devemos considerar falta grave brindar, em vez do vinho, com outras bebidas.

*É especialista em Gastronomia e escreve semanalmente neste espaço