Delegado do caso Thiago Faria diz que Mysheva "não mentiu em nada"

Ele afirmou que resultados da perícia corroboram depoimento da noiva do promotor

Julgamento ocorreu na sede da Justiça Federal, no JiquiáJulgamento ocorreu na sede da Justiça Federal, no Jiquiá - Foto: Clemilson Campos/Folha de Pernambuco

O delegado Alexandre Alves, responsável pelas investigações da morte do promotor Thiago Faria Neves, foi o último ouvido nesta segunda-feira (24), primeiro dia do julgamento de três dos cinco acusados pela morte do promotor de Itaíba, no Agreste de Pernambuco.

Em seu depoimento, o delegado defendeu a noiva de Thiago Faria, a advogada Mysheva Freire Ferrão Martins. Ele disse também como chegou a cada um dos acusados.

Alexandre Alves alegou que a perícia avaliou que, pela dinâmica dos tiros, o intuito era realmente atingir o promotor e que não haveria como os tiros acertarem Mysheva e o tio dela, Adautivo Martins, que também estavam no carro na hora do crime. "Pelo que foi apontado tecnicamente, Mysheva não mentiu em nada. Tudo o que ela falou sobre a dinâmica do crime foi corroborado pelos resultados da perícia", declarou o delegado. Mais cedo, bastante emocionada, Mysheva depôs e contou como ocorreu o crime, além de falar de sua vida com o então noivo.

O delegado também disse que a quebra de sigilos telefônicos dos investigados foi essencial para chegar, sobretudo, a José Maria Domingos Cavalcante e Adeildo Ferreira dos Santos, já que os dois não tinham, inicialmente, nenhuma relação com o caso - só apareceram depois em conversas telefônicas interceptadas.

Julgamento

O julgamento de três dos cinco acusados do crime começou nesta segunda-feira (24) e deve se estender até a quinta (27). Nesta terça (25), devem ser ouvidas mais seis testemunhas, uma de acusação e cinco de defesa.

A leitura da acusação pela juíza Amanda Torres de Lucena Diniz Araújo começou às 12h25. Pouco antes das 13h, ela determinou um intervalo. Às 14h30 a sessão foi retomada com o depoimento de Mysheva Martins, que estava no carro com Thiago e o tio dela, Adautivo Elias Martins, quando o crime ocorreu, mas ambos sobreviveram. Adautivo não vai comparecer ao julgamento - ele tem problemas mentais e apresentou um atestado médico. Também deve falar o delegado federal Alexandre Alves, que concluiu as investigações e encaminhou ao Ministério Público Federal.

No final da manhã, após a recusa de cinco mulheres, foi concluído o sorteio dos jurados que formam o conselho de sentença. O grupo é composto por seis mulheres e um homem. Uma vez sorteados, os jurados não podem se comunicar e nem emitir qualquer opinião sobre o processo. Quem descumprir a norma pode ser expulso do conselho e até pagar multa.

À imprensa, a mãe de Thiago também agradeceu ao Ministério Público de Pernambuco pelo carinho e atenção ao longo desses três anos. "Eu nunca dei uma palavra até agora desde o acontecido, mas hoje me senti na obrigação de dar uma satisfação a vocês. Estou aqui hoje para pedir, exclusivamente, justiça aos homens pela morte trágica do meu filho Thiago. Espero que a justiça seja feita porque a justiça divina não falha", disse.

Para André Luiz Barretto Canuto, advogado da família de Thiago, o inquérito federal é contundente e ninguém tem prova de inocência. "Temos provas, depoimento do delegado, perícia federal que foi juntada no dia 13 de outubro. Ela consegue muito bem colocar em fatos e mostrar a dinâmica do evento", afirma.

O julgamento ocorre na sede da Justiça Federal, situada no Jiquiá, Zona Oeste do Recife. Três dos cinco acusados inicialmente do crime estão sendo julgados. O júri é presidido pela juíza federal Amanda Torres de Lucena Diniz Araújo e são responsáveis pela acusação os procuradores da república Alfredo Falcão Júnior, Luiz Vicente Queiroz, Bruno Costa Magalhães e Fabrício Carrer.

Defesa e Acusação

Anderson Flexa, advogado de José Marivaldo, um dos réus, diz que todas as versões direcionam para uma intenção que é condenar os acusados mesmo sem provas. Já o procurador federal Luiz Vicente afirma que a motivação do crime, as desavenças entre José Maria Rosendo e Mysheva e os laudos constantes nos autos são provas suficientes para a condenação. "Mysheva é vítima, vai falar na condição de ofendida. O tio está à disposição da Justiça para depor", explicou Luiz Vicente.

Cinco pessoas foram acusadas de envolvimento na morte do promotor. Um dos acusados, Antônio Cavalcante Filho, irmão de José Maria Cavalcante, está foragido da Justiça Federal. Também réu, José Maria Domingos Cavalcante teve o julgamento adiado - está preso no Centro de Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), em Abreu e Lima. Os três demais estão representados por seus advogados e serão ouvidos durante o júri.

Um dos quatro réus teve o julgamento adiado no início do júri desta segunda e liberado da sessão do plenário, José Maria Domingos Cavalcante. Os outros três irão prestar depoimento e estão representados por seus advogados -- todos se queixam do tempo. Anderson Flexa cuida da defesa de José Marivaldo Vitor da Silva. João Olímpio é advogado de José Maria Pedro Rosendo Barbosa (acusado de ser o mandante). Carlos Henrique é advogado de Adeildo Ferreira dos Santos. E Emerson Leônidas defende José Maria Domingos Cavalcante.

Cunhado de um dos acusados, José Maria Rosendo, Edmacy Ubirajara chegou a ser preso dois dias depois do crime, mas foi liberado porque as câmeras do comércio mostraram que na hora do crime ele estava circulando pelo centro da cidade. "Foi meio mundo de testemunha a favor de mim. Isso é tudo armação de Mysheva", disse ele.

Deslizes

Para Anderson Flexa, a defesa tem um trabalho muito difícil hoje: demonstrar as dúvidas existentes no processo. "Foram seis depoimentos. Tudo para comprovar uma tese apenas. Então, hoje, a defesa tem o árduo trabalho de mostrar que esses deslizes, essas informações que foram alteradas em outro momento estão conduzindo o processo para um erro. O nosso trabalho é mostrar que esse erro é direcional e intencionado", afirma.

"Edmacy foi reconhecido por duas vezes. Foi provado que ele não tem relação com o processo. Ele não estava naquele momento e foi reconhecido como atirador. Foi feito exame residuográfico, ele passou 60 dias preso. Houve um outro momento, o da Mysheva dizer que não havia o reconhecido em momento algum, que é uma outra mentira", garante. 

Réus

Os acusados respondem pelo crime de homicídio doloso contra a vítima e por tentativa de assassinato da advogada Mysheva e do tio dela, Adautivo Martins. A juíza federal responsável será Amanda Torres de Lucena Diniz Araújo, titular da 4ª Vara. Os procuradores federais responsáveis pela acusação são Alfredo Falcão Jr., Luís Vicente Queiroz, Bruno Costa Magalhães e Ubiratan Cazetta. 

Entenda o caso

O crime ocorreu no dia 14 de outubro de 2013 no interior de Pernambuco. Thiago Farias Soares estava com a noiva, a advogada Mysheva Martins, e do tio dela Adautivo Martins. Eles seguiam pela rodovia PE-300 a caminho de Itaíba, quando foram abordados por homens armados. Os tiros atingiram Thiago, que morreu na hora. O veículo deles parou. O carro dos assassinos contornou a via e, segundo as investigações, retornou para tentar assassinar tio e sobrinha, que escaparam com vida após se jogarem para fora do veículo, na estrada. A arma do crime nunca foi encontrada.

De acordo com o advogado de Mysheva, José Augusto, a motivação do crime foi a compra de 25 hectares de uma fazenda em Águas Belas. O imóvel, que possuía uma extensão total de 1.800 hectares, foi adquirido por Mysheva em um leilão - com isso, José Pedro teria sido obrigado a deixar o local. “Não resta dúvida de que o mandante é José Maria Pedro Rosendo”, afirmou Augusto.

Segundo o advogado que assiste à acusação, José Marisvaldo Vitor da Silva, o “Passarinho”, seguiu o veículo do casal e passou as informações sobre o trajeto dele para os executores. Na audiência de instrução do processo, que ocorreu de 24 a 27 de março de 2015, Mysheva e Adautivo depuseram. Na ocasião, foram ouvidas 34 testemunhas, sendo 16 arroladas pela acusação e 18 pela defesa.

“Estamos confiantes na condenação dos réus. Isso vai acabar com a impunidade em Pernambuco, pois Zé Maria já responde por sequestro, respondeu por um homicídio e diversos crimes”, complementou. Entre as provas registradas nos autos do processo estão a perícia no carro da vítima, reconstrução do crime em 3D pela Polícia Federal e o depoimento de Mysheva, que, segundo José Augusto, não apresenta falhas.

Já para a defesa dos réus, o depoimento de Mysheva é contraditório. “Foram seis depoimentos da Mysheva, que só provam que o que mais existe no processo são dúvidas e inconclusões”, alegou o advogado Anderson Flexa. “A primeira grande mentira no processo indicava Edymacy Ubirajara como estando no veículo e que ele teria atirando no promotor. Provou-se, através de perícias e das testemunhas, que a imputação feita por Mysheva não era verdadeira, assim como várias outras imputações não são”, complementa.

Segundo Flexa, o único fato comprovado é o assassinato do promotor. “Fora isso, nada é conclusivo”, afirmou. Ele declara que foram realizadas três perícias que trouxeram, por sua vez, três resultados diferentes. “Inclusive, há divergência em relação à quantidade de tiros, à ordem dos tiros e ao posicionamento da arma utilizada”, declara.

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