Opinião

Deng Xiaoping e a Revolução Francesa

Reza a lenda que Deng Xiaoping foi questionado sobre a importância da Revolução Francesa para o mundo durante uma coletiva de imprensa logo após o reatamento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e a China.

O velho dirigente comunista, seguidor de Confúcio, olhou com afeto de um pai a um filho que questiona algo tão óbvio e respondeu ao jornalista: muito cedo para avaliar o impacto.

A régua que mede os fatos na história ocidental é bem distinta da que avalia a civilização oriental.

Aqui somos imediatistas. Queremos para ontem o que planejamos para amanhã. Respondemos de afogadilho apenas para não ficar para trás, temendo perder o trem que ruma a uma nova discussão em próxima estação.

Lá, o olhar vai além do horizonte visível. As civilizações orientais não plantam as tamareiras (uma alusão à fábula árabe) para desfrutar imediatamente dos seus frutos. Plantam para que as futuras gerações possam saboreá-los.

Essa semana, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, encontrou-se com o líder chinês, Xi Jinping, em uma reunião preparatória para Cúpula de Líderes da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec).

Uma declaração do presidente chinês foi plantada para colher adiante mais espaço nas discussões entre os países: “O planeta Terra é grande o suficiente para os EUA e a China.” Foi além: “Embora os dois países sejam muito diferentes, eles deveriam ser totalmente capazes de superar as divergências.”

Arrastado a uma resposta construtiva, o presidente estadunidense replicou: “Devemos garantir que a competição nunca se torne um conflito.” 

E, ainda na defensiva, afirmou: “Eu valorizo nossa conversa porque acredito que é fundamental que você e eu nos entendamos claramente, de líder para líder, sem equívocos ou má comunicação.”

Provavelmente essa declaração tenha afetado o humor de assessores de Biden e dos marqueteiros responsáveis pela dura campanha eleitoral que se vislumbra no ano que vem, pois, em seguida, ele afirmou que via Xi Jinping como um ditador.

Em resposta, um porta-voz diplomático da China declarou que: “O governo chinês considera extremamente errônea a postura estadunidense e que este tipo de discurso constituía uma manipulação política irresponsável.”

Profissionais de reconhecida competência, os diplomatas herdeiros de Thomas Jefferson terão mais cuidado ao escrever no futuro as ideias força naquelas fichas pautadas que acompanham o presidente Biden em audiências.

As relações diplomáticas entre países não permitem que a bílis gerada na emoção dos fatos, ou impactada por arcaicos conceitos ideológicos, seja motivo de discursos desequilibrados que prejudiquem um país, com consequente perda de capacidade de influir no âmbito de outras nações.

Há muitos desafios a serem equalizados no mundo moderno e que tornam atores principais, tanto as grandes potências, como as de menor relevo. 

Questões sobre meio-ambiente, gestão e produção de energia, crimes transnacionais, drogas, guerras convencionais, terrorismo, flacidez da Organização das Nações Unidas, diplomacia militar são alguns dos temas postos à mesa.

O Brasil deve pegar o trem das novas discussões, com capacidade de defender seus interesses, comunicando-os com profissionalismo e fugindo do imediatismo de moda.

Os faróis devem apontar para além do horizonte, com foco ajustado em segurança territorial (céu, terra e mar) proporcionada por uma capacidade dissuasória que imponha respeito diante das nações, e diplomacia consistente e longeva.

Contudo, deve observar com cuidado confuciano qual o vagão que quer entrar.

As grandes potências já se abancaram nos vagões mais luxuosos e não abdicam de assumirem o papel de maquinistas e sinaleiros, postos capazes de alterar os desvios dos trilhos e as velocidades das locomotivas da geopolítica.

A declaração de Xi Jinping não é pura retórica. A China já ocupa função de maquinista e sinaleiro. Já vê metade do mundo como seu feudo e buscará mais espaço em contraponto aos norte-americanos que veem todo o mundo como seu feudo.

Se ainda não somos capazes de agir como maquinistas e sinaleiros, ao menos escolhamos vagões adaptados às nossas necessidades e que nos ofereça espaço para decidirmos quando e como nos movermos em busca de nossos objetivos. 

Enquanto isso, que se assegure plena soberania, respaldada por palavras - diga-se diplomacia -, e por ações - diga-se Forças Armadas. A construção da credibilidade de um país é penosa e requer paciência. E isso não é questão de um governo, é questão de Estado.



*General de Divisão da Reserva


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