Denúncia de racismo na Casa dos Frios gera repercussão negativa nas redes

Homem que comprava bolos de rolo foi abordado após suspeita de que estaria armado

Casa dos Frios, no bairro das GraçasCasa dos Frios, no bairro das Graças - Foto: Google Street View/Reprodução

Uma denúncia de racismo envolvendo a Casa dos Frios, tradicional loja de alimentos da Zona Norte do Recife, está gerando grande repercussão nas redes sociais neste sábado (21) e domingo (22). O advogado Gilberto Lima Junior acusa a loja de ter acionado a polícia contra o motorista dele, Mário José Ferreira, que fazia compras na loja, no bairro das Graças, Zona Norte do Recife. A empresa alega que seguiu um procedimento padrão após suspeita de que o homem estaria armado.

A advogada Maria Eduarda Andrade, do escritório Cavalcanti Advocacia, para onde Mário presta serviço, afirmou neste domingo (22) que vai prestar queixa à Polícia na manhã de segunda-feira (23). "Cabe à autoridade policial investigar", afirmou. Ela disse que vai entrar com uma ação nas varas cível e penal. "Não vou revelar qual por uma questão estratégica", explicou.

O advogado postou um relato no Facebook. Ele conta que pediu ao motorista Mário José Ferreira que fosse à loja na sexta-feira (20) à noite comprar bolos de rolo que levaria em uma viagem à Europa. "Eram 20 bolos. Na hora de pagar, deu mais de R$ 600, e ele estava apenas com essa quantia. Deixou no caixa e foi buscar no carro. Quando voltou, começou o pesadelo: fecharam a loja, não o deixaram entrar e ele foi abordado pela PMPE", escreveu Gilberto na rede social. O advogado afirma que o procedimento só teria sido feito porque o motorista é negro.

Gilberto criticou o procedimento adotado. "É lamentável, de causar repulsa e indignação que ainda nos dias de hoje uma instituição tradicional e renomada como a Casa dos Frios adote procedimentos desta natureza, numa clara e inequívoca demonstração de preconceito por causa de cor da pele. Repudiamos totalmente a atitude desta empresa", afirmou.

Já a Casa dos Frios nega que tenha se tratado de episódio de racismo. A diretora de Planejamento e Operações da empresa, Mirella Dias, afirmou ao Portal FolhaPE que foi um procedimento padrão, já que uma funcionária acreditou ter visto uma arma na cintura de Mário Ferreira. "O cliente entrou na loja, buscou algumas coisas, rodou pela loja. Em determinado momento, quando ele se abaixou, uma das funcionárias acreditou ter visto uma arma no cós da calça dele. Ela informou ao gerente", contou.

Segundo Mirella, houve desconfiança da atitude do homem. "O rapaz saiu da loja, passou um tempão lá fora, depois voltou, levou os produtos ao caixa, deixou lá e falou que tinha que buscar mais dinheiro. Nesse ponto, já tinha sido iniciado o protocolo de segurança, que é chamar a Patrulha do Bairro. Mas a patrulha estava de folga e fomos orientados a ligar para o 190. Quando o cliente saiu para buscar o dinheiro, fizemos o segundo passo do protocolo, que foi fechar a loja e aguardar a polícia chegar", recordou.

A diretora contou que, quando a polícia chegou, com três viaturas, fez as averiguações necessárias. "Nossa funcionária confirmou que havia visto a arma com o rapaz, mas nada foi encontrado. O rapaz, então, foi liberado", afirmou.

Mirella Dias afirmou que a casa, em nenhum momento, se dirigiu a Mário Ferreira como "negro". "Temos repúdio a racismo. Temos diversos funcionários negros, inclusive operando o nosso caixa. Se tivéssemos preconceito, não deixaríamos isso acontecer", defendeu. "Entendo que ele sofreu constrangimento, mas é uma averiguação policial. Todo mundo está sujeito a isso. Estávamos zelando pela proteção das nossas dependências, dos nossos clientes e funcionários", completou.

Repercussão
O caso gerou grande repercussão nas redes sociais. Muitas pessoas criticaram a atitude da Casa dos Frios, que consideraram racista. A polêmica aumentou quando o perfil da empresa publicou, no sábado (21), a imagem de uma ex-funcionária, já falecida, negra. "A homenagem de hoje vai para a nossa querida Dona Ana que dedicou uma vida inteira à manufatura do delicioso bolo de rolo e que esteve sempre ao nosso lado construindo a história da Casa dos Frios. Saudade!", diz o texto.

Segundo Mirella Dias, a postagem já estava programada e foi uma "coincidência" ter ocorrido em meio à acusação de racismo do dia anterior. "Dona Ana foi uma funcionária que ajudou a criar a cultura do bolo de rolo no Recife. Ela trabalhou até os 90 anos e ficou muito tempo conosco. Quisemos fazer uma homenagem. Ela é uma pessoa fundamental para o desenvolvimento do nosso bolo", disse, lamentando a associação negativa feita com a peça. "Uma coisa que era pra ser bonita está sendo associada com algo ruim. Mas ela merece a homenagem", sustentou.

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