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Desastres naturais forçaram metade dos deslocamentos internos em 2023, diz relatório

Das 46,9 milhões de pessoas que se movimentaram de maneira forçada em seus países, 26,4 milhões o fizeram por causa do clima extremo ou terremotos

Destruição provocada pelas enchentes na cidade de Lajeado, no Rio Grande do Sul Destruição provocada pelas enchentes na cidade de Lajeado, no Rio Grande do Sul  - Foto: Nelson Almeida/AFP

Um relatório divulgado nesta terça-feira mostrou que, em 2023, houve 46,9 milhões de deslocamentos forçados de pessoas em 151 países e territórios, sendo que mais da metade — 26,4 milhões — provocados por desastres naturais, o terceiro número mais alto desde o início da década. Ao todo, 75,9 milhões de pessoas vivem como deslocadas internas em seus países, um aumento de 50% nos últimos cinco anos.

De acordo com os números do Centro de Monitoramento de Deslocamentos Internos (IDMC, na sigla em inglês), quase um terço de todas as movimentações ligadas a catástrofes naturais ocorreu na China (4,7 milhões) e Turquia (4 milhões) — além de eventos extremos, como tempestades, enchentes, secas e ondas de calor extremo, o número leva em consideração o impacto de terremotos.

Segundo o relatório, o tremor na fronteira entre Turquia e Síria, em fevereiro de 2023 e que matou cerca de 50 mil pessoas, provocou 4,7 milhões de deslocamentos em toda a região, o maior número de movimentações ligadas a um terremoto em 2008. No território sírio, que ainda sente os efeitos da brutal guerra civil iniciada em 2011, 700 mil pessoas tiveram que deixar suas casas por causa de desastres, incluindo o abalo de fevereiro.

No Paquistão, um país onde os terremotos também são rotina, o ano passado foi marcado por grandes enchentes, como as de agosto, que afetaram mais de meio milhão de pessoas e provocaram surtos de doenças como malária, com 80 mil casos em questão de semanas. Ao todo, houve 732 mil deslocamentos internos em 2023.

Em números totais, o Leste da Ásia e as nações do Pacífico registraram o maior número de deslocamentos internos causados por desastres naturais, 9 milhões, um número que, embora elevado, é o menor desde 2017. As Filipinas tiveram a maior quantidade de deslocamentos, 2,54 milhões, sendo que boa parte ligados a chuvas extremas e a alterações climáticas ligadas ao fim do fenômeno La Niña e ao início do El Niño.

Mesmo na África, onde os deslocamentos ainda são majoritariamente causados por conflitos, o clima obrigou milhões de pessoas a buscarem áreas mais seguras. O ciclone Freddy, que atingiu o Leste do continente em fevereiro e março de 2023, provocou o deslocamento de 1,4 milhão de pessoas em seis países e territórios. Na Somália, uma série de secas e inundações, também ligadas ao El Niño, está por trás de dois milhões de deslocamentos no ano passado, além das 673 mil movimentações provocadas por conflitos.

Nas Américas, o Brasil é o país com o maior número de deslocamentos causados por desastres naturais, 745 mil no ano passado, um terço do total da América Latina e o maior número desde 2008. O relatório cita os efeitos da prolongada seca na Amazônia, que fez lagos e rios secarem, afetou a segurança alimentar de milhões de pessoas e causou impactos ambientais que ainda estão sendo calculados.

No Sul, as fortes chuvas causaram inundações de grande porte, inclusive em áreas que foram novamente afetadas no Rio Grande do Sul, como o vale do rio Jacuí. Segundo o IDMC, condições diretamente afetadas pelo El Niño.

O documento aponta para os impactos dos incêndios florestais no Canadá, uma crise que levou ao deslocamento de 192 mil pessoas. O fogo causou estragos também nos EUA, especialmente no Havaí, onde cerca de quatro mil pessoas ainda vivem em abrigos — o país também enfrentou os impactos de chuvas extremas na Califórnia, furacões na Flórida e secas, mas o número total de deslocados, 200 mil, foi menor do que o de outros anos.

Um dos pontos centrais do relatório é o apelo aos governantes de todo o mundo, focado em uma palavra: prevenção. O estudo afirma que embora nem todos os eventos extremos estejam diretamente ligados às mudanças climáticas, eles estão ficando mais frequentes, duradouros e intensos do que no passado. Países com poucos recursos estão mais sujeitos a tragédias de grande porte, e a deslocamentos mais numerosos — foi o caso do Chifre da África, onde quase 3 milhões de pessoas saíram de casa após uma longa sequência de enchentes, que destruiu vilas e cidades e agravou o quadro de insegurança alimentar.

“Nenhum país está imune aos deslocamentos por desastres, mas podemos ver uma diferença em como os deslocamentos afetam as pessoas em países que se preparam para seus impactos e naqueles que não se preparam”, afirmou Alexandra Bilak, diretora do IDMC, citada no relatório.

Refugiados da violência

Além do clima, o estudo confirmou 20,5 milhões de deslocamentos provocados por conflitos e violência: embora o número seja quase 30% menor do que em 2022, ano em que começou a guerra na Ucrânia, ele é 70¨% mais alto do que a média da última década. Seguindo uma trágica tendência histórica, a África concentrou a maior parte das movimentações, 13,5 milhões, sendo que quase metade no Sudão (6 milhões), país que enfrenta uma guerra entre facções rivais desde abril do ano passado. Deslocamentos significativos ocorreram na República Democrática do Congo (3,7 milhões) e Burkina Faso (707 mil), duas nações envolvidas em guerras civis.

O relatório chama atenção ara os territórios palestinos, com 3,4 milhões de deslocamentos, o maior número desde 2008, relacionados ao início da guerra entre Israel e o grupo terrorista Hamas, em outubro do ano passado. Boa parte da Faixa de Gaza está destruída, e mais de um milhão de pessoas estão refugiadas em áreas cada vez mais restritas em Rafah, no sul do enclave, onde os militares israelenses parecem perto de uma ofensiva de grande porte.

— Quando alguém é deslocado repetidamente, sua resiliência financeira sofre, assim como sua subsistência, e isso leva ao empobrecimento que terá repercussões mais profundas e de longo prazo — disse o coordenador do relatório, Vicente Anzellini, ao El País.

Houve deslocamentos também em Israel, 203 mil, especialmente em áreas próximas à fronteira com Gaza, e na Cisjordânia, 8,1 mil, ligados ao retorno de pessoas que viviam em Gaza e à violência de colonos judeus.

No Haiti, que enfrenta um vácuo de poder desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021, 245 mil pessoas deixaram suas casas diante do aumento da violência das gangues que, hoje, controlam boa parte do país. Uma situação que se agravou desde o início do ano, e que não tem qualquer sinal de solução a curto prazo à vista.

“Milhões de famílias tiveram suas vidas reviradas pelo conflito e violência. Jamais vimos tantas pessoas obrigadas a sair de suas casas e comunidades. É um veredito sobre os fracassos para evitar conflitos e para atingir a paz”, disse Jan Egeland, secretário-geral do Conselho de Refugiados Norueguês.

Ao todo, o IDMC afirma que 75,9 milhões de pessoas vivem como deslocadas internas em seus países — nos últimos cinco anos, o aumento foi de 22,6 milhões de pessoas. Do total, 68,3 milhões se encontram nessa situação por causa da violência e de conflitos internos, e 7,7 milhões por desastres naturais, especialmente terremotos e enchentes.

Quase metade vivem na África Subsaariana, com destaque para o Sudão (9,1 milhões) e a República Democrática do Congo (6,7 milhões). No Oriente Médio, Síria (7,2 milhões) e Iêmen (4,5 milhões) registram o maior número de deslocados, enquanto na América Latina a Colômbia, cenário de décadas de violência interna, tem 5,1 milhões.

— Nos últimos dois anos, constatamos um número alarmante de pessoas obrigadas a fugir das suas casas devido a conflitos e à violência, inclusive em regiões onde a tendência parecia melhorar — declarou Alexandra Bilak, diretora do IDMC, afirmando que "os conflitos e a destruição provocados impedem que milhões de pessoas reconstruam suas vidas, muitas vezes durante anos".

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