Desgastado, Moro dá sinais de cansaço no cargo e de contrariedade a Bolsonaro na pandemia

O ministro chegou a afirmar que se manteria em silêncio caso questionado

Sergio MoroSergio Moro - Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Desgastado por Jair Bolsonaro (sem partido), o ministro Sergio Moro (Justiça) dá sinais de cansaço e tem se negado a fazer uma defesa enfática do presidente durante a crise do novo coronavírus.

Durante a pandemia, Moro se mostrou por mais de uma vez irritado por ser pressionado por interlocutores do Planalto e pelo próprio presidente em reunião no Palácio da Alvorada a defender o fim do isolamento social.

O ministro chegou a afirmar que se manteria em silêncio caso questionado, mas que não iria contrariar suas convicções e defender algo que não acreditava.

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Conforme a Folha de S.Paulo revelou nesta quinta (23), o ministrou pediu demissão a Bolsonaro após ser informado de que o presidente trocaria o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. Moro avisou Bolsonaro que, se Valeixo sair, ele deixará o governo.

Aliados de Moro avaliam que ele foi um dos alvos da recente declaração de Bolsonaro de que usaria a caneta contra "estrelas" do governo.

"[De] algumas pessoas do meu governo, algo subiu à cabeça deles. Estão se achando demais. Eram pessoas normais, mas, de repente, viraram estrelas, falam pelos cotovelos, tem provocações. A hora D não chegou ainda não. Vai chegar a hora deles, porque a minha caneta funciona", afirmou Bolsonaro, no início do mês, a um grupo de religiosos que se aglomerou diante do Palácio da Alvorada.

Assessores próximos avaliaram que o desgaste entre eles acabou aumentando após Moro defender indiretamente as medidas sanitárias recomendadas pelo Ministério da Saúde.

Na segunda (20), o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) fez um live com a colega de Câmara Carolina de Toni (PSL-SC) e cobrou uma atitude de Moro e do ministro da Economia, Paulo Guedes.

"Eu gostaria de pedir é que dentro do governo mais pessoas publicamente, explicitamente, falassem a favor do presidente", disse.

O filho do presidente afirmou que "verdadeiros guerreiros" não falam só na vitória, mas também quando "a gente está sob fogo".

"Imaginem vocês, Jair Bolsonaro saindo do poder. Como será a vida de ministros como Sergio Moro e Paulo Guedes? Vocês acham que eles teriam a vida tranquila? Eu acho que dificilmente", afirmou Eduardo, completando: "Essa galera toda já recebeu um 'X' nas costas e vão ser odiados durante muito tempo (sic)".

Desde setembro do ano passado, o ministro e Bolsonaro divergem sobre a condução do ministério. O presidente da República tentou por três vezes nos últimos sete meses trocar o comando da PF, que, hoje, está nas mãos de Valeixo, homem de confiança de Moro.

A última, nesta quinta-feira (23), quando Bolsonaro comunicou ao ministro a decisão de trocar a diretoria-geral da instituição e Moro reagiu afirmando que deixaria o cargo se isso ocorresse.

A tensão ronda o Ministério da Justiça desde o final de semana quando o Planalto tentou convencer Moro a reabrir as fronteiras do Uruguai sem o aval técnico da equipe da Saúde. O ministro não cedeu.

O presidente tentou ainda que o ministro defendesse seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), no caso da "rachadinha" envolvendo o ex-assessor Fabrício Queiroz. O ministro também se negou.

Nas últimas semanas, o ministro tem dado sinais claros a equipe que o seu tempo no governo poderia estar próximo do fim. Moro passou o último final de semana em Curitiba com a família isolado e só atendeu a poucos telefonemas.

No domingo, pessoas próximas perguntaram ao ministro o que ele tinha achado da ida do presidente à manifestação e Moro não quis comentar.

Ao chegar a Brasília, o ministro se mostrou mais quieto do que o de costume. Dois assessores próximos entenderam os sinais como um momento de "reflexão". Moro chegou a dizer a aliado próximo que estava avaliando a hora de "cruzar a linha". A fala foi interpretada como o momento de sair do Executivo.

O ministro tem sido alvo constante de críticas da ala ideológica do governo que não vê nele o engajamento necessário para defender Bolsonaro.

Pessoas próximas chegaram a identificar uma onda de ataques virtuais que teve como origem o chamado "gabinete do ódio", controlado pelo filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

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