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Diálogo em casa e na escola ajuda na preservação da saúde mental dos jovens

Suicídio é a segunda principal causa de morte entre o público de 15 a 29 anos no mundo, de acordo com a OMS. Terceira matéria de série sobre o Setembro Amarelo destaca ações preventivas

Depois de perder o filho, Sibely Brito, 42, quer ajudar outras pessoasDepois de perder o filho, Sibely Brito, 42, quer ajudar outras pessoas - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Retratados em romances, poemas e novelas ao longo da História, a juventude e, com ela, os dramas de quem passa pela delicada fase da aceitação social e da descoberta do amor e da sexualidade - muitas vezes em relações impossíveis - foram, por muito tempo, associados a suicídio e transtornos emocionais. Quase 200 anos depois da tragédia shakespeariana de Romeu e Julieta, o escritor alemão Goethe punha em choque a Europa do século 18 com o livro ‘Os sofrimentos do jovem Werther’. A obra, cujo lançamento completa 245 anos no dia 29 de setembro, traz a história de um rapaz que, impossibilitado de viver a paixão por uma moça prometida a outro homem, decide se matar.


O tema não ficou restrito ao passado. Em 2017, a Netflix lançou a série ‘13 Reasons Why’ (em português, ‘Os 13 Porquês’), uma adaptação de um romance de mesmo título sobre a estudante Hannah Baker, interpretada pela atriz Katherine Langford, que, antes de se suicidar, grava sete fitas cassete explicando as razões para praticar o ato. Com cena que exibe a morte da jovem - removida pelo canal de streaming em julho -, o seriado se tornou, assim como o romance de Goethe, o centro de debates sobre a forma como o suicídio deve ser abordado nas artes e nos veículos de comunicação, que exercem influência na visão de toda a sociedade sobre um assunto.

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À parte as discussões sobre a romantização do suicídio juvenil, que, para especialistas e profissionais de saúde, pode agravar o problema ao fomentar uma idealização do suicídio, os números alertam para a necessidade de se dedicar atenção a esse público, alvo da campanha do Setembro Amarelo. Segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o registro de casos de suicídio nessa faixa etária tem crescido no Brasil.

Em 2017, o Ministério da Saúde contabilizou 21.790 mortes, o que corresponde a 27% das ocorrências registradas naquele ano e 10% a mais em comparação a 2011. Além disso, no ano passado, 45% dos quase 340 mil casos de violência autoprovocada, que inclui automutilações e tentativas de suicídio, envolveram esse público. Em Pernambuco, de 2011 a 2018, foram notificados 5.187 casos de autoagressão nessa faixa etária, sendo, desse total, 1.693 só no ano passado, o que torna o Estado a unidade federativa com o maior número de notificações no Nordeste e a 7ª no País.

Em geral, as pessoas que apresentam esse tipo de comportamento vivem em uma realidade de problemas familiares e não tiveram o suporte e maturidade para lidar com os próprios traumas. Para a neuropsicóloga Fabiana Gouveia, é preciso que pais e educadores mantenham um canal de diálogo permanente com os jovens, que deve ser estimulado desde a infância. “Não é do dia para a noite que o jovem se isola dentro do quarto, por exemplo. É uma falta de acompanhamento, de conversa para que ele se sinta ouvido ao mesmo tempo que quer ter a sua privacidade respeitada”, acredita.

De acordo com ela, a automutilação é uma forma de diminuir suas angústias por meio da dor física. “O jovem, angustiado, enxergando aquele problema de uma forma pior do que realmente é, vê na automutilação, por exemplo, uma forma de diminuir a dor interna que ele sente”, afirma. Por isso, é fundamental, nesse processo, o acompanhamento de profissionais da psicologia e da psiquiatria. Psicóloga clínica, a especialista também tem visto, na prática, o aumento na procura por tratamento psicoterapêutico para crianças e adolescentes, o que pode ser visto como algo positivo, já que diminui o estigma acerca de procurar terapia ou realizar tratamento medicamentoso.

Escola presente
Além do apoio familiar, um ambiente escolar acolhedor é essencial para a saúde mental e a qualidade de vida de quem passa pela adolescência. Em Paulista, no Grande Recife, desde outubro do ano passado, um projeto mediado por três psicólogos voluntários acompanha a rotina dos estudantes da Escola Municipal Doutora Gelda Amorim, localizada no bairro de Paratibe. Em um contexto de violência e vulnerabilidade social, a instituição enfrentava uma realidade preocupante em relação à saúde mental, com casos de depressão, ideação suicida, autolesão e dificuldades de comportamento e aprendizagem.

Um dos profissionais que participam da ação, o psicólogo Gustavo Neres afirma que, apesar da particularidade de caso, alguns fatores podem funcionar como gatilhos para transtornos em crianças e jovens. “Pelo fato de essa criança ser pouco ouvida sobre suas angústias, ela passa a se isolar ao pensar que não tem importância no mundo. E levar esse sentimento sem ter com quem partilhar contribui para que a criança fique mais suscetível a várias situações descritas como gatilhos para depressão e automutilação, por exemplo”, avalia.

Para mudar isso, a ação passou a oferecer aos alunos atendimento psicológico individual e atividades coletivas que abordam a saúde mental, a importância da boa convivência e a promoção da empatia. Desde o início do projeto, foram atendidas 87 crianças e adolescentes. Neste mês, durante o Setembro Amarelo, uma campanha reúne 500 alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental em dinâmicas com técnicas para expressar emoções por meio de memes e emojis.

Para Gustavo Neres, os números são significativos, mas o sentimento de saber que salvou ao menos uma vida é o que importa. “A partir do momento em que a gente tira um jovem da linha reta do suicídio, o trabalho já passa a ser recompensador”, completa. Estudante do 6º ano, Ana Júlia, 12, considera animadoras as ações na escola. “Eu acho muito bom porque nós podemos desabafar, você não fica com aquele sentimento só para você, aqui podemos falar”, afirma.

Além do apoio psicológico aos alunos, os pais e responsáveis também são orientados pelos profissionais. De acordo com a psicóloga Stephanie Maximiano, voluntária do projeto, é essencial que os responsáveis também adotem alguns cuidados para promover a valorização da vida, sendo o principal observar se a criança ou adolescente apresentou alguma mudança no comportamento. “Cada um expressa seus sintomas de uma maneira diferente, mas comumente a gente percebe um isolamento, a tristeza e um choro excessivo”, esclarece.

Da dor à solidariedade
Morando a poucos metros da escola, em Paratibe, a cabeleireira Sibely Brito, 42, convive com a dor irreparável da perda do filho. Luan Felipe, 18, sempre se mostrou um jovem alegre e ativo: estudava teatro, inglês, cultivava amizades e se preparava para fazer um intercâmbio no Canadá depois do ensino médio. Em outubro de 2015, quando o jovem decidiu tirar a própria vida, algo que parecia impensável e distante, a família foi tomada pela sensação de desamparo. “Quando se perde um filho, não importa a forma. A mãe se sente amputada”, descreve.

Antes de morrer, Luan enfrentava complicações na saúde provocadas por uma lesão ao se exercitar. Segundo a mãe, o problema pode ter contribuído, junto a outros fatores, para uma piora da saúde mental do jovem, que temia ter que deixar de fazer o que amava, como participar de peças e viajar. “Luan se deparou com uma realidade que não era dele, e a dor não parava”, conta Sibely.

Nos primeiros meses após a tragédia, a cabeleireira não conseguia falar sobre o assunto e chegou a pensar em se suicidar na esperança de reencontrar com o filho. “Eu dormia no sofá, sempre esperando esse filho que não chegava, foram dias e meses esperando”, revela. Mãe de outras duas filhas mais novas, a mulher decidiu que precisaria continuar lutando. “Eu tive que escolher - ou eu deixava minhas duas filhas órfãs de mãe ou eu lutaria”, lembra.

A partir disso, para evitar que outras pessoas passem pela mesma situação, ela desenvolve o projeto Mundo do Lua, que busca promover ações de conscientização e acolhimento, como palestras e grupos de maracatu, por exemplo. Atualmente sem um emprego formal, ela mantém perto de casa um bazar onde pretende arrecadar recursos para as ações do projeto. “O jovem tem que ser cuidado diariamente”, ressalta Sibely.

Ambiente virtual e políticas públicas
O ambiente virtual também requer cuidados. Exemplos disso são jogos como Baleia Azul ou Boneca Momo que, disseminados pela internet, ganham espaço nos grupos de WhatsApp e desafiam os menores a se machucarem. E as redes sociais, ao mesmo tempo que podem fomentar o debate sobre esse tema, também acabam contribuindo para o isolamento dos jovens. “As famílias não conversam mais, cada um vive no seu mundo virtual e, com isso, não há uma interação de verdade. Ninguém se sente ouvido”, afirma a neuropsicóloga Fabiana Gouveia.

Do ponto de vista criminal, os casos de jogos eletrônicos que incentivam a automutilação e o suicídio com ameaças e o discurso do “desafio”, são investigados pela Polícia Civil de cada estado. Em abril deste ano, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos lançou a campanha “Acolha a Vida”, que tem o objetivo de prevenir suicídios e automutilação especialmente entre crianças e adolescentes.

Além disso, o presidente Jair Bolsonaro sancionou em maio a lei que cria a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. O regulamento prevê a criação de um sistema nacional envolvendo estados e municípios para prevenir o suicídio e a autolesão a partir de um serviço de atendimento gratuito ao público por telefone. O texto também torna obrigatória a notificação dos casos nas escolas, sempre em caráter sigiloso.

Sinais de desequilíbrio emocional que podem ser observados no dia a dia:

1. Isolamento
2. Desânimo para sair com a família ou amigos
3. Silenciamento, não compartilhar as emoções
4. Nos casos de automutilação, uso de peças que cubram mais o corpo mesmo em dias de calor
5. Mudança repentina de comportamento

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