Coronavírus

Diretor da OMS, premiê da Nova Zelândia e Fauci estão entre personalidades do ano da revista Nature

Tedros Adhanom, Jacinda Ardern e Anthony Fauci deram contribuições fundamentais para enfrentamento da pandemia de Covid-19, segundo a revista

Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom GhebreyesusDiretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus - Foto: Fabrice Coffrini / AFP

Entre as dez personalidades do ano de 2020 para prestigiosa revista Nature estão alguns nomes que se destacaram na luta contra a pandemia de Covid-19: Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, e Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA.

Ex-ministro da saúde e das relações exteriores em sua terra natal, a Etiópia, Tedros Adhanom Ghebreyesus, 55, está no comando da OMS desde 2017. Só se tornou conhecido, porém, em 2020, ao se tornar o porta-voz das novidades relacionadas ao novo coronavírus, como a declaração do status de pandemia, ou recomendando que os países freassem o contágio com restrição de viagens, testagem ampla e isolamento de casos suspeitos.

Mas o caminho não foi fácil. Em julho, os EUA, país que mais contribui financeiramente para as operações da OMS, em decisão de Donald Trump, avisaram a agência que deixariam de fazer parte do órgão em 2021. O motivo seria um conluio entre OMS e China para acobertar eventuais responsabilidades do país asiático sobre a origem e disseminação do vírus, o que não se comprovou. O presidente eleito Joe Biden prometeu cancelar o processo de saída iniciado por Trump.

Tedros Adhanom Ghebreyesus disse à Nature que a meta agora é garantir acesso de todos os países às vacinas. Em meio ao turbilhão político, ele afirma que seu papel será se manter fora de polêmicas e se esforçar para alcançar o novo objetivo.

Também na lista, a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, 40, está entre os líderes globais com melhor desempenho na pandemia de Covid-19. O país, de fato, apresenta bons números: são apenas 2.151 casos e 25 mortes até esta quarta (30), com pico de casos em abril, oito meses atrás.

Trata-se de um país pequeno, com menos de 5 milhões de habitantes, mas mesmo os números relativos são invejáveis. No cenário brasileiro o número de casos é quase 80 vezes pior; o de mortes, mais de 170 vezes pior.

A estratégia de Ardern se valeu da adoção precoce de medidas duras, além de uma comunicação transparente e clara para a população. Sem medicamentos eficazes para o tratamento da Covid-19 nem vacinas disponíveis, o país adotou o isolamento de viajantes que chegavam, intenso rastreamento de contatos e lockdown.

Apesar do desemprego ter crescido de 4% para 5,3% e do grande comprometimento de recursos no combate à pandemia, de 20% do PIB, a maioria (80%) dos neozelandeses aprova as medidas de Ardern.

Um dos grandes nomes do ano, o imunologista Anthony Fauci, 79, que chefia o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA há décadas, teve a oportunidade de aconselhar seis presidentes em assuntos como HIV, ebola e zika, mas, quando chegou a vez de Trump e da Covid-19, os desafios se multiplicaram. Não só seus conselhos pareciam ser escutados como sofreu críticas públicas de Trump.

Fauci chegou a ser criticado por cientistas por não retrucar ou desmentir as falas sem embasamento de Trump, mas com o tempo se impôs mais e colocou seu prestígio a favor de maneiras cientificamente embasadas de lidar com a pandemia, como o distanciamento social e o uso de máscaras. No fim, sobreviveu no cargo –e ganhou até uma imitação feita pelo ator Brad Pitt no programa Saturday Night Live, sinal de sua popularidade.

Mesmo na pandemia, Fauci não deixou de atender pessoalmente os pacientes. São 18 horas diárias na labuta, sete dias por semana, relatou o médico à Nature. "Atender pacientes dá uma percepção diferente do que a doença realmente é", conta. Sem planos de se aposentar, Fauci acumulará o cargo de conselheiro médico chefe da presidência no governo Biden.

Outros quatro escolhidos da Nature também deram suas contribuições para enfrentar a pandemia. Um deles é o virologista uruguaio Gonzalo Moratorio, 38, do Instituto Pasteur e da Universidade da República, que liderou a criação de um teste para detecção do patógeno.

A alemã Kathrin Jansen, 62, é líder de vacinas da Pfizer nos EUA. Ela conseguiu realizar os estudos para o lançamento de uma vacina em 210 dias, entre abril e novembro. Antes da aventura, Jansen já havia conduzido os esforços que culminaram no lançamento de uma vacina contra o HPV, capaz de prevenir câncer de colo de útero.

Nenhuma vacina contra a Covid-19 seria possível se a sequência genética do patógeno não fosse conhecida. E é aí que entra o chinês Zhang Yongzhen, da Universidade de Zhejiang, que revelou em 11 de janeiro que o agente por trás da doença parecida com pneumonia era na verdade um coronavírus, parente do coronavírus responsável pela Sars (síndrome respiratória aguda grave), que assustou o mundo em 2003.

Por estar em um país onde o fluxo de informações tende a ser controlado, muitos cientistas consideraram corajosa a atitude de Zhang de revelar o código genético do novo patógeno.

Sete dias depois, em 18 de janeiro, Li Lanjuan, 73, e outros experts foram para Wuhan para investigar o surto. Poucos dias depois, após a avaliação da epidemiologista, uma cidade de 11 milhões de pessoas foi posta em lockdown, uma ação sem precedentes. A decisão mostrou-se acertada, e Li se tornou um símbolo da resistência chinesa à pandemia.

Mas nem só de Covid-19 vive a lista da Nature. Os outros três lugares da lista são ocupados pela alemã Verena Mohaupt, estudiosa das mudanças climáticas no ártico, por Adi Utarini, cientista indonésia que se manteve firme na luta contra o Aedes aegypti, transmissor da dengue, usando como arma uma bactéria, a Wolbachia, e por Chanda Prescod-Weinstein, cosmologista americana que, além de investigar a natureza da matéria escura, luta contra o racismo na ciência e na sociedade.

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