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Do resfriado à Síndrome Respiratória Grave: Como a Covid-19 se torna uma doença perigosa? Entenda

Processo inflamatório provocado pela infecção pode trazer sequelas nos sistemas cardiovascular, respiratório e renal. Também pode haver impactos neurológicos.

Coronavírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19Coronavírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19 - Foto: Divulgação

Foi no feriado de 1º de maio, depois de enfrentar 75 dias de internação, que o servidor público federal Sergio Vieira pôde voltar para casa.

Às vésperas do aniversário de 45 anos, completados na última sexta-feira (14), o analista judiciário conversou, por telefone, com a Folha Mais de Pernambuco durante uma das sessões de fisioterapia que continua fazendo até recuperar o fôlego de antes e conseguir andar de novo. Uma realidade comum entre os milhares de homens e mulheres que sobrevivem à fase mais crítica da Covid-19.

Duas semanas depois da alta, Sergio já é capaz de ficar em pé e dar os primeiros passos com um andador. “Clinicamente, estou bem”, diz o servidor, que segue tratamento em esquema de ‘home care’ de baixa complexidade, recebendo em casa uma equipe apenas para tomar injeções que o previnem de ter trombose.

A voz e o fôlego para falar normalizaram desde que, pouco antes de deixar o hospital, ele se submeteu a uma cirurgia para corrigir o pneumotórax, condição em que se formam bolhas de ar entre as pleuras dos pulmões e que prejudica a saturação de oxigênio no sangue.

A recuperação de Sergio, lenta, é voltada para a superação de complicações causadas por uma infecção que há dois meses atingiu o pico mais alto de contaminações e, desde então, segue em patamares muito elevados de contágio.

Segundo o Ministério da Saúde, na última quinta-feira (13), o País contabilizava mais de 1 milhão de casos ativos de Covid-19. Em Pernambuco, nesse mesmo dia, 91% dos leitos de UTIs e enfermarias das unidades públicas de saúde estavam ocupados. Em paralelo, os números acumulados de mortes passam de 430 mil no Brasil e de 14.700 no Estado.

Sergio sentiu os primeiros sintomas da doença no início de fevereiro, quando foi a João Pessoa, passar alguns dias na casa de um namorado, que tinha tido contato com uma pessoa infectada pelo novo coronavírus.

Depois dos primeiros cinco dias assintomático, ele começou a ter febre e procurou atendimento na capital paraibana, mas, mesmo tomando antibiótico e corticoide, a temperatura não baixava. Assim, no dia 15, veio de volta ao Recife, indo direto ao hospital onde ficou internado.

“Fui para o quarto, fiquei uma semana tomando oxigênio, mas não foi suficiente. Eu não conseguia sequer ir ao banheiro de cansaço. Fiz o catéter nasal, e não foi suficiente. Aí entrei no processo de intubação”, conta. “Quando cheguei à UTI, eu me lembro apenas da médica me recebendo, não tenho lembrança dos procedimentos”.

Depois de 75 dias de internação, Sergio Vieira faz fisioterapia em casaDepois de 75 dias de internação, Sergio Vieira, 45, faz fisioterapia em casa (Foto: Cortesia)

Sergio ficou onze dias intubado e mais nove na traqueostomia, procedimento que consiste na ligação de um tubo com oxigênio, chamado de cânula, aos pulmões, por meio de uma abertura na traqueia, canal do sistema respiratório localizado no pescoço.

Mesmo depois de baixar a sedação, ele demorou alguns dias para acordar, com a ajuda da psicóloga com quem faz terapia há 15 anos e que pôde entrar na UTI por já estar vacinada. Nas semanas seguintes, na semi-intensiva e, depois, no quarto, teve que reaprender a falar com uma fonoaudióloga e começar a fisioterapia.

Agora, longe do hospital, Sergio diz que toda essa experiência lhe fez fortalecer a fé.

“Eu sempre tive Deus muito presente em minha vida e sempre fui grato por tudo o que conquistei, agora mais que nunca. Hoje, emocionalmente, estou mais estruturado, porque continuo na terapia e com a família por perto”, afirma ele ao lado da irmã, que o acompanha na recuperação em casa.

Ataque viral
Até chegar à Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), fase em que o paciente fica em observação na UTI, a doença desencadeada pelo novo coronavírus, o Sars-Cov-2, se agrava atravessando diferentes estágios [Veja no infográfico ao fim do texto].

Nesse processo, ela começa aparentemente inofensiva, em alguns casos, até mesmo sem sintomas, mas, em geral, a partir do quinto dia após a contaminação, podem aparecer as primeiras complicações. E, ao entrar pelo sistema respiratório, a infecção provoca uma reação inflamatória capaz de atingir as partes vitais do corpo, incluindo os sistemas cardiovascular, renal e nervoso.

Vice-presidente da Sociedade de Terapia Intensiva de Pernambuco (Sotipe), Arthur Faria define a inflamação como uma “resposta exacerbada” do organismo à invasão do vírus.

“Ele vai responder aumentando as células de defesa, mas essas células de defesa acabam agredindo tanto o vírus como o próprio organismo, e essa reação desenfreada é que faz a pior evolução nos pacientes”, explica.

Arthur Faria, vice-presidente da Sociedade de Terapia Intensiva de Pernambuco (Sotipe)Médico Arthur Faria (Foto: Cortesia)

A intensidade que as inflamações podem adquirir varia em cada indivíduo e é determinante para o grau de evolução da infecção e o surgimento de complicações. Embora se saiba que os idosos e os pacientes com comorbidades são os que mais apresentam essa “resposta exacerbada”, não há como saber, de forma antecipada, quem vai, ou não, desenvolver a SRAG.

Acredita-se que isso possa ser causado a partir de alguma característica genética.

“O que a gente vê muito é um perfil familiar. Se há, na família, alguém que apresenta uma reação inflamatória mais grave, a tendência é que os outros também façam. A gente já teve irmãos na UTI, em tempos diferentes, e todos evoluindo de forma muito grave, assim como há famílias que só tiveram o quadro leve”, diz o médico Arthur Faria.

Na atual onda de índices altos na pandemia, tem sido observada uma presença maior de pacientes mais jovens nas unidades de terapia intensiva, em especial na faixa de 30 a 50 anos, caso do ator Paulo Gustavo, 42, morto no início deste mês, e do jornalista Rodrigo Rodrigues, 45, que morreu em julho do ano passado.

Isso se deve, em parte, à campanha de vacinação, que priorizou o público a partir dos 60 e os profissionais de saúde, mas também ao fato de que aquela população é a que mais se expõe ao vírus fora de casa.

Outro fator importante é a presença de comorbidades, doenças preexistentes que podem contribuir para o aparecimento ou agravamento das complicações porque tornam o organismo menos preparado para combater a ação do vírus. No entanto, assim como a idade, isso não é uma regra infalível para todas as situações.

Antes de contrair a Covid-19, Sergio tinha hipertensão, mas ela estava controlada e não influenciou o avanço da doença. Foi semelhante o caso do ator Paulo Gustavo, que no passado já sofreu com crises de asma, mas a condição, sob controle nos últimos anos, não foi um fator de risco para ele.

A constatação de que a infecção compromete a saúde de muitas pessoas sem histórico de comorbidades ainda é objeto de dúvidas. A causa pode ter relação com o surgimento das variantes do Sars-Cov-2, além da capacidade de resposta do paciente e da quantidade de vírus que o infecta.

“Se você tem uma cepa mais virulenta, que se replica mais rápido e agride mais o organismo, mesmo o paciente mais saudável vai ser agredido por um vírus teoricamente mais forte”, pondera o médico Arthur Faria. “Já vimos pacientes sem comorbidade evoluindo mal, e o contrário também. É meio que uma roleta-russa”.

Cuidando da cabeça
Em meio ao processo de inflamação generalizada que provoca o surgimento de trombos nos vasos sanguíneos e afeta órgãos vitais como os pulmões, o coração, o fígado e os rins, as complicações causadas não só pela reação do corpo contra o vírus, mas também pelo próprio período de internamento, podem ainda incluir o cérebro. E, como em qualquer outra experiência traumática, as emoções também precisam de cuidados.

Entre as consequências já documentadas, estão casos de síndrome de Guillain-Barré, doença que ataca os nervos e pode provocar paralisia; encefalite, que é a inflamação no cérebro; e encefalopatia, que corresponde a alterações no funcionamento e na estrutura cerebral.

“Mas o mais frequente são os acidentes vasculares cerebrais (AVC), quer sejam venosos, quer sejam arteriais, em pequenos ou grandes vasos”, afirma a neurologista Lúcia Brito, que coordena estudos sobre os efeitos do novo coronavírus no sistema nervoso em pacientes dos hospitais da Restauração e Português.

De acordo com ela, o comprometimento do cérebro pode ser tanto um resultado direto da ação do agente infeccioso quanto da reação imunológica responsável pelas inflamações que, em geral, começam no sistema respiratório.

“Isso leva ao sofrimento cerebral intenso, podendo levar ao óbito. Mas alguns pacientes que tiveram a forma grave e apresentaram uma boa resposta ao tratamento, muitas vezes, demoram a se recuperar completamente, com frequentes dores de cabeça, certo grau de adinamia (fraqueza muscular) ou, até, queixas relacionadas à cognição. E a gente não sabe ainda se são sequelas definitivas ou temporárias”, observa a especialista.

No campo neurológico, a pós-infecção pode manter ainda a perda do olfato e do paladar, sintoma comum já durante a doença.

Pacientes que foram internados por Covid-19 precisam, muitas vezes, de fisioterapiaPacientes que foram internados por Covid-19 precisam, muitas vezes, de fisioterapia (Foto: Paullo Allmeida/Folha de Pernambuco)

O processo de hospitalização, aliado ao agravamento da “saúde física”, se reflete também no psicológico, podendo gerar fantasias que envolvem medo e ansiedade.

Integrante do Conselho Regional de Psicologia de Pernambuco (CRP-02), a doutora em Psicologia Daniele Rabello lembra que o contexto de pandemia é capaz de agravar essas sensações com o sentimento de abandono, uma vez que o paciente com Covid passa todo esse tempo no hospital sem acompanhante. 

“Além disso, considerando que está todo mundo num momento muito caótico, sem entender muito bem o que está acontecendo, o que instaura, no mundo inteiro, uma situação de pânico, de estado constante de morte, e que é, na prática, insuportável para a saúde mental. Então, mesmo quem não está hospitalizado sofre”, frisa.

Já quem passou pelo processo de intubação pode sofrer ainda com o estresse pós-traumático, problema decorrente de uma situação de desgaste emocional muito intenso que pode produzir sentimentos de angústia extrema, tristeza e dificuldade de retomar a vida.

Para reverter esse quadro, é necessário acionar o que a psicóloga chama de “rede de fatores protetivos”, que inclui amigos, familiares e profissionais de saúde.

“Tem uma frase do senso comum que diz que cada cabeça é um mundo, e a subjetividade é, de fato, singular. Portanto, é importante trabalhar com essas pessoas aquele suporte que elas já carregam. São fatores que podem auxiliar [o paciente] a se manter fortalecido diante da necessidade de continuar se cuidando”, explica. “É tentar resgatar aquilo que a pessoa tem e que lhe faça bem”.

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