Do S. João e do S. Pedro

É preciso preservar as tradições de época tão importante

Não há como negar a importância dos santos comemorados em junhoNão há como negar a importância dos santos comemorados em junho - Foto: Da editoria de Arte

É inegável o valor dessas festas juninas, o São João e o São Pedro. Seus folguedos, representados magistralmente pelo forró, pelas quadrilhas matutas, pelas comidas de milho, pelos arraiás ornamentados com bandeirinhas, enchem-nos os olhos e o coração com lembranças e simbolismos de um Brasil rural, que precisam ser reavivados nas novas gerações.

Dentre todas essas representações, uma das mais significativas é a manutenção das tradições culturais por meio da culinária; por sinal, de tão importante, esta premissa vai ao encontro do que preconiza o Guia Alimentar para a População Brasileira, com as indicações: ”Apoiar práticas e culturas alimentares tradicionais saudáveis” e “comer em companhia”.

Preparar as comidas de milho envolve os rituais próprios, desde a compra do milho verde, indo até à escolha das receitas de família (que sobrevivem em muitos casos, aos trancos e barrancos), e o envolvimento de muitas pessoas na feitura da canjica e de outros pratos mais trabalhosos, como a pamonha.

E não podem faltar: bolo de milho verde autêntico (abaixo o de milho enlatado!), bolo de macaxeira e de massa de mandioca, milho assado ou cozido na própria espiga, pé de moleque feito com massa de mandioca, castanhas, leite de coco in natura - todos acompanhados de um bom café coado, façam-me o favor!

É certo que nos dias atuais essa tradição do fazer as preparações em casa vem cedendo lugar às encomendas nas padarias. Isso tira, em parte, o brilho do repasse dos segredinhos das receitas originais e do ritual, em si.

Afinal, quem não gosta de lembrar a briguinha de irmãos para raspar o fundo da panela de canjica, com a desejável crostinha dourada, meio queimada?... Lá em casa esta rotina era ansiosamente esperada a cada ano, embora fosse grande a trabalheira.

A saudade destes tempos bateu forte, graças às duas figuras afetivas que me remetem às mais caras lembranças das comidas juninas: Tia Lêda e Dona Maria. A primeira, por ser uma boleira de primeira e a segunda, por ser uma matuta assumida, agricultora que sofreu o exílio de sua terra natal pelas agruras da pobreza extrema.

Tia Lêda aniversariava em 26 de junho, bem ali no intermédio das duas festas, o que tornava difícil separar essa data dos festejos dos santos - tudo era motivo para nos empanturrarmos das delícias que ela fazia. Dona Maria mandava no cardápio nesses dias, lá em casa.

Envolvia a gente em todas as fases de preparo das comidas de milho, e ainda trazia do Interior os beijus e manuês (bolos de mandioca assados na palha da bananeira, que eu achava muito exóticos), quando ia visitar a família num período de recesso do trabalho.

Quantas lembranças! Mas do barulho dos fogos eu sempre tive horror. Pra “balançar o esqueleto” eu era tímida, restando-me, no máximo, encarar uns passos na quadrilha na intenção de fisgar meu primeiro amor platônico, na adolescência.

Quanto a essas outras reminiscências, no entanto, serei eternamente grata porque alicerçaram o patrimônio cultural que se encontra enraizado no que sou hoje. Para os que têm suas raízes no Interior, lá de onde tudo isto vem, minha admiração pelos esforços de preservarem as tradições.

Tomo como exemplo a querida Sonia Lucena, sertaneja das boas que, mesmo sendo mulher viajada pelo mundo afora, não dispensa sua turnê pelo Interior da Paraíba nesta época de folguedos juninos!

*É nutricionista e atua no Tribunal de Justiça de Pernambuco no Núcleo do Programa Saúde Legal

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