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Doença "misteriosa" que atinge a Costa do Marfim preocupa moradores

De acordo com as autoridades, trata-se de uma contaminação com clostridium, uma bactéria encontrada no "fetiche"

Parentes choram a morte de uma das 20 crianças mortes pela doença "misteriosa", na Costa do MarfimParentes choram a morte de uma das 20 crianças mortes pela doença "misteriosa", na Costa do Marfim - Foto: Issouf Sanogo / AFP

"À noite meu neto se sentiu mal, pela manhã tinha morrido", conta Amena Djaha à AFP. Nos últimos meses, cerca de 20 crianças de Kpo-Kahankro, no centro da Costa do Marfim, morreram repentinamente.

Na aldeia, as preocupações vão de crenças místicas à contaminação bacteriana.

"Em uma noite levaram meu neto, uma criança que tinha um ano e alguns meses que apenas engatinhava", disse Amena Djaha.

Sentada sob uma árvore de manga neste povoado próximo à cidade de Bouaké, a mulher se lembra da fatídica noite de dezembro.

Em 2 de dezembro, seis crianças começaram repentinamente a vomitar em Kpo-Kahankro. Seus corpos ficaram rígidos e os olhos reviravam antes de morrerem brutalmente, em poucas horas.

Já no fim de janeiro, quando a comoção da população foi dissipada, aproximadamente 15 pessoas - majoritariamente crianças e alguns idosos - morreram subitamente nas mesmas circunstâncias. Em Bouaké, dezenas de habitantes foram hospitalizados.

"As pessoas batiam na minha porta e gritavam 'a história começa de novo'", relembra Dorothée Kouamé Ahou. Enquanto relata sobre a perda de sua neta de três anos durante a noite, uma lágrima escorre em seu rosto.

"Sequer consegui ver novamente minha princesinha desde que ela morreu. Sinto falta dela", lamenta esta avó de 46 anos.

"É algo místico", afirma Nanan Koffi Patrice, chefe da aldeia.

"Charlatanismo"
Em Kpo-Kahankro não existem dúvidas de que um "fetiche" - objeto com poderes místicos - na casa de François Kouame Kouadio, um líder da aldeia, é a causa das desgraças que caíram sob a comunidade.

A tese foi acolhida pelo tribunal de Bouaké. Na quinta-feira (9), o tribunal condenou Kouadio e o "fetichista", acusado de montar o objeto, a cinco anos de prisão por "atos de charlatanismo e perturbação da ordem pública".

Diante da crise, membros do governo se deslocaram diversas vezes para Kpo-Kahankro.

O "fetiche" foi retirado da terra no começo de fevereiro e autópsias foram realizadas em alguns corpos, que não foram devolvidos às suas famílias.

De acordo com as autoridades, trata-se de uma contaminação com clostridium, uma bactéria encontrada no "fetiche" e que pode causar sintomas graves em crianças e idosos. O balanço oficial é de 16 mortos, embora os moradores tenham contado 21, sendo 18 crianças.

Essa conclusão convence os aldeões, embora não dissipe todas as áreas cinzentas.

"Fico feliz que o fetiche foi desenterrado, foi o que matou nossas crianças", expressou Amena Djaha.

"Mas meu neto nunca teve contato com este objeto. Ele mal andava e nunca saía do pátio", acrescenta a mulher que vive à centenas de metros do ponto de contaminação.

"Temos medo"
Os moradores deixam claro que não houve nenhuma cerimônia com o fetiche para crianças ou para aqueles que adoeceram depois.

"Basta uma criança ter tido contato com a bactéria e depois levar a mão à boca para adoecer. Elas podem contaminar brinquedos, objetos e, portanto, outras crianças", explicou o diretor do Instituto Nacional de Higiene Pública (INHP), Joseph Bénié Bi Vroh, que supervisionou a análise.

A aldeia, cuja escola tinha fechado e que ficou sem habitantes, repovoa-se gradualmente perante esta misteriosa epidemia.

Na semana passada, o "fetiche" foi desenterrado e removido de Kpo-Kahankro.

Após vários dias interrompido para testes adicionais, o serviço de água foi restabelecido na quinta-feira.

Desde então as mortes pararam, embora sem dissipar completamente a preocupação dos moradores.

"Claro que temos medo! Houve quase um mês de 'folga' entre os dois eventos em que houve mortes", diz Paul Kouassi, presidente de uma associação juvenil da aldeia.

O chefe da aldeia suspira: "Rezo para que isso não aconteça novamente. Nossos filhos ainda não foram enterrados".

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